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Entrevista

Palmares, a longa resistência

por Carta na Escola — publicado 17/08/2010 16h57, última modificação 17/08/2010 17h11
Para o historiador e escritor Joel Rufino dos Santos, Palmares, por sua longevidade, é o mais importante capítulo da história social brasileira
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Palmares era um dos tabus trancados pela consciência conservadora. No fim dos anos 70, alguns historiadores começaram a revelar essa história. Foto: Marcelo Carnaval

Para o historiador e escritor Joel Rufino dos Santos, Palmares, por sua longevidade de quase cem anos, é o mais importante capítulo da história social brasileira

No fim dos anos 60, o futuro premiado escritor Joel Rufino ainda era um professor de História sem emprego, a caminho de uma entrevista na Volkswagen, quando, por acaso, encontrou uma ex-aluna que estava envolvida na criação de uma revista para crianças, a Recreio. Convidado a escrever alguma história infantil, o historiador, que tinha visto sua coleção didática História Nova do Brasil, escrita em parceria com Nelson Werneck Sodré, ser recolhida pela ditadura, viu ali uma oportunidade, mesmo sem nunca ter feito isso antes. E a editora da revista, a futura premiada Ruth Rocha, gostou do que leu e pediu mais. Assim, por acaso, começou a carreira de escritor Joel Rufino, que nunca mais seria só historiador. Nem apenas um escritor de boas histórias, pois nelas sempre há, por trás, os livros lidos por direito e dever de ofício. Nesta entrevista, concedida a Ricardo Prado, o historiador indica bons livros para ensinar a cultura afro-brasileira e discute alguns mitos sobre a história dos negros. E o escritor declara seu tributo a Graciliano Ramos e Guimarães Rosa. Ou o contrário: o historiador fala do sertão rosiano e o escritor conta como extraiu literatura do rico período da abolição.

Carta na Escola: O que o senhor descobriu sobre o tipo de texto que mais agrada a crianças e jovens?

Joel Rufino: Eu fazia a crítica de que a literatura para crianças era boba, tratando a criança como débil mental. Até hoje tem isso, aquela profusão de “inhas”, “inhos”, e eu achava que alguém deveria fazer literatura pra criança sem tratá-la dessa forma. Havia o antecedente de Monteiro Lobato...

CE: O senhor foi leitor de Monteiro Lobato na infância?

JR: Não, foi até uma falta que me fez. Não sei por quê, mas não fui leitor de Lobato, não. Quando era adolescente, lá pelos 12 anos, comecei a ler Júlio Verne e Jack London, e ficou esse furo na minha formação. Mas o que me motivou a escrever foi, de uma forma semelhante, o que aconteceu com o Gonzaguinha na música. Eu me lembro que ele foi perguntado sobre como começou a compor e ele disse que achava tão ruim o que ouvia que pensou: “Eu posso fazer melhor que isso”. Aí, eu comecei a procurar uma linguagem que não fosse aquela coisa infantiloide, e acho que encontrei esse estilo em grandes autores que escreveram para crianças também, como o Graciliano Ramos. Alexandre e Seus Heróis foi um desses livros que me ensinaram como tratar a criança como um leitor, provável consumidor de literatura. Acho que foi assim que consolidei o meu estilo, longe do “nhenhenhém” infantiloide e me amparando nos grandes autores.

CE: Em O Gosto da África há alguns ecos de Guimarães Rosa, como a referência à cidade do Ão, perto de Montes Claros. Ele, de alguma forma, também se situa entre esses autores que o influenciaram?

JR: O Guimarães Rosa motivou todos aqueles que vieram depois. Ele reinventou a literatura, como todo grande autor. Essa referência ao Ão devia estar na minha memória, no meu imaginário. Aquela região do Guimarães Rosa ele tornou tão poderosa que é difícil esquecer; o lugar, como os geógrafos gostam de chamar, que une o local geográfico mais o imaginário. Esse lugar recriado pelo escritor aparece nas minhas histórias, de vez em quando.

CE: Até pela sua formação de historiador, o senhor gosta de usar personagens históricos na literatura. Eu gostaria, inicialmente, de falar de um deles, Zumbi, que foi tema de um livro seu. Como foi fazer esse trabalho de pesquisa? E por que Zumbi demorou tanto tempo para aparecer?

JR: Esse meu livro é dos anos 80, tem 20 anos. De lá pra cá, nós aprendemos um pouco mais sobre o Quilombo dos Palmares e Zumbi. De passagem digo que é conversa fiada aquela história de que não se consegue fazer pesquisa sobre os negros porque Rui Barbosa teria queimado os arquivos, isso é uma lenda. Há muita documentação sobre os negros, sob todos os aspectos. E no caso de Palmares, há pelo menos 10 mil manuscritos, fragmentos de documentação histórica que ainda não foram completamente lidos e decifrados. Só a Universidade Federal de Alagoas tem mais de 5 mil desses documentos sobre Palmares.

CE: Talvez por conta da longevidade do quilombo?

JR: É uma extensão de quase cem anos. Se a gente pensar que o Brasil tem cinco séculos, é o capítulo mais importante da história social do País, pela sua duração. Aqui entramos na segunda parte da sua pergunta: por que demorou tanto tempo para emergir? A razão só pode ser ideológica. A consciência conservadora brasileira sempre foi muito sensível a mexer na história, havia alguns tabus: João Cândido, Canudos. E Palmares era um tabu também, que ficava trancado pela consciência conservadora. No fim dos anos 70, alguns historiadores começaram a revelar essa história. Como Décio Freitas, por exemplo, que estava exilado no Uruguai e foi pesquisar a história de Palmares no Conselho Ultramarino da Espanha. Ele conseguiu reunir uma documentação que lhe permitiu escrever o primeiro livro de impacto sobre Palmares, que foi A Guerra dos Escravos. Outro avanço veio de um filme do Cacá Diegues, feito nos anos 80, chamado Quilombo. Cacá partiu desse livro do Décio, consultou outros historiadores e fez um filme que é alegórico, não é realista, mas no qual já surgem alguns elementos sobre Palmares de que não se falava antes. Se fosse resumir esse filme, eu diria que é a história de um negro portador da ideia da utopia, de uma sociedade justa, igualitária. Por último, vou citar o movimento negro, que descobriu Palmares nos anos 80 e transformou a Serra da Barriga em local de peregrinação. Hoje, o quilombo é -visitado por muita gente, recebe acadêmicos do mundo todo. Quando o movimento negro descobriu Palmares, colocou Zumbi como uma bandeira.

CE: É quando a história da escravidão começa a mudar da Princesa Isabel e dos abolicionistas para o aspecto de luta e resistência?

JR: O que aconteceu é que começou a se fazer a seguinte analogia: a história do negro é uma história de luta. Será que no 13 de Maio também não houve luta? Será que foi apenas um ato formal da Princesa Isabel para confirmar um fato já dado? Daí se começou a estudar melhor o processo da Abolição. Alguns historiadores começaram a rever o 13 de Maio e mostrar que houve luta também naquela época. Eu tomo essa revisão como consequência de Palmares.

CE: Especulando sobre como seria uma outra história construída a partir da Abolição, seria possível para o Brasil ter seguido um caminho que colocasse essa massa de trabalhadores para dentro do sistema econômico?

JR: Considerando que o historiador é aquele que prevê o passado, se pegarmos 1850, quais eram as possibilidades que havia? Era um momento em que nascia o capitalismo brasileiro e ele trazia várias possibilidades de desdobramento. Havia nessa época uma camada de negros livres, donos de pequenos negócios. Joaquim Nabuco chamou essa camada de um “formigueiro de pequenas iniciativas feitas por negros”, que tinham suas oficinas e outros pequenos comércios. Olhando de hoje, uma das possibilidades era essa camada de negros livres ter se tornado uma burguesia negra, uma classe média negra. Então seria diferente hoje. Mas esse “formigueiro de iniciativas” foi eliminado pela concorrência. Em 1900, essa camada já estava derrotada pelos estrangeiros imigrantes, que chegavam com capital, muitas vezes apoiados por bancos ou pelo governo, que lhes dava facilidades. Assim, essa camada negra protoburguesa desaparece.

CE: O senhor também escreveu sobre essa época em seu livro A Abolição, que virou minissérie de televisão. Esse livro surgiu como uma proposta da emissora?

JR: Você está falando de um livro que foi a base de uma minissérie do Walter Avancini, não é? Você tem esse livro?

CE: Eu o li na Biblioteca Nacional. Por quê?

JR: Porque eu acabei ficando sem nenhum! (risos) O Avancini, já falecido, era meu amigo e queria fazer uma história sobre a Abolição e outra sobre a Proclamação da República. E me estimulou a escrever alguma coisa. Foi uma encomenda e eu a escrevi quase ao mesmo tempo que dava os argumentos para o Avancini. Foi interessante mexer naquele ambiente de jornalistas (a revista Semana Illustrada, dirigida por Angelo Agostini, reduto de abolicionistas) e dos intelectuais, que naquele momento fizeram aliança com a classe trabalhadora, no caso os escravos. Quando essa aproximação acontece, em geral provoca mudança. E foi esse o primeiro caso na história do País, porque na Independência essa aliança não aconteceu, nem nos movimentos anteriores. Ou eram grupos de intelectuais sem conexão com os trabalhadores ou o contrário. Na Abolição houve esse encontro de intelectuais, principalmente jornalistas, como Angelo Agostini, Carlos Lacerda, e os quilombolas, os organizadores dos escravos. Houve, também, participação dos trabalhadores livres. Nessa época já chegavam por aqui os italianos e espanhóis, no meio deles muitos anarquistas, que participaram dessa luta. Muita gente no movimento negro diz que a abolição não tem nenhuma importância, mas eu não concordo. Inclusive, porque manifestou um processo mais geral de transformação que o País estava passando. Daí que tem relação direta com a Proclamação da República e o início da economia capitalista no Brasil. É na passagem do trabalho escravo para o livre que deslancha o capitalismo no País.

CE: Que autores o senhor recomendaria para quem quer saber mais sobre a Abolição?

JR: Essa nova geração de historiadores é muito boa. Há João José Reis, que publicou um “senhor livro” sobre esse período chamado Domingos Sodré, um Sacerdote Africano, que conta a história de um babalaô de Salvador que viveu no fim do século XIX. Lilia Schwarcz também é uma historiadora respeitável. Há, ainda, Eduardo Oliveira, que vem publicando sobre esse período. Qualquer professor vai ler livros desses autores com agrado porque, hoje, um historiador publicado é perfeitamente legível por alguém que não é do ramo. Outro exemplo, ainda, é Alberto da Costa e Silva, que talvez seja o principal historiador desse processo Brasil-África. Ele tem um livro que eu recomendaria efusivamente, Francisco Félix de Souza, Mercador de Escravos. Esse é um pequeno livro que conta a história do principal mercador de escravos para o Brasil, que era um mestiço brasileiro que foi para a África e fez fortuna. Daí, o leitor fica sabendo como era o tráfico negreiro, como se fazia no dia a dia, quanto se ganhava. De passagem, derruba aquele mito de que a escravidão foi um assalto do homem branco impiedoso em busca de mão de obra. Mostra-se ali que a escravidão foi um negócio, um empreendimento. Nei Lopes é outro que tem uma preciosa Enciclopédia da Diáspora Africana. Todos esses livros são de boa leitura. Além disso, a Unesco financiou um programa internacional chamado Rota do Escravo, que fez um mapeamento das fontes e dos documentos sobre o tráfico negreiro na África, nas Américas e na Europa. Só para dar um exemplo, todos os fortes africanos que embarcavam negros para o Brasil têm a sua documentação. Não falta documentação sobre esse período, é bom lembrar que a história não se faz só com documentos de papel. A língua, por exemplo, é um documento da história. A genética também tem ajudado os historiadores a descobrir de onde vieram os escravos.

CE: Que mitos sobre a história do negro são os mais persistentes?

JR: Nós já citamos dois, o de que o comércio de escravos era unilateral; outro, de que não dá pra fazer a história do negro porque não há documentação. Um terceiro seria o de que há uma história do negro e uma história do Brasil que correm paralelas. É possível separar a história do negro pedagogicamente, mas é só se avançar um pouco para perceber que quem fala da história do negro fala da história do País. Outro, ainda, que está imbricado em todos os anteriores, é o mito da passividade do negro. Quando eu estava na escola, se dizia que o escravo no Brasil foi o negro porque o índio não se submeteu à escravidão. Esse é um mito de duas faces. Uma, a de que o índio não se submeteu; outra, a de que o negro se submeteu. Nenhum povo se submete à escravidão. No caso do índio, ele lutou contra a escravidão, mas também foi escravo. Por muito tempo, até o século XVIII, mais tempo do que no resto da América espanhola, durante quase 250 anos.