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O mundo gira e as fotos ficam

por Lucia Santaella — publicado 08/02/2011 16h07, última modificação 09/02/2011 10h27
Uma leitura de instantes cotidianos e bem-humorados capturados e eternizados pelo fotógrafo francês Robert Doisneau

Uma leitura de instantes cotidianos e bem-humorados capturados e eternizados pelo fotógrafo francês Robert Doisneau

Lev Manovich, um dos mais reconhecidos teóricos internacionais das novas mídias, afirmou que a fotografia é como um vírus. O que isso quer dizer? Desde a invenção da fotografia no início do século XIX não cessaram de surgir novas tecnologias de produção de imagem: cinema, vídeo, holografia, a grande virada da computação gráfica nos anos 1980, e, hoje, a realidade aumentada, mista e a realidade virtual, realidades estas feitas de imagens. Apesar da sofisticação crescente das tecnoimagens, a fotografia, o ato de tirar fotos, pura e simplesmente flagrar, congelar e eternizar o instante visível, enquanto o mundo gira, persiste com força cada vez maior. Basta pensarmos nas imagens voláteis das câmeras digitais e celulares que transformaram qualquer um, qualquer criança, em fotógrafo ambulante, sempre em estado de prontidão para os flagrantes de cenas da vida.

Tudo parece indicar que, por mais que as tecnologias caminhem na direção da imitação quase perfeita do mundo visível, como é o caso das animações computacionais- em 3 dimensões, nada poderá substituir o fascínio do ato fotográfico, desse momento único de captura do instante fugidio. Exemplares admiráveis desse fascínio encontram-se nas fotos do francês Robert Doisneau, instantâneos bem-humorados, de bem com a vida, de um ser humano para o qual viver era fotografar, numa alquimia miraculosa do olho, da câmera, do gesto, do corte, do instante vívido e do clique. Basta uma pequena demora atenta aos detalhes de algumas de suas fotos para que essa alquimia se revele.

O beijo: pose ou surpresa?
Uma das mais famosas e controvertidas de suas fotos é a do beijo (abaixo). Controvertida porque alguns afirmam que, longe de ser um instantâneo surpreendido aos personagens, trata-se na realidade de uma pose estudada e programada. O mais importante, entretanto, não é concluir por uma alternativa, mas buscar compreender de onde vem a suspeita de que se trata de uma foto posada. O beijo é tão maravilhosamente flagrado, as personagens integram seus rostos e troncos em linhas tão naturalmente sinuosas e harmoniosas, a centralização da cena bem no meio do burburinho urbano é tão esplendorosamente perfeita que a foto acaba gerando incredulidade. A arte imita a vida ou a vida imita a arte, eis o dilema. Além disso, cenários desse mesmo tipo, beijos com essa mesma qualidade plástica e apelo emocional foram recriados à saciedade pelo cinema e especialmente pela publicidade ao longo de décadas. A foto pregressa, mesmo que seja, de fato, um instante capturado pela presteza ótica e gestual do artista, acaba se contaminando pela suspeita da pose.

De todo modo, o que a foto apresenta de mais extraordinário, enquanto linguagem fotográfica, encontra-se no flagrante da situação. O beijo não se dá contra um fundo citadino, mas bem no centro, rodeado pela matéria vertente de transeuntes absortos no seu próprio movimento. O contraste entre a graça do encontro amoroso e a indiferença do movimento circundante é pungente. O fotógrafo deu a esse contraste um enquadramento sábio e saboroso.

Pés no chão e olhos no céu
Outra foto bastante comentada de Doisneau é a do Boulevard de Strasbourg tirada no mesmo momento de um alerta aéreo. Extraordinário nessa foto é não apenas o que está por trás dela, um alerta aéreo em período de guerra, mas o enquadramento surpreendente que o fotógrafo imprimiu a esse instante inesperado. O enquadramento fotográfico é tão súbito e imprevisto quanto o próprio instante vivido. Novamente aqui a integração entre as partes e o todo da foto é impecável. Todos os olhares convergem para um mesmo ponto do céu, enquanto os pés são colhidos em uma angulação diagonal, uma linha ascendente que atravessa a foto da esquerda para a direita, concedendo ao todo uma dinâmica admirável. Embora todos estejam estáticos na atenção preocupada ao alerta, o dinamismo das linhas do enquadramento fotográfico deixa adivinhar o dinamismo interior das personagens participantes. Por fora, olhares parados em um mesmo ponto do céu, por dentro, almas em estado de alerta.

Apesar de o momento ser evidentemente tenso, a diagonal dos pés alquimicamente combina a tensão com o humor, uma combinação, aliás, que é própria do chiste, de um instante de revelação.

Cenas insólitas do mundo
Menos comentada, mas não menos -fantástica, é a foto do policial no centro da goela de um gigante. De novo, a cena é tão inopinada que gera a suspeita da pose. A arte do flagrante do fotógrafo atinge um ponto tão magistral que beira o inconcebível. A foto é, antes de tudo, risível. O cenário é uma escultura horrenda e kitsch de uma -imensa boca aberta contornando uma porta que, em algum momento, deve também se abrir. No instante mesmo em que um policial, devidamente uniformizado, atravessa à frente do centro da goela, o fotógrafo gilhotina a cena. Certamente a foto perderia a graça se a personagem não fosse um policial que sossegadamente caminha ao longo da insólita paisagem urbana.

Mais uma vez, a arte da fotografia encontra-se aqui na angulação muito sutil. O foco da foto encontra-se no corpo e rosto do policial, de modo que a escultura por trás dele apresenta uma leve inclinação. A rigidez da escultura se inclina enquanto o policial, impávido, segue o seu curso.

A leitura de umas poucas fotos de Robert Doisneau já é suficiente para indicar que a grande arte, saborosamente eivada de ironia diante das cenas do mundo, desse fotógrafo encontra-se na notável capacidade não apenas de flagrar cenas que roçam o cerne essencial do imediato da vida, mas de dar a elas aquilo que só a fotografia é capaz de obter: um enquadramento insuspeitado que transforma a cena em revelação.

Lucia Santaella é professora titular no Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Semiótica da PUC-SP