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Língua Portuguesa

Uma nota sobre leitura

por Sírio Possenti — publicado 14/06/2012 16h25, última modificação 14/06/2012 16h25
Ao escolher textos para ler, o professor precisa ver se estes dosam novidade e conhecimento

Sempre se ouvem conselhos sobre a necessidade de ler com atenção. Um aspecto moderno desta tese diz respeito ao fato de que, no mundo das redes sociais (e, antes, da internet), os leitores não leriam mais textos longos, exatamente os que demandam mais atenção.

É claro que a atenção é necessária em qualquer atividade que não seja totalmente mecânica: ler, dirigir carros, tocar piano, cobrar pênaltis etc. Mas essa ideia pode levar ao desprezo de outros fatores, talvez mais relevantes.

Segue-se uma nota que leva em conta um aspecto dos textos. Um “bom” texto tem duas características (tem bem mais, claro!): contém elementos conhecidos e elementos novos.

Se não contém elementos conhecidos, torna-se ilegível (para mim, todos os textos de física quântica, por exemplo). Se só contém elementos conhecidos, ler para quê?

Quero chamar atenção para o fato de que,  muitas vezes, um texto é impenetrável para um leitor, por mais que “preste atenção”, porque trata de um tema desconhecido. Este desconhecimento (ou distração) também pode afetar a redação, como veremos.

Dou pequenos exemplos relacionados ao futebol. Suponhamos que um jornal expresse a seguinte opinião sobre dois atletas: “Douglas e Danilo Fernandes foram mal. Especialmente o meia, que decepcionou de novo”. Se o leitor não conhece os jogadores em questão, se não sabe que Douglas é meia e Danilo Fernandes, goleiro (de um certo time, numa certa época), não conseguirá ler este texto, ou esta passagem do texto. Não adiante espremer a cabeça, concentrar-se, esforçar-se, nem tomar um remédio.

O conhecimento “prévio” (ou sua falta ou esquecimento) também explica problemas de escrita. Veja-se esta descrição de um lance de um jogo, na internet:

Roger lança Bobô em rápido contra-ataque, mas o atacante chuta forte para defesa de Édson Bastos.

O “mas” está fora de lugar. Qualquer pessoa que conheça um pouco de futebol sabe que é mais difícil defender um chute forte do que um fraco. Então, o que este texto diz (quer dizer) é que o chute foi forte, MAS o goleiro defendeu. A redação deveria ser:

Roger lança Bobô em rápido contra-ataque; o atacante chuta forte, MAS o goleiro defende (ou: apesar do chute forte, o goleiro defende...)

A redação original é sem sentido (embora pareça clara). A redação “Mas chuta forte para a defesa...” só seria boa se um chute fraco criasse mais dificuldades para um goleiro do que um forte.

Moral da história: antes de mandar escrever, um professor deve providenciar que haja alguma pesquisa. Ao escolher textos para ler, é bom ver se dosam novidade e conhecimento suposto.