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Sherlock Holmes das grandes causas

por Carta na Escola — publicado 09/03/2012 17h49, última modificação 09/03/2012 17h49
Na atual versão cinematográfica, o detetive deixa de desvendar roubos e assassinatos isolados para garantir a estabilidade da Inglaterra e evitar a 1ª Guerra
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Na atual versão cinematográfica, o detetive deixa de desvendar roubos e assassinatos isolados para garantir a estabilidade da Inglaterra e evitar a 1ª Guerra. Foto: Divulgação

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Por Mário Corso, psicanalista e autor, entre outros, de Psicanálise na Terra do Nunca: Ensaios sobre a fantasia, escrito com Diana Corso (Artmed)

As crianças gostam de contos de fadas, histórias que lhes transmitam confiança no mundo. A certeza de que, no fim, tudo que descarrilou voltará ao normal as tranquiliza. Não importa o quanto o herói sofra, quantas perdas tenha, haverá uma reviravolta que colocará tudo outra vez em equilíbrio. Crescemos e seguimos pedindo à ficção garantias de que a justiça triunfará, que os bons serão recompensados e os maus pagarão suas faltas. No romance policial o mal é rastreado, esquadrinhado, compreendido e, finalmente, vencido. Como já não temos o olhar onisciente de um deus sobre nossas faltas, criamos a ideia de que a ciência e seus métodos, aliados a homens especialmente inteligentes, descobrirão tudo. O que nos amedronta virá à luz e será eliminado. Graças a essa linhagem de homens brilhantes e implacáveis, seria impossível esconder um crime, assim como era enganar os deuses. O romance policial é o conto de fadas dos adultos e o detetive é o seu deus decaído. Essa ficção cria um cosmo onde os fatos, no princípio, não fazem sentido, mas que um olhar esperto junta as pontas soltas, desvela a maldade e a domina. Não sabemos bem qual é a face do mal ou o número de seus demônios, mas ele é vencível. E, mais, o mundo não é caótico, não é som e fúria gratuita.

Consideramos Edgar Alan Poe o criador do romance policial, mas o maior detetive, arquétipo de todos os que seguiram, nos foi dado por Conan Doyle com seu impagável Sherlock Holmes. Esse detetive transcendeu seu criador e a obra que o originou. Como outros personagens que se tornaram ícones, ganhou contornos de um mito contemporâneo. Por isso muitos se apropriam dele para lhe atribuir novas aventuras. Um mito é um instrumento que ajuda a pensar, uma fantasia a serviço da subjetividade de cada época. Ele muda ao sabor das transformações dos modos de ser e de conceber o mundo e revela um pouco de nós mesmos, de nossos anseios e angústias.

Por ser o melhor, Holmes possui todas as características que distinguem e definem os detetives. Além das óbvias, como inteligência aguda, rapidez de raciocínio, conhecimento enciclopédico, excentricidades aleatórias, eles tendem a ser assexuados. Os grandes detetives não têm família, não se envolvem com namoradas, ou então são passageiros os seus affairs. Possuem uma misoginia difusa – tudo indica que as mulheres atrapalham a concentração – e essa atitude retoma na modernidade a antiga ideia de que sexo e pensamento sério não andam juntos. As mulheres seriam mundanas demais e por isso atrapalham os voos mais altos do pensamento. Como nas antigas religiões, é preciso estar puro para ascender ao sagrado e à verdade.

Um dado que pouco nos damos conta é a revolução do pensamento que Conan Doyle propõe, e talvez essa seja uma das razões não explícitas de seu sucesso. O modo de pensar na virada do século XIX para o XX era partir do todo e para o particular. Doyle pega no ar a mudança e nos demonstra a possibilidade de chegar à verdade através de pequenos indícios, pistas infinitesimais em que antes não reparávamos. Hoje é fácil, depois do DNA, acreditar que as pequenas coisas têm assinatura. No começo do século passado era apenas uma intuição.

Mas o que a última versão de Sherlock, os dois filmes de Guy Ritchie, mantém do original? Ainda é o nosso Holmes? Creio que sim, as características da sua -personalidade foram mais mantidas do que as do gênero policial. Os filmes estão mais próximos dos romances de aventura. No romance policial, o crime já está dado, basta decifrá-lo, enquanto na aventura o mal está em curso e cabe ao herói alterar seu curso. Além disso, o Holmes de nossa época pede um equilíbrio maior entre corpo e cérebro. Hoje, um herói de poltrona, sem músculos e agilidade, seria impensável. O mesmo se dá em relação a Watson, seu fiel escudeiro, que passa a ser mais esperto e participativo. Nosso tempo antiaristocrático não suporta parcerias tão assimétricas.

Quanto aos objetivos, Holmes alargou seus horizontes: agora as grandes causas lhe interessam. Em vez de assassinos pérfidos isolados, roubos e intrigas, na sua versão atual a meta é a estabilidade política da Inglaterra e evitar a Primeira Guerra Mundial. Repaginado, ele sai da esfera policial e chega à política. Agora é um herói mais elevado e politicamente correto. Sua inteligência está a serviço do bem de todos.