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O tempo reabre as feridas

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 30/07/2010 17h03, última modificação 30/07/2010 17h23
As tensões herdadas do apartheid se acirram às vésperas da Copa

As tensões herdadas do apartheid se acirram às vésperas da Copa

Não é fácil um país deixar para trás um passado de discriminação e violência racial, mesmo se conta com um Nelson Mandela. As reações a assassinato do líder racista Eugene Terre’Blanche mostram, a dois meses da Copa do Mundo na África do Sul, que a nação mais desenvolvida do continente continua a ser um barril de pólvora.

“Racista”, no caso de Terre’Blanche, é eufemismo: as bandeiras e os uniformes de seus liderados são neonazistas. Depois de ter servido na polícia da ex-colônia do Sudoeste Africano (hoje Namíbia) e na guarda presidencial, rebelou-se contra o pragmatismo do primeiro-ministro John Vorster (1966-1978), um ex-nazista que permitiu a diplomatas negros morarem em bairros “brancos” e não quis reconhecer o governo branco da Rodésia (atual Zimbábue).

Terre’Blanche fundou o Movimento de Resistência Africâner, cujo primeiro ato político relevante foi chefiar 40 valentões para cobrir de piche e penas um professor de história branco que questionou o caráter religioso do “Dia da Promessa”, feriado sul-africano que comemorava a vitória dos boêres sobre os zulus. No governo reformista de Pieter Botha, que deu direito de voto a mestiços e indianos, Terre’Blanche foi preso por posse de armas e explosivos ilegais.

À medida que o apartheid degringolava, seu grupo ameaçava com a guerra racial e promovia desfiles uniformizados, num dos quais o líder literalmente caiu do cavalo. Em 1993, invadiu com seu grupo o prédio que abrigava negociações sobre o fim do apartheid, arrebentando as vidraças com um carro blindado e espancando policiais. Em 1994, participou da invasão a um bantustão, cujo povo se ergueu contra seu ditador negro para se unir à nova África do Sul democrática. Matou dezenas de civis negros no que um dos militantes descreveu como “piquenique de tiro aos cafres”, mas três de seus oficiais foram feridos, capturados e executados por policiais rebelados.

O grupo, humilhado, fugiu e perdeu importância. Os acordos entre Mandela e os líderes brancos anistiaram todos os crimes políticos cometidos durante o apartheid – embora ambos os lados fossem investigados por uma Comissão da Verdade, como também propõe, no Brasil, o Plano Nacional de Direitos Humanos. Mas Terre’Blanche foi preso, em 2000, por agredir brutalmente dois empregados negros (um dos quais ficou inválido) por denunciarem à polícia um jovem branco que arrombara a farmácia do seu posto de gasolina.

Liberado por bom comportamento após quatro dos sete anos a que foi condenado – um de três brancos em um presídio com 200 negros – disse ser “não mais racista, mas um xenófobo que prefere gente do seu próprio tipo”. Em março de 2008 relançou seu movimento para criar uma república branca separada, seguindo o modelo dos 700 moradores da comunidade segregada de Orania, abordada em “Saudades do apartheid”, CartaCapital 570. Pregou o direito de “separar-se de um Estado corroído pelo crime, pela morte, pelo assassinato”, aludindo à criminalidade da África do Sul, que sempre foi altíssima, mas diminuiu, em parte, com o fim do apartheid: a taxa de homicídios caiu de 66,9 por 100 mil habitantes em 1994 para 40,3 em 2004 e 38,6 em 2007 (no Brasil, de 21,1 para 27,4 e 25,2 nos mesmos anos).

A irrealidade da ideia revela-se nas circunstâncias da morte do líder racista, morto na cama com uma barra de ferro e um facão por dois empregados de sua fazenda, um de 15, outro de 28 anos, a quem não pagava o prometido salário mensal de 40 dólares desde que os contratara, em dezembro. O problema não é a convivência de brancos e negros, mas a falta de relações justas.

A política conciliatória de Mandela transferiu a maior parte do poder político a uma elite negra, facilitou sua ascensão social e permitiu o surgimento de um empresariado negro. Atualmente, as três maiores fortunas sul-africanas são Nicky Oppenheimer, branco (5 bilhões de dólares), Patrice Motsepe, da etnia tswana (2,3 bilhões) e Laksmi Mittal, de origem indiana (2,3 bilhões). Cyril Ramaphosa, ex-sindicalista e ativista socialista de Soweto, preso por “terrorismo” em 1974, é hoje um empresário do setor de energia, papel e mineração,
com assento nos conselhos da Coca-Cola e da Unilever.

Entretanto, não houve reforma agrária, e as mudanças desde 1994 ficaram bem aquém das transformações prometidas durante o apartheid pelo Congresso Nacional Africano (CNA) de Mandela, originalmente marxista. A concentração de renda aumentou: o Índice Gini subiu de 59 em 1994 para 67 em 2008 (o Brasil seguiu o caminho inverso, de 60 para 54). Os negros, 80% da população, são só 4% dos presidentes de empresas, 2% dos executivos financeiros e 15% dos outros executivos. Dos 4% de sul-africanos mais ricos – com renda superior a 80 mil dólares anuais, 100 vezes mais que a mediana dos compatriotas –, apenas um quarto é de negros.

Embora não mais sujeita ao apartheid, a maioria negra ainda vive muito mal e as tensões foram acirradas pela crise global de 2009, que derrubou o PIB em 2,2% e elevou o desemprego entre os negros de 25,9% para 28,6% (o dos brancos, de 3,0% para 4,9% e a média do país, de 21,9% para 24,3%). Parte da frustração descarrega-se em rivalidades entre etnias e agressões a imigrantes africanos, mas o rancor racial persiste. Julius Malema, líder da juventude do CNA, choca os brancos ao pregar uma partilha das fazendas dos brancos como a do Zimbábue e entoar uma canção do tempo da luta contra o apartheid que diz “mate o bôer”. Em março, um tribunal pôs a canção fora da lei, mas Malema desafia a decisão.

Cerca de mil fazendeiros brancos foram mortos desde 1994, de um total de 350 mil assassinatos. A culpa é de Malema e do CNA, dizem os partidários de Terre’Blanche. Dessas mortes, 98%, inclusive a dele, foram resultado de crime comum ou disputa trabalhista, não diretamente de ódio racial, mas o herdeiro Andre Visagie promete vingança e ameaçou no ar a analista política negra Lebohang Pheko, que o entrevistou na tevê. Os ânimos azedam quando o país­ devia se preparar para uma festa de confraternização internacional.