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Os caminhos para o Nobel

por Pablo Gasparini — publicado 03/12/2010 16h24, última modificação 08/12/2010 16h41
Um retrato da obra de Mario Vargas Llosa, vencedor do prêmio, e uma reflexão sobre os critérios que a Academia Sueca utiliza para fazer suas escolhas
Os caminhos para o Nobel

Um retrato da obra de Mario Vargas Llosa, vencedor do prêmio, e uma reflexão sobre os critérios que a Academia Sueca utiliza para fazer suas escolhas. Foto: Jefferson Bernardes/AFP

Vinte anos depois de ser outorgado a Octavio Paz, a literatura latino-americana volta a ser homenageada pelo Nobel na figura, politicamente polêmica, do escritor peruano Mario Vargas Llosa. O secretário da Academia Sueca, Peter England, alegou para a concessão do prêmio a “cartografia das estruturas do poder” e as “afiadas imagens da resistência, rebelião e derrota do indivíduo” que se encontrariam na obra de Vargas Llosa.

Resulta indubitável que, do ponto de vista literário, a entrega do prêmio reconhece a quem junto com o colombiano Gabriel García Márquez (Prêmio Nobel de Literatura em 1982) constitui um dos últimos patriarcas das letras latino-americanas. Seus principais romances, todos eles inscritos no glorioso estouro das letras latino-americanas da década de 1960, têm sido fundamentais no que concerne à incorporação na escrita- -novelística de certos gestos e procedimentos vanguardistas. De fato, considerando-se romances como La Ciudad y los Perros (Batismo de Fogo) (1962), La Casa Verde (1966) e Conversación em La Catedral (1969) sob uma rigorosa perspectiva formalista, poderia afirmar-se que os mesmos são provas concretas do estudo narrativo a partir do jogo com a multiplicidade de vozes, o monólogo interior e a quebra de uma linearidade temporal.

O Nobel, por outro lado, não surpreende na rica biografia literária de Vargas Llosa. De alguma forma, desde a publicação do seu penúltimo livro, Travesuras de la Niña Mala (2006), o nome do peruano tem estado ressoando nos bastidores da Academia Sueca que ao premiá-lo na verdade apenas complementa a exitosa trajetória deste escritor, ganhador, em 1966, do galardão literário mais importante da América Latina, o Prêmio Rómulo Gallegos, ao qual se seguiram em 1986 o Prêmio Príncipe de Astúrias de Letras, em 1993 o Prêmio Planeta (por seu romance Lituma en los Andes) e, em 1997, o Prêmio da Feira de Frankfurt, entre muitos outros.

Sua profícua obra que se move entre romances de trama social-política como o consagrado Conversación en la Catedral (cuja primeira frase ou pergunta já diz tudo: “Em que momento se fodeu o Peru”) e outros que circunscrevem determinados relatos familiares como Elogio de la Madrasta (1988) e o relativamente autobiográfico La Tía Julia y el Escribidor (1977), conta para o público brasileiro com o interesse adicional de um romance sobre a Guerra de Canudos, La Guerra del Fin del Mundo (1981); um texto que inaugura a relação de Vargas Llosa com a novela histórica e que talvez alcance o seu melhor ápice em 2000 com a publicação de La Fiesta del Chivo, um romance inscrito na consolidada tradição hispano-americana dos relatos sobre ditadores.

O registro bem mais humorístico, algo que Vargas Llosa sempre confessou ter aprendido demasiado tarde, pode ser encontrado em Pantaleón y las Visitadoras (1973), romance que narra a implementação de um serviço de prostitutas para os postos selváticos do exército peruano e que, entre outros ingredientes, retoma o espaço amazônico magistralmente pré-figurado em La Casa Verde e nuclear em El Hablador (1987), romance que inclui entre suas vozes a de um narrador oral, representante da memória coletiva dos índios machiguenga da Amazônia peruana e reforça o trabalho de Vargas Llosa com a oralidade e as falas regionais.

Quem estiver interessado nas incipientes inflexões eróticas de Llosa poderá ler além da já mencionada Travesuras de la Niña Mala, as fantasias do narrador de Los Cuadernos de Don Rigoberto (1997) e incluso a própria autobiografia de Vargas Llosa, El Pez en el Agua (1993), onde junto à descrição dos seus anos no colégio militar e o nascimento da sua vocação literária, volta a relatar-se o casamento do escritor, então com 19 anos, com sua tia por afinidade, Julia Urquidi, dez anos mais velha que ele e tão importante, como o próprio Llosa sempre assinala, para sua “educação sentimental”.

CRITÉRIOS DA ACADEMIA SUECA
Este rápido apanhado das principais obras de Vargas Llosa bastaria para justificar a concessão do prêmio. Entretanto sempre que se trata do Nobel surge aquela pergunta: por que tal escritor e não tal outro?

Uma pergunta que no específico âmbito latino-americano transita por um inevitável nome: o próprio Vargas Llosa tem manifestado, em suas primeiras declarações ao ser informado sobre a premiação, que sentia certa culpa ao receber o único prêmio que Jorge Luis Borges, talvez o escritor latino-americano mais assumidamente universal, não conseguiu. Quais são de fato, os critérios que a Academia Sueca utiliza para tomar suas decisões?

Voltando às afirmações de Peter England, tudo indica que a Academia gosta, ao menos no que se refere à América Latina, de certa imagem de “escritor comprometido”. A questão é que se utilizarmos um exemplo de peso, Gabriel García Márquez, independentemente dos seus mais que indiscutíveis méritos literários, cumpre cabalmente esse requisito.

A biografia de Vargas Llosa,- -candidato a presidente do Peru em 1990, se bem reatualiza como nenhum outro a fusão das figuras do letrado e do político (tão comum na história latino-americana de dois séculos atrás), inverte seu sentido político, se colocamos como referência a García Márquez.

De fato, em seus ensaios sobre política internacional (Diário de Iraque e Israel Palestina) como em suas recorrentes declarações sobre o presente da América Latina, Vargas Llosa mostra-se como um árduo defensor das virtudes do liberalismo diante das políticas social-democratas ou populistas que hoje imperam majoritariamente na região.

E longe de compreender o populismo como uma lógica política, tal como o faz, por exemplo, Ernesto Laclau em seu imprescindível La Razón Populista, para Vargas Llosa o populismo constitui o eixo maldito de uma crua dicotomia entre a liberdade e a demagogia que lembra, naquilo que tem de maniqueísmo, a cruel oposição retórica entre civilização e barbárie, termo cunhado pelo escritor (e logo presidente) argentino Domingo Faustino Sarmiento em seu célebre Facundo o Civilización y Barbarie en las Pampas Argentinas (1845).

A convicção de Vargas Llosa no ideário “liberal” só é comparável, por certo, à fé de García Márquez na Revolução Cubana e se este habilita os frequentes encontros e homenagens recíprocas entre o escritor colombiano e Fidel Castro. No caso de Vargas Llosa, permite os meigos abraços com figuras como José María Aznar ou declarações onde o escritor peruano confessa que La Sociedad Abierta y Sus Enemigos de Karl Popper tem sido um livro que o reinventou intelectualmente.

Com tudo isso podemos afirmar que a concessão do Prêmio Nobel a Vargas Llosa instaura, talvez de forma um tanto anacrônica, polêmicas e (debates) já cristalizados no âmbito latino-americano, não só porque a academia sueca parece retida ainda nas grandes figuras do boom, senão também porque a figura de Vargas Llosa de alguma forma representa a perpetuação da quebra de certo utopismo americanista.

De fato, se como data simbólica do início do tão mencionado boom, aquela formidável “explosão” e internacionalização das letras latino-americanas na década de 1960, definiu-se, pelo que teve de repercussão latino-americanista, o ano triunfal da Revolução Cubana (1959). Também foi definido que 1971 (o ano em que o poeta cubano Herberto Padilla teve de retratar-se publicamente, logo após ser detido pela polícia secreta do seu -país, por ter escrito poesia contrária aos ideais- revolucionários), assinala o fim desse ciclo e a definitiva divisão ideológica do campo intelectual latino-americano. Promotor de uma carta assinada por mais de 80 intelectuais e artistas (entre eles Sartre, Susan Sontag, Fellini, Octavio Paz, Italo Calvino), Vargas Llosa denunciou “a negação da legalidade e da justiça” do governo cubano, posicionando-se assim à direita de certo imaginário latino-americano de esquerda que fez das conquistas sociais da revolução um exemplo de equidade perante as desigualdades estruturais que caracterizam a maior parte das nações do continente.

Diz-se que as opiniões e atitudes de um autor não são interessantes na hora de um galardão literário e, entretanto, além do grau de validade que pode ter essa informação, é inegável que essas opi-niões alimentaram no passado a resistência para conceder este prêmio a Borges. Nesse sentido, caberia observar, e sempre em referência ao campo latino-americano, um decidido e embasado câmbio do rumo da academia sueca desde o Nobel a Márquez em 1982. Pois, se naquele ano, o colombiano podia referir-se em seu discurso de recepção aos “desaparecidos por motivos da repressão”, às “mulheres presas grávidas (que) deram à luz em prisões argentinas” e aos “200 mil mulheres e homens” que “por não querer que as coisas seguissem assim, morreram”, o mais comedido Octavio Paz, desde um contexto latino-americano – vale dizê-lo – menos explicitamente autoritário e violento (seu discurso é de 1990), prefere já referir-se ao “fim da ideia da história como um fenômeno, cujo desenvolvimento se conhece de antemão” e a uma “declinação das ideologias” pela qual “pela primeira vez na história os homens vivem numa situação de intempérie espiritual e não, como antes, à sombra de sistemas religiosos e políticos que, simultaneamente, nos oprimiam e nos consolavam”.

Finalmente, seria interessante reflexionar nas variadas maneiras em que o imaginário político conseguiria impregnar-se num projeto literário que, como o do peruano, se concebe a si mesmo como representação do cotidiano latino-americano; um cotidiano que, ideologicamente, se constrói e vislumbra desde certa visão ceticamente catastrófica de América Latina. Talvez seja daqui que poderíamos perguntar-nos (para voltar aos argumentos de Peter England) de que poder Vargas Llosa se erige como cartógrafo ou que tipo de rebeliões e resistências configura o brilhante heroísmo de seus personagens. Perguntas que, como sempre que falamos de literatura, só poderão ser respondidas pelo – para citar Cervantes no seu antológico prólogo ao Quixote – livre-arbítrio de cada leitor. Esse arbítrio de julgar uma obra (pois comparar e julgar a literatura, talvez não seja mais que uma forma duvidosa de leitura, um mero efeito dos prêmios literários) saberá avaliar a justiça e a atualidade do notório galardão concedido a este importantíssimo romancista peruano.

Pablo Gasparini é professor de Literatura Hispano-Americana da USP