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TV à la carte

por Roberto Rockmann — publicado 06/01/2016 18h28
Canais tradicionais perderam o controle sobre a audiência, que migra para dispositivos como Apple TV e Netflix
Stephen Lam/ Reuters
apple tv

Lançamento da Apple TV

No fim de outubro, chegaram às lojas dos Estados Unidos os primeiros aparelhos da nova geração da Apple TV. Uma das principais apostas da companhia, a televisão acopla novidades com um microfone embutido que permite comandos de voz para a Siri, assistente digital dos celulares da empresa. Se o usuário quiser encontrar um episódio de seu seriado preferido ou um determinado, é só pedir. Em segundos, a opção aparecerá na tela.

O controle remoto funciona de forma semelhante à tela de um iPhone. Basta deslizar o dedo pelo dispositivo e navegar por dezenas de aplicativos. “Essa é uma novidade disruptiva em um aparelho que mudou muito pouco em 60 anos. O futuro da televisão está nos aplicativos e em maior interação, em um novo modelo que dá liberdade ao espectador, ao permitir que provedores de conteúdo como a HBO possam vender diretamente para seus usuários”, destacou o presidente da Apple, Tim Cook, em recente evento.

Ainda é cedo para avaliar o impacto que a Apple TV, sem data de lançamento no Brasil, terá, mas a televisão começa a mudar, seja por meio da inclusão de aplicativos, seja pela demanda crescente de vídeo sob demanda ou canais pela internet. Cada vez mais, o espectador terá maior controle sobre o que vê, não apenas por meio da seleção de programas, mas dos horários. Isso terá impactos não apenas na estratégia de operadoras de telefonia, de TVs a cabo e aberta. Também afetará a receita do segmento e a divisão do bolo publicitário dos meios de comunicação.

Uma das maiores novidades é a transformação do Netflix, serviço de aluguel de DVDs criado nos Estados Unidos na década de 1990. Com o declínio da mídia, o avanço da internet e das televisões com acesso à rede, a empresa transformou seu modelo de negócios e passou a oferecer séries e filmes por televisores, celulares ou tablets. Inicialmente, vendia conteúdo de terceiros e há dois anos passou a criar seu próprio, de séries como Narcos, protagonizada pelo ator brasileiro Wagner Moura, a filmes como Beasts of No Nations.

Neste ano, o serviço bateu seu recorde de usuários. São mais de 65 milhões de clientes em todo o mundo, 23 milhões fora dos Estados Unidos. Nas contas do analista Barton Crockett, da FBR Capital Markets, empresa de investimentos e análise de mercado, se a Netflix mantiver seu ritmo de crescimento de 40% ao ano, sua audiência será superior, em 2016, àquela dos quatro maiores canais de tevê americanos – ABC, NBC, CBS e Fox. O Brasil, onde o serviço chegou em 2011 e marcou seu primeiro passo fora dos Estados Unidos, é o quarto maior mercado da empresa no mundo, atrás apenas dos EUA, Canadá e Reino Unido. Estimativas de analistas apontam que a receita no País pode chegar a 500 milhões de reais neste ano, o que desbancaria o faturamento da Band e da Rede TV! Os cerca de 2,5 milhões de usuários transformariam o Netflix em um dos cinco maiores canais de televisão a cabo em operação no território nacional.

(Wagner Moura na série 'Narcos', do Netflix)

O crescimento não vai parar por aí. Segundo relatório da consultoria francesa Dataxis, o Netflix deverá quase triplicar sua base de usuários na América Latina, de 3,8 milhões de assinantes para pouco mais de 10 milhões em 2018. México e Brasil continuarão a ser os principais mercados. 

Segundo estimativas da britânica Juniper Research, as assinaturas dos serviços chamados de OTT (Over the Top), conteúdo de vídeo entregue por meios alternativos, deverão passar de 92 milhões em 2014 para 332 milhões em 2019.  A receita global do serviço deve quase dobrar, de 26 bilhões neste ano para 51 bilhões de dólares em 2020, segundo a Digital TV Research. Só o Brasil tende a adicionar mais de 3 milhões de novos usuários.

O crescimento dos novos serviços concentrou as discussões do congresso da Associação Brasileira de Televisão por Assinatura realizado neste segundo semestre. Nos bastidores, o Netflix é chamado de Uber da televisão, em referência ao serviço de caronas que tem criado uma disputa com os taxistas, que alegam falta de isonomia, pois o aplicativo não paga imposto. Atualmente, os serviços de televisão por assinatura são regulamentados no Brasil. Estão submetidos a mais de 1,2 mil regras e pagam vários impostos, incluído o ICMS. Serviços como o Netflix teriam um custo 50% mais baixo por não atenderem a nenhuma regulamentação específica. Na abertura do evento deste ano, o presidente da ABTA, Oscar Simões, pediu “isonomia sobre todos os meios”.

O governo está de olho no assunto e tem sido pressionado pelas operadoras de televisão aberta e fechada. Em audiência no Congresso, o então ministro das Comunicações, Ricardo Berzoini, defendeu que serviços como Netflix sejam enquadrados por regulações nacionais. “Esses serviços de vídeo captam riqueza de dentro do Brasil para fora”, destacou. A discussão ocorre no momento em que a crise afeta o crescimento da tevê por assinatura e a tevê aberta perde audiência. As operadoras encerraram outubro com 255 mil assinantes a menos do que o número registrado há 12 meses, queda de 2,4%, segundo dados divulgados pela Agência Nacional das Telecomunicações.

O serviço alcança 29,22% dos domicílios brasileiros. O Grupo Claro, da mexicana América Móvil, é líder do mercado, com participação de 52%. Em segundo lugar fica a operadora via satélite Sky, com fatia de 28,25%, e, em terceiro, com 9,5% do mercado, a Telefônica Brasil. A tevê aberta emagrece, por sua vez. Maior canal do País, a TV Globo perdeu 5% de audiência em 2014, de uma média de 14,3 pontos em 2013 para 13,5 pontos, na Grande São Paulo, segundo dados do Ibope.

Um dos trunfos do Netflix está no preço dos pacotes. Uma assinatura custa cerca de 20 reais, enquanto a média das empresas de televisão a cabo cobra 50 reais.