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O Katrina dos democratas?

por Eduardo Graça — publicado 17/08/2010 16h27, última modificação 17/08/2010 17h48
Os republicanos atacam Obama por causa do vazamento de óleo no Golfo

Os republicanos atacam Obama por causa do vazamento de óleo no Golfo

O rosto imenso do ator John Goodman, um dos comediantes mais queridos da história do tradicional programa Saturday Night Live, explode na tela do computador. Desta vez, ele não faz qualquer esforço para fazer graça. Câmera a postos, garrafa de refrigerante ao alcance das mãos, ele dispara uma série de impropérios contra o descaso do governo federal em relação a New Orleans. A gota d’água é a decisão de Washington de cancelar a verba pública para o Mardi Gras por conta da devastação causada pelo furacão Katrina. “Desde quando grandes nações não reconstroem suas grandes cidades? Foi assim com São Francisco depois do terremoto. Foi assim com Chicago depois do grande incêndio. Temos mais cultura em um único bairro do que em todos os subúrbios assépticos de Houston e Atlanta em conjunto. Nova York é atacada por estúpidos fundamentalistas e o dinheiro público chove do céu. Então, onde quer que vocês estejam na próxima terça-feira gorda, seguindo suas vidinhas enfadonhas em suas cidades sem-graça, saibam que em New Orleans, sem a sua ajuda, estaremos pulando o carnaval.”

Profética, a cena da minissérie Treme, do canal HBO, um dos maiores sucessos de crítica da atual temporada da tevê americana, foi ao ar na semana em que a oposição decidiu que o gigantesco vazamento de petróleo na costa da Louisiana em 20 de abril seria o equivalente para o governo Obama ao que o furacão Katrina foi para a administração Bush júnior. Para os republicanos, o descaso com New Orleans, ilustrado pela raiva de Goodwin, seria agora um peso para os democratas, já ameaçados de perder a maioria no Congresso nas eleições de novembro.

O comentarista conservador Pat Buchanan, da MSNBC, criticou a resposta lenta da secretária de Segurança Interna, Janet Napolitano, ao vazamento causado por uma explosão no campo Deepwater Horizon, operado pela British Petroleum no Golfo do México, no maior desastre ambiental da década nos EUA. Ao menos 11 pessoas morreram na explosão e as águas do Golfo – de onde a indústria pesqueira tira cerca de metade dos frutos do mar consumidos pelos norte-americanos – recebem perto de 210 mil galões de petróleo por dia desde o incidente.

“Eles estão repetindo os erros da administração Bush. E os responsáveis neste governo pela regulamentação de segurança das águas do Golfo em relação à exploração petrolífera, não vamos esquecer, foram todos indicados por Bobby Kennedy Jr., uma das principais vozes do ambientalismo militante neste país. O que eles fizeram até agora? Nada!”, vociferou Buchanan, acrescentando que Wash-ington teve todas as oportunidades de deter o vazamento em tempo hábil, mas cruzou os braços, e esperou por dias até que a BP enviasse um relatório completo sobre as causas do desastre.

Barack Obama declarou a situação, um caso de “importância nacional” somente na quinta-feira 29, nove dias depois da explosão, quando mais de 5 mil galões de óleo eram despejados por dia no Golfo. Na tarde daquele mesmo dia, Napolitano reconheceu ignorar se o Departamento de Defesa contava com equipamento e tecnologia capazes de deter o vazamento e impedir um desastre ecológico de grave proporção, com a ameaça da destruição total das reservas naturais pantanosas e os hábitats de centenas de espécies marinhas. Somente na sexta 30 dois aviões militares começaram a lançar sprays de produtos químicos para tentar evitar que a mancha de óleo avançasse em direção ao Oceano Atlântico.

Pressionada, a BP usou submarinos-robôs, sem sucesso, em um investimento de 6 milhões de dólares/dia, e agora deposita todas as esperanças em um contêiner de 98 toneladas, do tamanho de um prédio de quatro andares, que desviaria o fluxo do vazamento, transportando o petróleo diretamente para um petroleiro, o Discover Enterprise. É a primeira vez na história que essa tecnologia será usada em alto-mar – o epicentro do vazamento está localizado a 80 quilômetros da costa –  e a BP espera que na segunda-feira 10 cerca de 85% do petróleo seja removido do Golfo do México. Na quarta 5, pela primeira vez equipes da Guarda Nacional da Loui-siana conseguiram conduzir a queima controlada de parte do petróleo em duas das mais densas áreas da mancha negra que avança em direção à costa daquele estado. E um dos três focos de vazamento teria sido reparado por engenheiros da BP.

O sucesso das empreitadas não aplacou a fúria dos conservadores. Reportagem do Wall Street Journal lembrou que, no Brasil, a segurança na exploração de petróleo em alto-mar é maior do que nos EUA, especialmente por conta de um dispositivo, ativado por controle remoto, que poderia interromper a extração. E até mesmo o ex-diretor da Fema, a agência federal de manejo de desastres, durante o governo Bush, Michael D. Brown, demitido um mês depois que o Katrina destruiu a costa da Louisiana, desfilava serelepe pelos noticiários da noite: “Obama aproveitou o desastre para argumentar que a exploração de gás e petróleo em alto-mar é ruim para o país. Era tudo o que ele queria para atacar a indústria petrolífera e agradar aos ambientalistas. Está fazendo política e mais nada. O crucial dessa história é que ele demorou uma infinidade para reconhecer o tamanho do problema. Duas semanas depois, continua vazando petróleo no Golfo”. Brown entrou para o anedotário da política norte-americana ao receber, pouco antes de ser demitido por incompetência, o elogio do presidente Bush Jr., que enviou um recado ao assessor pela imprensa: “Brownie, você está fazendo um trabalho sensacional”.

O chefe do escritório de Washington da revista mensal Mother Jones, David Corn, desconstruiu a estratégia republicana, lembrando que a força das imagens dos desabrigados pelo furacão, em sua maioria pobres e negros, não se compara com as manchas pintando de negro as águas do Golfo. “Washington sabia que o furacão Katrina estava chegando. O governo teve tempo para se preparar, mas o presidente Bush apareceu na tevê celebrando o aniversário do senador John McCain, tocando violão, enquanto Dick Cheney simplesmente tirou férias. O problema grave do governo Obama foi não ter pressionado a BP de forma dura o suficiente nos primeiros dias após o desastre. Este é mais um reflexo de falta de regulamentação, modelo tão defendido pelos republicanos, em mais um setor importante da economia dos EUA”, provoca.

Curiosamente, Obama destacou o substituto de Brownie no comando da reconstrução da maior cidade da Louisiana, o almirante Thad W. Allen, para liderar os esforços de contenção do desastre ambiental. Sua primeira atitude foi se apresentar como responsável a ser cobrado pela resposta ao incidente. O militar foi uma das únicas autoridades do governo Bush a reconhecer, nos idos do Katrina, os erros tanto no tratamento das famílias das vítimas quanto no dos refugiados pelo furacão.