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Língua Portuguesa

Pitel?

por Sírio Possenti — publicado 27/06/2012 16h57, última modificação 28/06/2012 09h20
Em vez de desesperar professores, erros de grafia isso deveria animá-los

Os erros de escrita são, em geral, muito reveladores, como já comentei em colunas anteriores e sempre vale a pena repetir, porque temos obsessão excessiva pela grafia correta.

Os dados não param de pipocar. Vêm de todos os lados.

Encontrei por acaso o Pequeno dicionário brasileiro da língua morta, de Alberto Villas (Editora Globo), também . Para quem tem curiosidade em relação a novos sentidos que as palavras de tipo gíria adquirem e logo perdem, é um excelente documento. A revista Língua Portuguesa (nas bancas), em seu número 80, publicou pequena e reveladora resenha do livro.

Mas não vou falar do tema do livro, mas só de uma palavra, “pitel”, que me fez ficar com a pulga atrás da orelha. Originalmente, é um salgadinho, informa o autor (para o Houaiss, é “iguaria saborosa”). Num certo momento, e em certos contextos, significou ‘mulher gostosa’, aprende-se (ou lembra-se) lendo o dicionário. Hoje, diz Villas, em vez de “pitel”, com esse sentido, se diz “delícia” (veja-se Michel Teló). O leitor pode ver que se trata de uma gíria.

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Acontece que o Houaiss registra “pitéu”, não “pitel”. A pulga atrás da minha orelha era exatamente por isso: eu só conhecia a grafia com “éu”. Até por isso fui conferir. Eu podia estar seguro, mas completamente errado.

O objetivo não é criticar este ou aquele autor, este ou aquele erro. O objetivo é repetir que só se erra grafia onde se pode, que os erros são quase sempre os mesmos. Em vez de desesperar professores, isso deveria animá-los. Por que? Por que são sempre os mesmos, porque têm boas explicações (a pronúncia de “pitéu” e de “pitel” seria a mesma; especificamente: “l” em final de sílaba soa “u” em quase todo o país). Outra razão para não desesperar: mesmo profissionais erram, e também eles nos lugares esperados.

O bom desse fato é que pode ajudar a ver melhor, com mais objetividade, como é nossa língua, a língua real, a partir da qual fazemos esforços para dominar quase outra: a língua escrita culta.

Lendo, observando as palavras, comparando a escrita de quem está aprendendo com a que está nos livros, aos poucos (mas nem tão devagar assim, se fizermos isso sempre), a escrita também se torna nossa.