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Entrevista

O Enem na berlinda

por Fernando Vives — publicado 10/09/2010 14h58, última modificação 10/09/2010 15h28
Para ex-formuladora de questões da Unicamp, a concepção da avaliação se perdeu quando o exame passou a ter função também de vestibular
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Professora acompanhou de perto a evolução do vestibular da Unicamp. Foto: Kamá Ribeiro

Para Maria Luiza Abaurre, ex-formuladora de questões da Unicamp, a concepção da avaliação se perdeu quando o exame passou a ter função também de vestibular

O Enem tem o mérito de exigir que o estudante desenvolva articulação textual, o que, na prática, significa aprimorar sua própria forma de se expressar. Mais que isso: uma prova de vestibular que foca na interpretação de textos fará com que estudantes mais dispostos a questionar e argumentar cheguem ao Ensino Superior e ao mercado de trabalho. No entanto, utilizar o Enem como forma de avaliação do Ensino Médio e também como vestibular é um erro, uma vez que as provas possuem focos diferentes e, portanto, deveriam também ter diferentes estratégias.

Quem afirma isso é alguém que passou por duas grandes revoluções no vestibular brasileiro e conhece do riscado. Além de observar as mudanças hoje provocadas pelo Enem, a professora Maria Luiza Abaurre, formada em Letras e mestre em Teoria Literária pela Unicamp, era corretora de provas quando, em 1986, a Universidade de Campinas deixou a Fuvest para selecionar os alunos por meio de provas dissertativas que focavam a redação e a capacidade do aluno em argumentar. Durante 1992 e 1996, foi uma das responsáveis pela banca elaboradora de provas da Língua Portuguesa, aproveitando a experiência de lecionar no Ensino Médio de Campinas, cidade onde vive. Maria Luiza foi, também, assessora do Instituto Nacional de Estudos e  Pesquisas Anisio Teixeira (Inep). Atualmente é coordenadora pedagógica de um colégio em Campinas, além de escrever livros didáticos para a Editora Moderna, entre os quais uma série sobre o aprendizado de gramática, produção de texto e literatura. Nesta entrevista ao jornalista Fernando Vives, Maria Luiza fala sobre os prós e os contras do Enem, comenta suas mudanças, e avalia como a ênfase no ensino de interpretação textual vai impactar a sala de aula.

Carta na Escola:O Enem pode selecionar alunos mais qualificados para as universidades, agora que se tornou também um exame seletivo?

Maria Luiza Abaurre: A proposta do Enem é boa, mas para o que ela serve é um problema. O Enem hoje não tem mais uma finalidade definida. A partir do momento que se estabelece a prova como processo de seleção para as universidades, mas ao mesmo tempo continua sendo uma prova não obrigatória, causa-se um impacto na concepção da avaliação. De repente, o Enem serve para selecionar alunos para universidades federais e particulares, certificar alunos e jovens adultos do Educação para Jovens e Adultos (EJA) e para indicar concessão de bolsas do ProUni. Pense como alguém que tem o desafio de elaborar essa prova, que tem duas finalidades. Primeiro, demonstrar conhecimento; segundo, selecionar os melhores ao vestibular, o que obriga as questões a apresentar um grau de complexidade que permita eliminar alunos. Porém, para a certificação de um aluno que concluiu o EJA, não é preciso elaborar uma questão que elimine ninguém, e sim saber o que o aluno aprendeu. São, portanto, coisas incompatíveis.

CE:Um vestibular moldado na interpretação de textos pode selecionar alunos mais qualificados?

MLA: Sim. Passei por uma experiência concreta quanto a isso na Unicamp, em 1986. O perfil dos alunos que chegavam mudou e as reações dos professores eram duas: uns gostavam muito,  porque os novos alunos tinham maior disposição para questionar, e outros que achavam terrível, justamente pelo mesmo motivo. Idealmente, o aluno deve ser questionador mesmo. Aluno indagador estabelece relações com aquilo que ele já sabe. É isso que se pretende, pois o conhecimento é complexo, não linear, e não deve ser compartimentado como acontece na escola. Na realidade, no mundo, muitas vezes, precisamos articular várias áreas para entender o que está acontecendo. O ensino universitário baseia-se em muita leitura, e se um estudante não identifica na leitura a informação do texto, tem-se um problema. Um médico, por exemplo, ouve pacientes contando seus sintomas e estabelece um diagnóstico. Isso é interpretação de texto aliada aos conhecimentos dele. Mas, claro, trabalhar habilidade não é abrir mão de conteúdo.

CE:Especificamente sobre a concepção da prova, Enem e Ideb mudaram a relação da escola com a redação, uma vez que as questões passam a focar bastante em interpretação de texto. Como a senhora avalia isso?

MLA: É uma boa mudança. Podemos ver em dois ou três anos mudança interessante no perfil do aluno no Ensino Médio. Ele não oferece tanta resistência a textos mais longos, por exemplo. Acha que é natural extrair informações de um texto, pegar referências e chegar às respostas, sem que ele tenha um vasto conteúdo de antemão. Isso está na matriz do Enem. Um investimento maior na formação de competências associadas à leitura deve modificar o perfil do aluno, o que é muito bom. Em algumas regiões específicas do Brasil, no vestibular investia-se na avaliação direcionada na quantidade de informações que o aluno possuía ao concluir o Ensino Médio. As escolas agora têm de garantir que o aluno desenvolva determinadas habilidades, construa o saber fazer, e a partir daí estabeleça conceitos e articule informações. O problema é que isso ainda é estranho a muitos alunos.

CE:De que maneira essas mudanças causam impacto nas escolas?

MLA: O impacto do Enem não está restrito ao Ensino Médio. Sobretudo em Língua Portuguesa, o trabalho começa na priorização do aprendizado desde a educação básica. Trata-se de mudança profunda da concepção de ensino em sala de aula. A educação no Brasil, sobretudo nas Ciências Exatas, é fortemente voltada para a informação adquirida pelo estudante. Agora o Enem informa aos professores que os alunos precisam desenvolver habilidades, não só conhecimento. O que se prioriza agora é o saber fazer. É preciso saber o que é necessário para os professores colocarem isso em prática.

CE:Os meios acadêmicos estão preparados para formar profissionais que desenvolvam habilidades e competências?

MLA: Depende da região do Brasil. No fim dos anos 1990, quando o MEC divulgou as novas diretrizes para a educação, já se dizia que a melhor estratégia de ensino era a de competências. Logo, isso não é novidade nos meios acadêmicos, já que a concepção nasce de especialistas que vêm daí. Como a avaliação dessas questões acaba mais centrada em alguns polos universitários, como as Universidades Federal de Pernambuco, de São Paulo, de Minas Gerais e Campinas, por exemplo, vamos ver na formação de professores em cursos próximos a esse polos o currículo já alterado e formandos que já se sentem confortáveis em lecionar competências e habilidades. Mas, longe desses centros, está longe de acontecer. O Brasil é grande, a tarefa é difícil.

CE:Houve melhora no índice econômico do brasileiro nos últimos anos. Esse avanço estendeu-se também ao conhecimento, à forma de se expressar?

MLA: Não houve, pelo contrário. Infelizmente, vemos chegando à escola filhos de pais que têm pouco contato com a cultura. O fato de esses pais colocarem filhos em bons colégios não é garantia de que essas crianças terão perfil diferente do deles. O que se valoriza na nossa cultura é o sucesso imediato da modelo, do jogador de futebol, que são pessoas que não investem na própria formação, na maioria. Predomina a visão da sociedade que valoriza o “chegar lá” sem muito esforço, e o estudo exige esforço e investimento pessoal. Agora, observamos um fenômeno: os jovens leem menos? Não. Eles leem mais, porque passam muito tempo em frente ao computador, estão sempre lendo e escrevendo. O desafio da escola é reorientar essa leitura e escrita. Há 20, 30 anos, o aluno ia à biblioteca buscar informações quando o professor mandava fazer um trabalho. Hoje ele usa o Google e tem como resultado milhares de links possíveis. Ele vai ter de avaliar o que ler, qualificar a natureza da fonte. Em vez de o professor voltar à sala de aula e dizer “isso é ruim, porque você copiou e colou”, ele tem de estabelecer os parâmetros para saber se a fonte é confiável ou não. O aluno vai acabar aproveitando melhor o computador para aprimorar seu aprendizado. Isso é um desenvolvimento de habilidade, é mudança positiva. Portanto, respondendo à sua pergunta, no geral os alunos de hoje chegam desenvolvidos em habilidades específicas, como mexer no computador, mas imaturas em relação ao espaço à sua volta.

CE:Quais as principais dificuldades dos alunos na hora de escrever uma redação?

MLA: Há várias. Para escrever, primeiro, o estudante precisa dominar a língua para se expressar, e isso não se obtém como um investimento focado na apresentação de normas e regras somente – e, por muito tempo, a Língua Portuguesa nas escolas foi mais voltada para a apresentação de normas do que para a análise do sistema no qual a língua se estrutura. E o aluno também tem de entender como essa língua funciona. Por que usar um ou outro conceito? Produzir textos significa arti-cular informações por meio de uma língua, não se escapa disso. Se você não articula bem através das ferramentas, por mais que as informações sejam excelentes, não vai conseguir desenvolver o texto.

Agora, uma alteração positiva que os professores podem fazer é trabalhar as estruturas dos gêneros, para que possam trabalhar melhor a linguagem. Imagine o professor que pede aos alunos que escrevam um conto de terror. Ao produzir um texto, a escolha que faço dos adjetivos é importantíssima. Através deles vou conseguir dar essa atmosfera de terror. E aí o aluno aprende a real função do adjetivo, por exemplo. Por muito tempo, a escola ignorou isso. Tomar contato com a variada gama de gêneros textuais faz a diferença. Se esse aluno não investir em conteúdo para inserir no texto, porém, não vai adiantar muito.
CE:As maneiras de interação social se baseiam, sobretudo, pelo gênero jornalístico. No entanto, existe uma diferença entre este e a redação escolar. Até que ponto isso se configura num problema para o aluno se expressar?

MLA: Ao dizer que são diferentes, estamos nos referindo a escolas que focam a dissertação tradicional. Quando a escola se abre para história em quadrinhos, coluna social, notícias e outros, discute as estruturas e leva em consideração o contexto em que circulam, facilita a compreensão de texto por parte dos alunos. Se o estudante tem hoje todo esse acesso e se pedem a ele que produza apenas a dissertação, a escola se fecha à sociedade. Lembro de um professor que citou um caso interessante. Ele pediu a cada aluno de uma classe que descrevesse a si mesmo. O resultado foi pífio. Então ele pediu aos estudantes que se descrevessem como no perfil do Orkut. Aí sim, a classe se empolgou e fez boas descrições.

CE:E quanto ao ensino de Literatura? Muitas vezes, o que se vê ainda é aquela velha prática do fichário, onde se estuda quem fez o quê e quando, somente...

MLA: A Literatura não deve ser vista como um estudo de conjunto de obras que revelam somente um trabalho da linguagem artística. Se for assim, olhamos apenas um baú cheio de velharias para reconhecer marcas de um passado. O texto literário veicula discurso, foi escrito em um  momento específico com leitores para aquelas características específicas de uma sociedade específica. Quando trabalho um autor clássico da nossa literatura estereotipado, como José de Alencar, por exemplo, é necessário contextualizar. Dizem que ele propõe um projeto de literatura que resolveu mostrar o Brasil aos brasileiros. Devemos entender quais eram os contextos daquela produção: havia um investimento do imperador, que queria falar da formação do povo brasileiro. Então era natural que a arte expelisse esse movimento amplo da sociedade. Isso é ampliar o contexto em que a obra foi escrita.