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Reportagem

O Enem como negócio

por Fernando Vives — publicado 10/09/2010 14h56, última modificação 13/09/2010 15h42
Além de avaliar alunos, o Enem gera polêmica por tornar públicas as notas de cada escola na prova. Divulgá-las tem utilidade?
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Líderes no ranking não têm o Exame Nacional como prioridade em suas grades curriculares. Foto: Letícia Moreira/Folhapress

Além de avaliar alunos, o Exame Nacional do Ensino Médio gera polêmica por tornar públicas as notas de cada escola na prova. Divulgá-las tem utilidade?

Doze anos depois de sua primeira edição, o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) está consolidado como um termômetro importante do ensino no Brasil e tem seu papel constantemente debatido nos meios acadêmicos. Uma das discussões relevantes é a divulgação feita pelo Instituto Nacional de Pesquisas Educacionais (Inep), que organiza a avaliação, das notas das escolas de todo o País no exame. Tal divulgação ocorre desde 2006 e já faz parte do calendário das escolas, professores, redações de internet, jornais e revistas que cobrem o setor educacional e até de pais de alunos.

Para as escolas mais bem posicionadas no ranking, a divulgação das notas acaba sendo um negócio e tanto, por conta da exposição na mídia e a possibilidade de trabalhar publicidade em cima do feito. No entanto, não são poucos os educadores que criticam a divulgação dessa lista e os efeitos gerados por ela.

Marketing do Enem

Em julho, o Inep divulgou a classificação das escolas do exame realizado em 2009. Na sequência, uma avalanche de matérias sobre suas estratégias de ensino dominaram a mídia por semanas. O nome estampado na imprensa e/ou a possibilidade de usar o bom posicionamento na lista para fins publicitários garantem a alta procura por estes colégios durante anos.

No topo da última lista do Enem estava o Colégio Vértice, de São Paulo. Com mensalidade de 2,7 mil reais, o Vértice voltou a ser o foco da mídia de educação (já foi o número 1 do Enem anteriormente) e virou exemplo de sucesso em ensino no País. Um dos diretores do colégio, Adílson Garcia, ressaltou que o objetivo do Vértice não é estar no topo do Enem, mas admite que a procura por vagas na instituição aumentou bastante após o fato. “Em 1994, tínhamos 194 alunos. A cada reinício de ano era difícil aumentar esse número. Quando a lista do Enem começou a ser divulgada, ocorreu uma procura enorme pelo colégio”, diz Garcia. Hoje o número 1 do Enem tem 900 estudantes.

O site do Colégio Vértice estava sendo reformulado durante a divulgação da lista. Quando voltou ao ar, pessoas de 38 países o acessaram, sendo 7 mil só no primeiro dia – um número muito maior que o habitual. Ainda segund-o Garcia, há fila de espera de anos para matricular uma criança na escola. “Temos por volta de dez casos de pais que matricularam crianças para o Pré-Alfa 1 de 2014. Ou seja, levando-se em conta que o Pré-Alfa 1 é para crianças de 3 anos, esses alunos ainda não nasceram”, diz.

No ranking do Enem, atrás do paulistano Vértice vêm dois colégios religiosos: o Dom Barreto, de Teresina (PI), e o São Bento, do Rio de Janeiro (RJ), ambos bastante tradicionais. Assim como ocorre com o Vértice, o foco das escolas não está no vestibular ou no Enem, e sim em uma formação mais ampla do estudante. “O importante é formar cidadãos do ponto de vista religioso, mas não tão dogmático”, diz a diretora do Dom Barreto, Maria Stela Rangel da Silva. “O resultado do Enem acaba sendo consequên-cia do que o aluno vive no colégio”, conta Maria Elisa Pedrosa, coordenadora pedagógica do São Bento, que tem a peculiaridade de só ter alunos homens. Nenhum dos três colégios líderes do Enem pretende aumentar o número de vagas para alunos após o sucesso na prova.

Ranqueamento e distorções

Mensurar o sucesso de uma escola através de sua posição no Enem não é exatamente saudável e pode conter distorções, afirmam especialistas. Isso deve ser considerado pelos pais na hora de procurar um colégio para seus filhos, embora, na prática, não seja assim. A psicóloga Rosely Sayão escreveu para a Folha de S.Paulo, há dois anos, um texto elucidativo sobre o frenesi dos pais em relação ao tema. Intitulado Ranking de Pais, ela propunha, de brincadeira, que as escolas criassem uma maneira de classificar os responsáveis pelos alunos para saber se eles estavam sendo bons pais, o que também influi na educação das crianças.

Atualmente, Rosely critica o “umbigocentrismo” de muitas famílias. “Hoje em dia, a classe média se agrupou em 20 a 30 escolas e o resto que se dane, não está nem aí com a educação como um todo. Eles se esquecem que, em dez anos, o sujeito que frenquentou uma escola ruim vai ser colega de seus filhos”, diz Rosely, ressaltando que educação mal trabalhada é um problema de todos. “Melhor do que ir bem no Enem, os pais precisam saber se as escolas tratam bem os professores, se pagam bem e em dia. Isso ajuda muito na educação das crianças”, defende.

A cada nova lista do Enem, tem início também a pressão dos pais nas escolas, sobretudo aquelas que não estão entre as primeiras posições. É o que sente na pele o diretor do Colégio Singular, uma rede do ABC Paulista, Egídio Blumetti. “Temos um trabalho de conscientizar pais de alunos para que entendam o contexto da prova do Enem. Somos um colégio grande com alunos de ensino médio técnico noturno e que muita vezes trabalham durante o dia. É claro que a média vai ser menor que colégios com menos alunos e altas mensalidades”, conta Blumetti.

Considerado o maior empresário do ramo educacional do Brasil e dono da rede Objetivo, João Carlos Di Genio rasga-se em elogios ao Enem, mas também se declara contrário ao ranking de escolas. “Quem vai bem na prova não é a escola, é o aluno. Sou a favor, sim, de premiar os alunos que vão melhor no Enem”, diz.

Di Genio acaba de montar o Colégio Integrado Objetivo, em São Paulo, do qual são convidados a participar somente os alunos com ótimas notas, que costumam participar de olimpíadas escolares e que têm o hábito de passar o dia todo na escola. “Havia uma demanda para intensificar os estudos de alunos que são ótimos em algumas áreas, mas nem tanto em outras. Temos gente que é campeã da olimpíada de Física, mas precisa de um reforço em Geografia, por exemplo”, conta Di Genio. Apesar de declarar que o foco do Colégio Integrado não é ter um braço do Objetivo entre os colégios top do ranking do Enem, Di Genio tem investido pesado em publicidade na mídia para ressaltar que  o objetivo é atingir o primeiro lugar no Exame.

Divulgar ou não divulgar

Não faltam educadores contrários à divulgação dos resultados do Enem. No entanto, o presidente do Inep, Joaquim Soares Neto, responsável pela avaliação, defende que a informação das escolas é de interesse público. “Temos de divulgar. As informações geradas pelo Enem mapeiam regiões em relação à qualidade da educação. Claro que o Enem não pode ser o único critério para se definir uma boa escola, mas ele gera discussões, e isso é importante”, afirma.

Carlos Jamil Cury, professor da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, é contrário à divulgação da lista. Ele prefere que o resultado seja mostrado somente às próprias escolas, individualmente. “Uma prova gera distorções. Você pode ter um colégio bem ranqueado, mas que trata alunos de forma autoritária, por exemplo. E, além disso, um órgão público que divulga essas notas estimula a competição entre as instituições de ensino em vez de estimular a solidariedade.”

Joaquim Soares Neto, por sua vez, entende que a competição ajuda as escolas a melhorarem suas condições. “A sociedade vive de comparação. Você compara o que dá certo e o que não dá, e isso ajuda a fortalecer o ensino”, ressalta.

O educador Nilson Machado dá uma nova ideia para a divulgação de notas do Enem, baseando-se na estrutura de ranqueamento de hotéis. “A diferença entre o primeiro colocado e o de número 60 é muito pequena, coisa de 0,4 ponto. Então seria melhor classificar por faixas, primeiro as que foram muito bem, depois a segunda faixa entre as que foram bem, um terceiro nível para as que foram muito mal, e por aí vai”, sugere. Com isso, se evitaria a loucura de pais atrás das escolas super bem cotadas apenas.

Se a discussão ganha corpo nos meios acadêmicos, certo mesmo é que ainda há muito trabalho pela frente, tanto para melhorar a qualidade do ensino (sobretudo das instituições públicas) quanto para aprimorar a avaliação das mesmas.