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Entrevista

Química, ainda uma estranha no ninho

por Lívia Perozim — publicado 21/03/2011 16h51, última modificação 21/03/2011 16h51
Conhecer suas qualidades e aproximá-la do cotidiano são os desafios no ensino dessa ciência, diz Gerson Mól

Conhecer suas qualidades e aproximá-la do cotidiano são os desafios no ensino dessa ciência, diz Gerson Mól

Pergunte a alguém que já concluiu o Ensino Médio o que ele aprendeu sobre Química e conte com 99,9% de chance de a resposta ser “decorar a tabela periódica”. Detalhe: não é preciso ter concluído o Ensino Médio há muito tempo para a probabilidade de já ter se esquecido dos componentes químicos também ser altíssima. Poucos entendem que toda matéria encontrada no universo é composta de elementos químicos e que conhecer suas combinações nos leva a fabricar materiais que vão melhorar a nossa qualidade de vida, a exemplo de medicamentos, alimentos, novos materiais, ligas metálicas, energia etc. Reconhecer tais qualidades e aproximar a Química do cotidiano do cidadão são ainda os grandes desafios no ensino dessa área do conhecimento, na opinião de Gérson Mól, doutor em Ensino de Química e professor pesquisador do Instituto de Química da Universidade de Brasília (UnB). Nesta entrevista, Mól explica o que se deve esperar do ensino de Química no Ensino Médio, qual é a importância dessa ciência e como se dá o desenvolvimento de pesquisas no Brasil. O atual diretor da Divisão de Ensino da Sociedade Brasileira de Química fala também sobre a falta de professores na área científica, as novas profissões ligadas à Química e as ações da UnB para promover a ciência neste que foi declarado o Ano Internacional da Química.

Carta na Escola: A Unesco declarou 2011 o Ano Internacional da Química com o objetivo de popularizá-la e mostrar como ela está presente no cotidiano das pessoas. Por que a Química ainda é desconhecida do cidadão?
Gérson Mól:
A Química é comumente vista pela sociedade como uma vilã responsável por tragédias, como o derramamento de petróleo no Golfo do México, pela poluição de águas, contaminação do ar etc. No entanto, muitas pessoas desconhecem que nosso cotidiano está repleto de benefícios advindos da Química. É ela que possibilita a produção de alimentos em quantidades suficientes para atender à crescente população do planeta, permite a criação de tecidos para diferentes situações de frio e calor, a construção de computadores e outros aparatos tecnológicos. É preciso que a sociedade reconheça essas qualidades.

CE: Quais são hoje os principais entraves no ensino de Química, que afastam essa área do conhecimento do cotidiano das pessoas?
GM:
Muitas pessoas vêm de um ensino de Química que primava pela decoreba de nomes, estruturas e regras. Um ensino que fazia questão de colocar a Química como uma ciência difícil e acessível só a poucos iluminados. Essa visão vem mudando e muitos livros didáticos já buscam associar o conhecimento escolar químico com a vida dos alunos e outras situações que estão presentes em nossa sociedade. No entanto, esse não é um caminho curto. Ainda há muito a ser trilhado.

CE: O que significa ensinar Química para o cidadão comum?
GM:
Ensinar Química para a formação cidadã é ensinar uma Química que faça sentido para o aluno. Uma Química que seja útil no dia a dia e o ajude a compreender questões que estão à sua volta, relacionadas à qualidade da água, do ar, do solo, ao uso de medicamentos, de anabolizantes e de cosméticos, entre outros temas.

CE: O que todo cidadão deveria saber sobre Química?
GM:
Questões básicas que nos ajudem a entender, por exemplo, por que um álcool- comercial é líquido e pega fogo, e outro álcool é um gel e não pega fogo. Entender que são produtos com diferentes objetivos e, por isso, possuem propriedades diferenciadas. Entender que não há como comprar um produto sem química, porque todos são constituídos de substâncias, embora um possa ser natural e o outro, industrializado.

CE: Os conteúdos programáticos têm um núcleo comum mínimo de tópicos químicos fundamentais?
GM:
As atuais diretrizes curriculares não impõem conteúdos, mas que os alunos desenvolvam habilidades e competências. Para isso, alguns conhecimentos acabam por ser tornar fundamentais. É difícil entender as propriedades das substâncias e materiais sem conhecer um pouco de como é a estrutura dos átomos, como estes interagem para formar as substâncias que constituem tudo que está à nossa volta, incluindo nós mesmos.

CE: Faltam professores nessa área?
GM:
A Química, como as demais áreas das ciências, carece de quantidade de professores que atendam às necessidades do sistema de ensino. O número de professores formados pelas instituições de ensino superior não é suficiente para atender à carência. Além disso, grande parte dos formados é atraída por outras funções que pagam mais. Temos contato com muitos alunos que se formaram para o magistério, mas que acabaram por assumir outras funções nas quais a carga de trabalho era menor e/ou o salário maior. Enquanto não houver maior valorização do magistério, por parte da sociedade e dos governantes, esse quadro não se reverterá. Satisfação pessoal não é suficiente para enfrentar barreiras como a falta de estrutura e de reconhecimento.

CE: A procura pela licenciatura ou bacharelado em Química é baixa, Ou seja, quase não há seleção na entrada. Isso interfere na qualidade dos cursos?
GM:
Claro. Muitos alunos entram nos cursos de licenciatura dizendo que não querem ser professores. A falta de incentivo para se dedicar ao ensino é muito grande, levando muitos potenciais candidatos a escolherem cursos que prometem perspectivas profissionais melhores. Quando o magistério for adequadamente valorizado, a procura crescerá naturalmente. Esse é um fator que ajudará a melhorar a educação. O governo Lula fez bons investimentos em educação. Esperamos que isso continue e que consigamos reverter esse quadro o mais rápido possível.

CE: Como o senhor vê o uso de laboratórios e aulas práticas?
GM:
O uso de atividades experimentais tem valor importante no processo de ensino de ciências. No entanto, a visão atual desse recurso é diferente da que se tinha décadas atrás. Aluno do Ensino Básico não tem de dominar técnicas de laboratório. A experimentação deve ser vista como um facilitador de aprendizagem. Se ela não tiver essa função, seu uso será questionado. Nessa linha, o uso da experimentação não pressupõe um laboratório todo equipado e cheio de reagentes. Atualmente, trabalhamos com a perspectiva de que as atividades favoreçam a aprendizagem do conteúdo escolar, que sejam simples, não representem riscos e possam ser feitas mesmo nas escolas mais simples. Com o tempo também mudou nossa relação com o ambiente e não se admite mais gerar um monte de rejeitos e descartá-los na pia.

CE: Quais são as proporções da produção científica em Química no Brasil?
GM:
O Brasil não tem uma posição muito favorável no quadro mundial, embora apresente uma produção crescente. De acordo com o ex-ministro da Ciência e Tecnologia Sergio Rezende, a produção científica brasileira “tem crescido e o país- está perdendo o complexo de vira-lata e se aproximando do grupo dos dez que mais produzem ciência no mundo”. No nosso caso, que trabalhamos com Ensino de Ciências, temos assistido a um grande aumento na produção e formação de profissionais capacitados a gerar conhecimento. Atualmente, a área de Ensino de Ciência e Matemática da Capes, que cuida dos cursos de pós-graduação para a formação continuada de professores de Ciências, entre as quais a Química, é uma das que mais crescem. No ano passado, eram 60 cursos e hoje já são 67. Isso tem proporcionado um crescente aumento nas pesquisas que visam melhorar o ensino de Ciências e Matemática, fundamental para a melhora na formação de professores e no ensino.

CE: Nos EUA, a Química é o setor que mais impulsiona o PIB. E no Brasil?
GM:
A indústria química participa do PIB brasileiro com uma modesta fatia de cerca de 3%, segundo dados da Associação Brasileira da Indústria Química, embora o faturamento líquido seja crescente. A grande dificuldade é o pouco investimento na pesquisa de ponta, levando-nos à condição de grande produtor de matéria-prima básica com pouco valor agregado.

CE: Qual a área da química que mais recebe recursos para pesquisa?
GM:
Algumas áreas têm sido consideradas prioridades para o governo, como a produção de biodiesel e a nanotecnologia. Nós, da área de ensino, trabalhadores da educação, estamos esperando que tal importância também seja dada à pesquisa em ensino para que possamos rever vários quadros nos quais não temos posição favorável. Infelizmente, a educação é uma delas.

CE: Estão sendo feitos esforços para praticar uma “química verde”, que substitua processos químicos danosos para o ambiente por recursos benignos e sustentáveis. É um novo mercado que se abre aos jovens?
GM:
A sociedade moderna não admite práticas antigas que comprometam o meio ambiente. A química verde surge como uma proposta de resignificação do trabalho dos profissionais dessa área, propondo alterações que passam pela economia com eficiência e segurança. Para que as práticas sejam alteradas, é necessário, além da mudança de hábitos, o investimento em pesquisa e desenvolvimento de novas tecnologias, abrindo grande espaço de atuação para profissionais formados numa perspectiva moderna e socialmente comprometida.

CE: Que outras oportunidades de carreiras ligadas à química podem hoje ser seguidas pelos jovens?
GM:
Os químicos formados pelas universidades não têm problema de desemprego. Como há formação de menor quantidade de profissionais que o mercado precisa, os melhores profissionais são disputados e têm grande chance de conseguir boa colocação no mercado de trabalho. Os licenciados têm emprego garantido, graças à carência de professores de Química. Uma boa dica para os graduandos é buscar uma dupla habilitação. Como eu, muitos professores não entram para o curso de Química pensando em ser professor. A licenciatura abre as portas do magistério e nele muitos que só queriam ser químicos, como eu, se realizam.

CE: Quais atividades especiais a UnB planeja para promover a Química em 2011?
GM:
A grande tônica da programação é o diálogo com a sociedade. Nesse sentido, estamos preparando exposições e eventos que visam levar a Química para perto das pessoas que acham que não têm contato com essa ciência e que ela é só uma disciplina difícil. A programação ainda não foi fechada, mas será amplamente divulgada.