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Universidades são reflexo de uma sociedade em construção

por Soraya Smaili publicado 04/09/2015 20h39
Dizer que a universidade pública é elista é um argumento fora do contexto atual. A expansão das universidades e as cotas mudaram esse paradigma
USP Imagens
Estudantes universitários

A política de cotas permitiu o ingresso de um novo perfil de aluno

A experiência de escrever, na condição de reitora, para uma coluna deste veículo trouxe à tona a reflexão sobre os principais temas relacionados à educação e que poderiam ser de interesse dos leitores, em particular no que diz respeito à educação pública e o papel das universidades em nosso país.

Em alguns dos artigos que publicamos anteriormente, comentários postados no portal e nas redes sociais trouxeram colocações instigantes, bem como elementos para um possível diálogo e aprendizado.

Em um ano em que o assunto educação ganhou projeção inesperada, viemos a público para dizer que para existir a pátria educadora é necessário mais investimentos e menos cortes por se tratar de área estratégica para o desenvolvimento da nação.

Ainda com relação à interação dos leitores, um outro aspecto chamou a atenção. A impressão de uma parte da sociedade de que a universidade pública é para os filhos dos mais ricos e para a formação de uma elite.

Na verdade, o processo de expansão ocorrido nas universidades e institutos tecnológicos federais, junto com a lei que vinculou 50% das vagas a cotas raciais e de escola pública, além do ingresso universal pelo sistema ENEM - SiSU, produziu mudanças profundas, embora ainda necessitem de ajustes. Não é possível prever a que tipo de modificação estamos envolvidos, mas já é possível dizer que as universidades e institutos nunca mais serão os mesmos.

Uma das maiores argumentações de articulistas do passado era de que a universidade pública seria elitista. Esse é um argumento fora do contexto atual. O que temos hoje é a presença de toda a diversidade socioeconômica, cultural, racial e política presente, e muito viva, no interior das nossas instituições. Essa mudança no perfil do estudante e do servidor deve ser analisada pois tem gerado um sentimento de incompreensão ou de revolta, mas mostra uma universidade em pleno processo de transformação.

A mudança é também de postura. Um dos exemplos de inserção da universidade em políticas públicas é o envolvimento dela com o enorme programa de formação continuada aos professores da rede pública que vem sendo desenvolvido.

A universidade federal se abriu e saiu de seus muros para levar aos professores do ensino infantil, básico e médio mais acesso à uma formação continuada de qualidade. Exemplo disso é o programa de cursos de especialização semipresenciais que têm sido oferecido por diversas universidades para os professores da rede. Só na cidade de São Paulo, milhares de vagas e dezenas de cursos gratuitos são oferecidos em 31 Centros Educacionais Unificados (CEUs) da cidade. Fica evidente que as universidades públicas terão papel fundamental para atingir o cumprimento das metas do Plano Nacional de Educação (PNE) até 2023. Há outros exemplos que gostaria de contar nas próximas oportunidades.

Por fim, resta saber por que a sociedade ainda desconhece suas instituições e o que elas produzem de bom. Provavelmente não estamos falando o suficiente ou temos ainda certo acanhamento em divulgar. Precisamos dialogar mais e buscar mais espaços para nos disponibilizar para essa mesma sociedade que nos mantém.

Este texto é um convite à reflexão e uma tentativa de que mais pessoas conheçam o que as universidades são capazes de produzir, os seus acertos e os dramas de ser o próprio reflexo da sociedade. Que elas estejam cada vez mais acessíveis, aberta e concatenando seus objetivos com as necessidades da população. Felizmente, este é um processo em construção e que pertence a todos nós. 

*Soraya Smaili é Reitora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp)