Você está aqui: Página Inicial / Educação / O déficit da Engenharia começa nas escolas

educação

Entrevista

O déficit da Engenharia começa nas escolas

por Fernando Vives — publicado 30/07/2010 17h06, última modificação 30/07/2010 17h15
Alta taxa de desistência em Ciências Exatas tem origem com a falta de informação no Ensino Médio

Alta taxa de desistência em Ciências Exatas tem origem com a falta de informação no Ensino Médio

Se o número de engenheiros formados no Brasil não dobrar em cinco anos, faltarão profissionais para atender à demanda nessa área do País. A afirmação é do presidente da Federação Nacional dos Engenheiros (FNE), Murilo Pontes. Tal é a preo­cupação da entidade, representante dos sindicatos de Engenharia, que a FNE iniciou um programa com as escolas brasileiras para explicar o que é o curso de formação dos engenheiros. O objetivo é conscientizar os estudantes para as atribuições desse profissional e despertar o interesse na área. Isso porque há uma grave falha de comunicação entre o Ensino Superior de Engenharia e os estudantes dos ensinos Médio e Fundamental. De acordo com o Censo da Educação Superior no Brasil, realizado anualmente pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), cerca de 134 mil estudantes começaram os cursos dessa área no Brasil em 2008. No mesmo ano, apenas 30 mil formandos saíram das mesmas universidades. A falta de compreensão real do que seja o curso é um dos fatores desse alto índice de desistência. Nessa entrevista, concedida ao jornalista Fernando Vives, Murilo Pinheiro enumerou as causas que fazem tantos estudantes desistirem do curso e mostrou quanto o mercado carece de profissionais no setor, graças ao bom andamento da economia. Ele também ressaltou a necessidade de as escolas básicas se aproximarem mais dos cursos superiores de Engenharia, tanto com informações sobre a graduação quanto com a formação na área de exatas: “Devemos qualificar já nos ensinos Fundamental e Médio”.

Carta na Escola: O que motivou a Federação Nacional dos Engenheiros a procurar as escolas básicas para falar sobre o curso de Engenharia?

Murilo Pinheiro: O processo foi desencadeado porque temos uma estimativa de que, todo ano, entre 100 mil e 140 mil estudantes entram nas universidades de Engenharia. No entanto, apenas 30 mil a 40 mil se formam no mesmo período. Logo, entendemos ser interessante fazer um esclarecimento para aqueles que gostariam de ir para a área de exatas, incluindo Engenharia, para compreender melhor seus atributos. Pensando nisso, fizemos um vídeo explicando quais são os ramos da profissão e o que o aluno vai encontrar no curso. Isso é importante para que o jovem do Ensino Médio não escolha a profissão no susto. Para cursá-la, é fundamental ter noção do que é esta área. Também é importante apresentar àqueles que não conheciam os atributos do setor.

CE: Quantas escolas receberão esse material patrocinado pela FNE?

MP: A ideia é de que todas as escolas do Brasil recebam. Como são muitas, começamos por usar a estrutura da federação. Solicitamos a todos os nossos sindicatos que fizessem divulgação nas escolas de suas regiões. Aos poucos, a meta é compreender o País inteiro.

CE: A que se deve essa defasagem tão expressiva entre calouros e formandos?

MP: Existem alguns motivos. O primeiro é justamente a razão de estarmos indo às escolas: muitos alunos não sabem exatamente o que é engenharia. Na faculdade, se desiludem. Logo, é necessário esclarecer isso. Outro motivo é causado pela antiga e forte estagnação econômica do Brasil, que durou muito tempo. Imagine o aluno que está cursando Engenharia e não tem muito horizonte na profissão, por conta da conjuntura do País. Isso fez com que muita gente desistisse do curso para tentar uma outra faculdade, ou até mesmo arrumar um emprego sem ter formação superior. Terceiro, temos um problema de formação. Se o aluno não tiver uma formação básica bastante sólida, vai ter dificuldade em tocar a faculdade quando nela estiver.

CE: Qual é a quantidade de engenheiros que a FNE almeja formar?

MP: A ideia é dobrar o número de profissionais formados em cinco anos. Logo, se hoje formamos entre 30 mil e 40 mil engenheiros, queremos aumentar para entre 70 mil a 80 mil por ano. Trabalhamos com um prazo de cinco anos para esta meta – cinco anos é o tempo normal do curso de Engenharia.

CE: É factível dobrar a quantidade de formandos em cinco anos?

MP: Acreditamos que sim. Se você considerar que entram na faculdade cerca de 130 mil a 140 mil, dá para termos 80 mil formandos. Com isso, estaríamos atingindo por volta de 60% da quantidade de jovens que entram nos cursos.

CE: Quais as razões para essa alta demanda de novos engenheiros no mercado?

MP: O Brasil viveu mais de 20 anos de estagnação. A área da Engenharia, como outras, teve crescimento pequeno neste período, às vezes, não crescendo nada. E então agora estamos falando em uma previsão de crescimento econômico de 6%, de Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) do governo federal, de estratégias para zerar o déficit da habitação e, além de tudo, teremos a Copa do Mundo em 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016, no Rio de Janeiro. Tudo isso representa algo maior, que é colocar o Brasil na quinta posição no ranking das maiores potências do mundo. Logo, toda vez que pensamos em desenvolvimento e tecnologia, estamos pensando também em engenharia. Com todos esses fatores, podemos dizer que o dobro do número de formandos nas universidades é uma previsão razoável. Com isso, não podemos esquecer que é necessário aprimorar a qualidade a todo instante. Isso também aumenta muito a necessidade de qualificação de engenheiros.

CE: Há quem reclame também que o curso de Engenharia é muito puxado. Isso é, de fato, um problema?

MP: O curso é, sim, puxado. Se o aluno tiver um bom Ensino Médio, ele pode fazer uma boa faculdade. O início da graduação tem muitos cálculos, teoria e trabalho matemático. Sem a preparação adequada, ele se transforma em um curso puxadíssimo. Agora, claro que tem de ser um curso puxado. Fazer Engenharia implica dedicação forte aos estudos, faz parte do contexto de se tornar um engenheiro.

CE: Como a FNE avalia os cursos de Engenharia atuais?

MP: No geral, é bom. Obviamente, temos universidades ruins, mas a média é boa. O que acontece é que devemos qualificar já nos ensinos Fundamental e Médio, depois cuidando de boas especializações no curso superior.

CE: Alguma mudança deve ser feita no curso de Engenharia?

MP: A prioridade é a formação de mais profissionais. No entanto, temos também outra iniciativa no sindicato: estamos montando um instituto de Ensino Superior, ou seja, uma faculdade de Engenharia de inovação. Com isso, achamos que estamos dando nossa contribuição para o mercado. Não é nosso objetivo competir com outras faculdades, até porque não conseguiríamos. Mas queremos, sim, montar um exemplo de ensino que atenda à demanda para graduação, pós-graduação, pós-doutorado e especializações. Queremos ter a inovação, porque o profissional dessa área precisa se atualizar o tempo todo. A questão da informática foi fundamental para isso, e também o desenvolvimento das novas tecnologias. O engenheiro deve se atua­lizar nas áreas da profissão na qual ele está atuando e se desenvolvendo.

CE: Um estudo recente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) diz que o crescimento econômico do Brasil pode se beneficiar da faixa etária da população, que está entrando em seu momento ideal de produtividade, com a maioria na idade ativa do trabalho. Os problemas estruturais na área educacional podem atrapalhar?

MP: A gente tem visto isso no mercado. Temos interesse de uma forma muito clara de que a educação seja mais bem trabalhada na base. As escolas públicas estão devendo muito. É o contrassenso da educação atualmente: a melhor escola universitária é a pública. Porém, na base, as piores escolas de Ensino Fundamental são também as públicas. A maioria dos que vão para as universidades estaduais e federais é de alunos que estudaram em colégios caros. Há uma inversão a partir do vestibular. E é isso que o governo tem de atacar.

CE: Este fenômeno de crescimento da economia já aconteceu de maneira menos consistente nos anos 70, durante o chamado “milagre econômico”. Nesse perío­do também houve um aumento significativo de faculdades de Engenharia e de engenheiros no mercado. O que podemos aprender dessa experiência dos anos 70?

MP: A estabilidade de agora é muito maior que o boom econômico daquela época. Estamos agora com os pés mais firmes no chão e as coisas são mais transparentes. O nosso entendimento sobre o momento atual é de que o crescimento veio para ficar. E nós, engenheiros, temos uma contribuição a dar.

CE: Muitos dos engenheiros formados no Brasil acabam migrando para países que têm demanda por esses profissionais, como Canadá e Austrália. A imigração de engenheiros brasileiros atrapalha a qualificação do setor?

MP: Ainda não. É verdade sim que temos engenheiros especialistas em todas as áreas que podemos exportar para o mundo todo, mas a discussão do momento é a formação de profissionais para preencher o espaço do mercado. A partir daí, não dar espaço para tantos engenheiros virem para cá competir com nossos profissionais. No momento, o mais comum é irmos a outros paí­ses, na América do Sul, por exemplo, buscar engenheiros.

CE: Existe alguma área de engenharia que está mais carente de profissionais?

MP: A demanda é geral. Pode ter pequenas variações, mas um setor depende do outro. Se você pensar na indústria do petróleo, que vai crescer muito, por exemplo, a demanda ocorre para engenheiros elétricos, eletrônicos, civis, químicos e outros. É uma cadeia. E também é importante não dirigir o aluno para uma área específica. Se ele gosta de exatas e pensa em Engenharia, que ele escolha a que melhor lhe convier. Nosso papel é ampliar o leque de escolhas dele.

CE: Quais são as regiões do Brasil mais carentes de engenheiros?

MP: Olha, é praticamente geral a alta demanda. Nós temos de aumentar o número de profissionais, sobretudo no Sul e Sudeste, onde estão os principais polos industriais. Mas também temos regiõ­e­s do Norte e Nordeste com crescimento esperado muito grande, como Ceará e Maranhão. Precisamos de mais faculdades boas nessas regiões, para que se formem profissionais qualificados para trabalhar na própria região.

CE: Como o professor pode auxiliar na escolha do aluno?

MP: É importante que o professor abra as áreas e fale abertamente com seus alunos e os coloque em contato com as instituições de engenharia, para que ele possa entender um pouco do que é a prática da profissão. Se o professor ficar só no âmbito acadêmico, o estudante acaba por não enxergar os prós e os contras. Felizmente, hoje os professores estão com a cabeça bem aberta, vendo e discutindo os caminhos que o aluno pode escolher.