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Reportagem

Para ler Leminski

por Ana Mariza Filipouski — publicado 09/06/2013 12h28
Recém-reunida em antologia, a obra poética do curitibano, misto 
de erudito, escritor e artista pop, testa os limites da linguagem, valoriza a concisão e o humor, e confirma uma atitude de vanguarda que tem muito a dizer também ao público infantojuvenil
Paulo Ricardo
Paulo Leminski

Poeta mutante: versos revelam um idealista romântico, apaixonado e questionador de toda forma de poder

Ana Mariza Filipouski, professora, coautora de "A Formação do Leitor Jovem: Temas e Gêneros da Literatura e de Leitura" e "Autoria: Planejamento em Língua Portuguesa e Literatura", ambos pela Edelbra

Jovem culto, inteligente e criativo, filho mestiço de polaco com negra, Paulo Leminski nasceu na cidade de Curitiba, Paraná, em 24 de agosto de 1944. Muito cedo começou a ser conhecido como um intelectual carismático, mix de erudito, escritor e artista pop, figura emblemática para sua geração.

Foi uma personalidade múltipla: escreveu narrativas, biografias e poemas, traduziu livros, compôs canções, lecionou História e Literatura em curso pré-vestibular, fez jornalismo, publicidade e televisão, foi agitador cultural e professor de judô. Dedicou-se à cultura e à literatura em tempo integral: “Minha vida é administrar papéis”, dizia.

No gênero lírico, publicou, entre outros, Caprichos e Relaxos (1983), Distraídos Venceremos (1987), La Vie em Close (1991). Produziu canções que foram musicadas por Morais Moreira, Itamar Assumpção e Arnaldo Antunes, entre outros. Na prosa, escreveu obras como Catatau (1976), Agora É Que São Elas (1984) e Metamorfose (1994). As obras desrespeitam as fronteiras entre a narrativa, a lírica e o ensaio e assumem um caráter híbrido de tradição joyceana. Leminski também publicou literatura infantojuvenil, Guerra Dentro da Gente (1986), considerada por Haroldo de Campos uma fábula zen para crianças grandes. É a história de Baita, menino pobre, filho de lenhadores, que aprende a arte da guerra. Cuida de animais, é vendido como escravo, vive aventuras e acumula poder e prestígio. No final, retorna à aldeia cheio de sabedoria.

Como biógrafo, dedicou-se à vida de Jesus Cristo, Cruz e Souza, Matsuo Bashô e Leon Trotski. Em relatos que retomam as figuras humanas e as inserem em um contexto histórico, cultural e literário, foi irreverente tanto na escolha dos biografados quanto no gênero que realizou, já que recorre a uma prosa que mescla o ensaio e a crônica jornalística.

Relativamente à tradução, mostrou versatilidade quanto ao domínio de vários idiomas: latim, japonês, inglês e francês, entre outros.

Transformou-se em fenômeno de massa depois que Caetano Veloso musicou e gravou uma composição sua, Verdura. Hoje, mais de 20 anos após a sua morte (7 de junho de 1989), o lançamento de Toda Poesia (Companhia das Letras, 2013) volta a alçá-lo à condição de best seller: vendeu, apenas em março, cerca de 20 mil exemplares.

O poeta e o haicai

Os textos revelam uma pessoa múltipla e inquieta capaz de sintetizar em versos influências orientais e cristãs, amalgamadas por teo­rias literárias. Dos concretos herdou o gosto pela concisão e o forte apelo à imagem, a valorização da palavra enquanto signo e matéria-prima básica do poema; do modernismo, ou da contracultura, veio o resgate da comunicabilidade, o humor. Também valorizava a concisão e o combate ao sentimentalismo, caminhos pelos quais chegou ao haicai.

Entretanto, não se manteve nos limites da estética japonesa, mas extraiu dela a precisão, não se restringiu ao simbolismo objetivo de notação sensorial, restrito ao renovar das estações, mas acrescentou a possibilidade do humor, construído de forma inusitada. Sua obra revela sua filosofia de vida: foi um idealista romântico, apaixonado e questionador de todas as formas de poder.

Seus poemas apropriam-se de novas formas de expressão e linguagem, exploram aspectos da palavra como a oralidade, ou apresentam visualidade que investe na comunicação com o leitor.

Em versos, leva às últimas consequências suas ideias em relação aos limites da linguagem, irreverência que colabora para a manutenção do interesse de leitores jovens por sua obra e confirma uma atitude de vanguarda, que não se deixa capturar por rótulos. Inventa um caminho pessoal em que a poesia se define como “a liberdade da minha linguagem”.

Leminski funda um momento único na poe­sia brasileira da segunda metade do século, graças ao esforço de síntese que realiza entre a cultura erudita e a popular, entre a formação cultural de base experimental e a experiência de vida, entre a afirmação subjetiva e a construção de uma figura pública, midiática, que sempre tratou a linguagem como matéria digna de respeito e atenção.