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O desafio do ensino técnico

por Clarice Cardoso — publicado 01/09/2012 11h30, última modificação 01/09/2012 11h30
Maria Clara Schneider, coordenadora-geral do II Fórum Mundial de Educação Profissional e Tecnológica, vê na área potencial para fomentar e mudar economias locais
entrevista

Para reitora do Instituto de Santa Catarina, Maria Clara Schneider, a educação profissional começa a se consolidar no País, mas ainda carece de valorização. Foto: Divulgação

Entre 2002 e2010, a rede federal de ensino profissional cresceu 114% no País. O setor, em clara expansão no Brasil, ganhou combustível com o anúncio pela presidenta Dilma Rousseff, em outubro do ano passado, do Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec), que propõe o fortalecimento da rede atual e a ampliação da oferta de vagas nos próximos quatro anos. É um incentivo positivo, analisa Maria Clara Schneider, reitora do Instituto Federal de Educação de Santa Catarina (IF-SC), mas que impõe seus desafios, até pelos prazos relativamente exíguos.

Coordenadora-geral do II Fórum Mundial de Educação Profissional e Tecnológica, que reuniu em Florianópolis, em junho, reitores, professores e especialistas de todo o mundo, Schneider vê na área potencial para fomentar e mudar economias locais. Contudo, diagnostica que ainda falta reconhecimento. “O mercado valoriza o bacharelado de forma até discriminatória, e há uma conjuntura cultural de achar que a formação acadêmica é mais importante, mais nobre. É preciso mudar essa lógica.”

Carta na Escola:Qual é o momento da educação profissional e tecnológica hoje?

Maria Clara Schneider: O principal desafio é o de trabalhar a educação profissional de forma mais intensa e integral. Muitos institutos partiram de Centro Federal de Educação Tecnológica (Cefets) e encaram hoje essa configuração diferente, em que atuamos desde a formação profissional e continuada até os programas de pós-graduação. Esse crescimento exige um modelo de gestão muito moderno, atuante e articulado. Há ainda as questões ligadas à formação, especialmente a dos alunos que não concluíram o Ensino Médio. Além disso,  estamos trabalhando muito com a pesquisa aplicada, especialmente num momento em que é uma necessidade que ela deixe de ser algo de uma elite acadêmica. Outra questão que vale a pena ressaltar é o Pronatec, um programa de abrangência espetacular.

CE:Quais as implicações do Pronatec na atuação dos institutos?

MCS: O programa envolve quase tudo o que está ligado à educação profissional. Envolve a construção, a expansão da rede, a contratação de educadores, e há a Bolsa Formação, que aumenta a oferta regular das instituições para além das suas projeções. Vejo que o programa tem um princípio de atingir pessoas que normalmente não seriam atingidas com nossa oferta regular. Teremos mais pessoas qualificadas, que vão movimentar mais a economia, trabalhadores que se colocam no mercado de trabalho de outra forma. Podemos diminuir a rotatividade, o número de desempregados, de pessoas que vivem de bico...

CE:Entre 2002 e 2010, a rede federal cresceu 114% segundo o MEC. Como a expansão da rede impacta a contratação de docentes?

MCS:Temos um projeto de lei tramitando para aprovar a contratação de cerca de 20 mil professores. Realmente, essa é uma das dificuldades que enfrentamos, justamente pela forte expansão que vivenciamos nos últimos tempos, agora é preciso dar conta dos recursos humanos. Com a aprovação da lei, espero que a gente tenha mais tranquilidade para atuar. Eu, que estou há 22 anos numa instituição pública de ensino, percebo que a lógica pela qual elas funcionam às vezes provoca desafios mais intensos, como as questões de infraestrutura e de recursos humanos que precisam ser melhoradas. Queremos ter um programa grande de qualificação porque o professor de educação profissional tem uma forma de atuação diferenciada, não são como os de graduação ou de Ensino Médio regular. Ele tem de ter formação aplicada, uma vez que o aluno começa o curso com a mão nos equipamentos, aprende fazendo, então é, sim, uma preocupação o tipo de formação do professor.

CE:O ministro Aloizio Mercadante destacou áreas como tecnologia e call center como as que têm tido maior demanda. Também se observa crescimento em saúde. Esses dados se confirmam na sua experiência?

MCS:A construção civil sempre é muito buscada, as áreas da tecnologia e da informática também. A saúde realmente está crescendo. Como éramos uma escola técnica, temos uma história muito voltada para as áreas industrial, mecatrônica e eletrônica. Mas acreditamos que temos que atender também turismo e gastronomia que, por exemplo, em Florianópolis, precisam de muita qualificação, mas muitos alunos não se sentem valorizados devidamente no mercado de trabalho. Aí, é preciso promover um movimento que não é só institucional, mas que também provoque os setores econômicos. É por isso que, quando implantamos um campus, vamos até a região estudar o que ela precisa em termos de formação e, uma vez que a necessidade foi identificada, qual o potencial de desenvolvimento. Por exemplo, no município de Tubarão, vamos fazer uma audiência pública para ouvir a comunidade, puxar dados de desenvolvimento econômico da região e discutir dinâmicas para identificar novos potenciais. Setores que, às vezes, não estão de todo estabelecidos, mas que, se formarmos profissionais, vão se desenvolver de maneira mais intensa.

CE:Quanto tempo leva a implantação de um campus? As metas propostas pela presidenta Dilma podem ser alcançadas?

MCS: Temos prazos bem exíguos. A presidenta anunciou o programa em agosto do ano passado, de modo que temos de licitar um campus até o final do ano e iniciar a construção no ano que vem. Provavelmente, levará dois anos e meio. Tudo depende da inserção na região e do contexto de articulação com a prefeitura.

CE:Qual costuma ser o perfil dos alunos?

MCS:Isso é muito diverso, depende do eixo tecnológico. Tem quem venha só para se qualificar, mesmo que já tenha as competências, buscando validar suas experiências. Pessoas de mais idade costumam procurar escolas em busca de formação técnica que dê conta de melhorar suas condições de laboralidade e não costumam dar continuidade aos estudos. Já os jovens continuam a formação e têm interesse em continuar a estudar. Temos experiências positivas, por exemplo, em Chapecó, onde nossos alunos de mecânica são potencialmente estudantes de engenharia mecânica e têm um pouco mais de idade, em média, 35 anos.

CE:As matrículas na educação profissional cresceram 75%. Isso pode ser visto como um sinal de mudança?

MCS:No Brasil, há muita procura pelo bacharelado porque há a crença de que, com ele, estão garantidos um salário e uma carreira, o que não é necessariamente verdade. É preciso mudar essa lógica, uma vez que, em alguns casos, com a formação dada por um curso técnico, o aluno pode até conseguir uma remuneração tão boa quanto a de um bacharel. Vemos alunos que terminam nossos cursos e sentem a necessidade de seguir para o bacharelado por sentir que o título é que será o diferencial. Temos então dois fatores, o mercado que valoriza o bacharelado de forma até discriminatória e a conjuntura cultural de achar que a formação acadêmica é mais nobre. E essa cultura é mensurável: temos 6 milhões de alunos no Ensino Superior e pouco mais de 1 milhão no técnico.

CE:Que perspectivas o Fórum deixa para a próxima edição?

MCS:A educação profissional começa a se consolidar de modo mais espalhado pelo País, algo diferente das universidades federais, que tiveram desenvolvimento grande, mas não se inseriram em todas as regiões. Isso ajuda as pessoas a ficar e crescer em suas regiões. É atuando nesses contextos que a educação tecnológica pode mudar o desenvolvimento econômico do País.