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Entrevista

Trabalhar é aprender

por Fernando Vives — publicado 03/12/2010 16h22, última modificação 03/12/2010 16h17
O psicólogo da UnB Wanderley Codo defende que os adolescentes também exerçam um ofício
Trabalhar é aprender

O psicólogo da UnB Wanderley Codo defende que os adolescentes também exerçam um ofício. A Fernando Vives. Foto: Sergio Amaral

O psicólogo da UnB Wanderley Codo defende que os adolescentes também exerçam um ofício

Entender como funciona o mercado de trabalho para os adolescentes que estão no Ensino Médio é importante em tempos de economia aquecida. De que maneira ter de trabalhar impacta na formação de um jovem? Que benefícios ele pode tirar da experiência precoce? Foram com essas perguntas que a reportagem de Carta na Escola procurou Wanderley Codo, professor doutor da área de Psicologia da Universidade Federal de Brasília, cuja carreira de psicólogo é permeada por estudos do ambiente de trabalho e educação, entre outras. Codo surpreendeu nas respostas, partindo sempre de duas ideias fundamentais. Primeiro, acredita que o adolescente que trabalha tende a ser mais produtivo que o seu colega que só estuda. O motivo: a procura pelo foco cedo lhe dá mais experiência de vida, que permite melhores tomadas de decisão no futuro, e incentiva os jovens a procurar exercer um ofício logo, ainda na adolescência. Segundo, entende que o mercado de trabalho mudou muito nos últimos tempos, mas que as pessoas ainda não deram a devida conta disso. “Antigamente, quem se dava bem era o sujeito com conhecimento agregado. Hoje, é o cara que não necessariamente tem conhecimento, mas que sabe aonde buscá-lo, que consegue resolver problemas”, afirma. Autor de 12 livros, entre os quais Educacão, Carinho e Trabalho (Ed. Vozes), sobre o ofício de professor, Codo também fala, nesta entrevista, a respeito da delicada relação entre educador e aluno, que, segundo ele, passa necessariamente pelo afeto. “O professor precisa ter cuidado para ensinar, mas isso gera uma estafa em sua vida”, diz.

Carta na Escola: O senhor explica em alguns dos seus livros que a psicologia do trabalho é, no Brasil, pouco estudada ou, quando é, é pouco levada a sério, sobretudo na área educacional. O que o levou a concluir isso?
Wanderley Codo: São duas as vertentes fundamentais para isso. Primeiro, existe uma tradição da psicologia do trabalho muito mais voltada para os interesses da empresa do que para os do trabalhador, e isso não somente no Brasil. Foi assim que ela se constituiu e ainda causa estranheza você pensar no trabalhador e não na empresa ao estudar essas relações. A segunda, e mais importante, especificamente, para a área educacional, é o problema de que, no imaginário social, a educação não é vista como trabalho, e sim como sacerdócio, uma missão. Um jornalista ou um cientista trabalha, mas o professor não trabalha, e sim exerce uma missão. Então são pontos que dificultam a compreensão da psicologia do trabalho.

CC: E até hoje conseguimos dizer, portanto, que a psicologia do trabalho é pouco difundida entre os trabalhadores?
WC: Podemos dizer que ela é subestimada. Felizmente há estudos e publicações sobre isso que tendem a mudar o cenário aos poucos. Os sindicatos são bons para isso também. Eu sempre falo desse tema e sempre tive sindicatos como clientes, não há dúvidas de que entendem que este debate é rico.

CC: Vamos falar sobre estudantes que também trabalham. O perfil do jovem de Ensino Médio que entra no mercado atualmente é diferente do jovem que fazia o mesmo antigamente?
WC:
Há diferenças, mas isso acontece não porque os jovens mudaram, e sim porque o mercado de trabalho mudou. Há dez anos, você se formava para ter um emprego. Então toda a sua formação era para conseguir isso, o que basicamente significava entrar numa empresa, fazer carreira ali e ficar até se aposentar. Hoje não é mais essa a questão, porque ninguém mais quer um empregado para a vida inteira. Ao contrário, você quer alguém que resolva seu problema agora. Então tem hoje um jovem preparado para o mundo do emprego, mas o mundo do emprego não existe mais. O Caetano Veloso falava, já na década de 1960, em É Proibido Proibir, sobre ficar tentando matar amanhã o inimigo que morreu ontem. Não há uma adaptação, e isso não é um problema do jovem, e sim da estrutura de formação que se criou para ele. As universidades e os cursos técnicos não o preparam para o mercado de trabalho atual, e sim para o de até 20 anos atrás.

CC: E leva tempo para haver entendimento dessa mudança?
WC:
Quando tempo leva, não dá para saber, mas vai ser o tempo necessário para se tomar consciência do processo. Não tenho visto escolas tanto públicas quanto privadas darem conta dessa história. Infelizmente tem-se uma educação voltada para um planeta que não existe mais.

CC: Quando o senhor fala que não existe mais emprego, quer dizer exatamente o quê?
WC: Vou exemplificar. O que é emprego? É uma jornada de trabalho fixa por um salário e por algum tipo de separação entre planejamento e execução. Quem hoje tem trabalho que implica isso tudo? Um jornalista não, por exemplo. Não costumam ter jornada fixa e não têm salário fixo, porque pode ganhar um extra ao fazer free lancers. Este é o cenário em que a maioria dos trabalhadores já está vivendo, não apenas jornalistas. O educador, por exemplo, não tem jornada – além das várias aulas, às vezes ele está assistindo a uma novela e descobre nela que pode fazer um exercício a ser usado em sala de aula no dia seguinte. Ele está trabalhando ao fazer isso? Ninguém sabe se está ou se não. Então essa concepção de emprego mudou. A jornada fixa está cada vez mais rara em alguns setores da indústria, e quando existe, o há com vários estratagemas, como flexibilidade de jornada, banco de horas etc. Então não estamos mais falando em jornada fixa, muito menos simplesmente em salário.

CC: Entre outras palavras: na sua visão, existe uma defasagem entre o que é o trabalho hoje, na prática, e a concepção que as pessoas ainda têm de trabalho.
WC: Isso! E é perfeitamente natural. Exemplo: as pessoas descobriram que poderiam ter relacionamento sexual antes do casamento muito antes de as leis permitirem isso. É natural que o movimento da História ocorra mais rápido que a percepção que as pessoas têm dela. Quem estuda História aprende isso logo de cara.

CC: O mercado de trabalho sofreu um forte aquecimento nos últimos anos. Hoje é mais fácil conseguir um trabalho temporário do que já foi no passado. Alunos com carteira assinada tendem a se dedicar menos aos estudos?
WC: Tudo seria ótimo se as agências de emprego tivessem se ligado no movimento que está acontecendo. Existe um processo de formação de mão de obra que remete ao século passado para um mercado que não quer mais essa formação. Você precisa, portanto, de um garoto que precisa resolver problemas. Quais? Não sei ainda, vou descobri-los amanhã de manhã. No entanto, você vê nos cursos técnicos jovens preocupados em arrumar um emprego e obedecer seu patrão. Agora você tem um handicap brutal entre o que o mercado está precisando e o que a universidade e os cursos técnicos estão oferecendo. Aliás, a universidade via pior nesse processo, porque ela insiste em um modelo escolástico de formação que rigorosamente não corresponde à realidade mais.

CC: E como definiria esse modelo escolástico?
WC: Seria a ideia de que o conhecimento é universalizável e pode ser aplicado em qualquer lugar do planeta. Não existe mais isso. Agora você aprende a aprender. O que o mercado quer é um pesquisador ou um cientista em potencial, em qualquer área. Isso se chama na linguagem técnico-burocrática de “empreendedor”. O sujeito tem de entrar naquele local de trabalho e resolver um problema. Procura-se um empreendedor. Veja o seu trabalho de jornalista. O que você fez para falar comigo? Você foi buscar um sujeito para falar sobre os jovens e o trabalho, me achou, entrou em contato, viu sobre minhas obras e agora está falando comigo. O que é isso? Um trabalho de pesquisa.

CC: E já que é necessário o perfil do sujeito que sabe aprender a resolver problemas em vez de quem tem o conhecimento agregado, dá para a gente dizer que, por conta desse perfil, existe uma diferença menor entre uma pessoa que sabe trabalhar na prática do que um estudante universitário?
WC: Sim, é isso, até que a universidade encontre o planeta real e comece a trabalhar sobre a atual necessidade do mercado. Vai valer mais o brilho da atuação individual do que o currículo acadêmico – claro que se remunera mais quem tem diploma universitário, mas não vamos entrar neste mérito. O estudante pode não ter cultura agregada, mas se ele sabe resolver problemas, terá sucesso. O perfil valorizado é o do sujeito que sabe aprender, não o que tem conhecimento agregado.

CC: Antigamente era comum as famílias, sobretudo, das classes C, D e E acharem que o filho que está na escola teria mais chances na vida se deixassem de estudar para trabalhar. Essa mentalidade ainda está presente?
WC: Olha, as famílias querem um bom emprego ainda para os seus filhos. Isso ainda é uma verdade absoluta, Ensino Superior ou Técnico.

CC: O estudante que trabalha acaba tendo menos tempo para se dedicar aos estudos. Qual o impacto disso na escola?
WC: Talvez a nota dele não seja tão boa, mas, paradoxalmente, ele se dá muito melhor na vida. O estudante que trabalha inventa um foco cedo. O aluno que só estuda muitas vezes acaba não tendo foco ou a pressão devida. Dou aula há 35 anos em faculdades, e faz 35 anos que os alunos que estudam à noite e trabalham o dia inteiro vão melhor que os alunos que têm tempo o dia inteiro.

CC: Mas trabalhar implica fortes mudanças na construção de sua personalidade...
WC: Eu sou muito a favor de os adolescentes trabalharem. A melhor escola do mundo é o trabalho. O garoto deve ser explorado? Claro que não, mas ele deve ter compromissos cedo, isso vai ser muito benéfico para moldar a sua personalidade.

CC: Então aquele modelo americano, em que os pais das classes baixa e média incentivam seus filhos a ter empregos nas férias ou nos períodos do dia em que não estão estudando, é benéfico?
WC: Esse é o modelo americano, e é também da União Soviética quando esta existia. As duas potências investiram nisso, e dá para entender que ele dá certo. Isso envolve a construção da vida, isso é uma experiência que faz bem para as pessoas.

CC: O senhor entende que a experiência de trabalhar cedo gera, portanto, uma mudança positiva. Essa mudança é mais rápida ou mais profunda?
WC: Mais rápida e mais profunda. Quanto mais cedo começar a cuidar da vida, melhor para eles.

CC: O senhor diz que a relação do professor com o estudante precisa de um certo vínculo afetivo entre as duas partes. Por quê?
WC: O trabalho do professor é caracterizado, essencialmente, pelo vínculo afetivo. Não há outra fórmula de ensinar que não seja por vínculo afetivo. É um trabalho de cuidado. Ao fazer essa entrevista, você não está cuidando de mim, e eu não estou cuidando de você. No caso do professor, sim, depende. Estamos falando, fundamentalmente, de afeto. O livro que escrevi chama-se Educação, Carinho e Trabalho. Educação e saúde são os setores em que carinho se confunde com trabalho, cuidado se confunde com trabalho. E isso é a dor e a delícia de ser professor, e isso gera um desgaste brutal, embora, necessariamente, ruim. Esse desgaste é estudado desde 1975 e tem o nome de burn out, que é perder a empolgação pela profissão.

CC: É um problema habitual da profissão do professor. E como sair dele quando acontece?
WC: Essa é minha linha de pesquisa recente. O educador estafado deve se voltar para si e para suas condições de trabalho, mas não deve fazer isso sozinho, o faça coletivamente, busque com seus parceiros de trabalho o que é que está dando problema.