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Língua Portuguesa

Palavras

por Sírio Possenti — publicado 11/07/2012 11h40, última modificação 11/07/2012 11h40
A maioria das palavras têm muitos sentidos. Às vezes, eles são muito parecidos, outras vezes uns parecem extensões ou metáforas.

A maioria das palavras têm muitos sentidos. Às vezes, eles são muito parecidos, outras vezes uns parecem extensões ou metáforas.

Seria bem interessante, nas aulas, consultar bons dicionários para verificar esse fenômeno. Melhor ainda seria deter-se em alguma palavra (ponto, doce, golpe) e o que há de semelhante e de diferente nos sentidos. O que é uma voz doce?  Por que “ponto” designar o lugar em se pega o ônibus e também um bordado ou a matéria que cai numa prova?

"Golpe" é uma dessas palavras interessantes. Um dos sentidos é ‘pancada’ (o golpe derrubou o lutador), outro é "armação" (caiu no golpe do telefone). E outro é de intervenção na política pela força. Neste caso, fala-se também em “golpe de Estado”, mas basta que se diga “golpe” para saber o que aconteceu.

Isto é, sabe-se mais ou menos. É que uma das questões é a do sentido das palavras. Outro, talvez mais interessante, é o problema da adequação do emprego de uma palavra. Ou seja, a propósito de um acontecimento (político, digamos), uma das discussões é como chamá-lo: Golpe? Impedimento? Cassação?

Nos últimos dias (a discussão durou pouco, como é comum no mundo atual), discutiu-se bastante o que houve no Paraguai: a cassação do presidente foi ou não um golpe?

Lendo os jornais ou ouvindo autoridades, foi possível perceber com alguma clareza que um grupo político usava a palavra “golpe” para referir-se à cassação de Lugo. Mas outro grupo recusava esta palavra, alegando que a cassação seguira as regras da Constituição do Paraguai. Uma pequena análise das posições políticas mais ou menos tradicionais dos que trataram do assunto mostra que há uma divisão ideológica na sociedade, que se manifesta claramente em ocasiões como esta.

Quando os acontecimentos são bem claros (quase nunca são), não há guerra de palavras. Mas quando são um pouco obscuros (quase sempre são), a guerra de palavras se instala. E produz efeitos tanto no campo em que a discussão ocorre (o que é “aquecimento global”? e “golpe”?) quanto no da língua, na medida em que as palavras ora fixam mais seus sentidos, ora os ampliam ou os deixam mais vagos.

Por isso é que ler bem é ler levando em conta os fatos e as diversas posições sobre os fatos, e não apenas as palavras.