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Novo curso de comunicação educativa

por Ricardo Carvalho — publicado 08/10/2010 15h49, última modificação 08/10/2010 15h49
A Escola de Comunicação e Artes da USP cria a primeira graduação em Educomunicação

A Escola de Comunicação e Artes da USP cria a primeira graduação em Educomunicação

A Escola de Comunicação e Artes da Universidade- de São Paulo (ECA-USP) será a primeira a ministrar um curso de licenciatura em Educomunicação no Brasil. A criação de uma graduação específica para a área revela o enorme impacto das novas tecnologias da comunicação na aprendizagem. A USP prevê que o educomunicador atue em dois ramos: nas escolas de educação básica, nas funções de professor de comunicação ou assessor de projetos pedagógicos que englobem mídias como jornal, internet, cinema, tevê e rádio, ou ainda como consultor de ações educacionais em empresas e ONGs.

Ismar Soares, chefe do Departamento de Comunicação e Artes da ECA, ao qual a nova graduação estará vinculada, afirma que, hoje, os educadores devem trabalhar com um novo “paradigma educacional”, que tem o aluno como ator principal da aquisição de conhecimento. “Hoje, as crianças são cúmplices do processo”, afirma. O diretor diz que, no Ensino Básico, o educomunicador poderá atuar como gestor de processos comunicativos. “Ele será um mediador; um assessor da escola que colaborará com professores e alunos para que ocorra o diálogo com as mais diversas mídias.”

Para tanto, o currículo do curso foi estruturado focando o domínio dessas tecnologias, como internet, rádio e televisão. Além do mais, parte da grade horária estará a cargo da Faculdade de Educação (Feusp), responsável pelas teorias e práticas de ensino. Soares explica que o papel do profissional nas escolas não estará ligado à educação formal. “Dentro do sistema escolar, o foco da educomunicação não é exatamente no conteúdo programático. A educação formal transmite conteúdos, enquanto a educomunicação está voltada na relação de vários ambientes, entre eles a escola, que pode ser mais democrática se aproveitar melhor o fluxo de comunicação entre seus alunos”, comenta.
NOVO NOME, PRÁTICA ANTIGA
Apesar de ser o primeiro curso de graduação no País, o uso pedagógico de tecnologias multimídia na educação é prática antiga. “A ECA não inventou a educomunicação, apenas deu um nome ao que já se fazia”, definiu Soares.
Ele revela que, no Brasil, as primeiras experiências na área remetem à década de 50 e 60, no chamado Movimento de Educação de Base (MEB). Iniciativa- dos -setores mais progressistas da Igreja Católica, o MEB utilizava emissoras de rádio localizadas, principalmente, em capitais do Nordeste e transmitia uma programação educativa para o interior. “Um grupo de mediadores estava disseminado pelo Sertão e fazia a escuta e capacitava os agricultores em alfabetização”, explica Soares.

Parte dos movimentos sociais e de cultura pré-golpe de 1964, como o Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes, o MEB pretendia ter 15 mil rádio postos espalhados pelo País. Entretanto, a meta não foi atingida e a proposta acabou desarticulada pelo regime militar.
Sandra Pereira Tosta, coorganizadora do livro Do MEB à WEB – O rádio na educação, ressalta que projetos como o MEB foram precursores das práticas hoje denominadas educomunicação e tiveram base na pedagogia de Paulo Freire. “Ele (Paulo Freire) rompe ao propor uma educação libertadora, longe de uma proposta de educação profissional. Além do mais, para uma educação crítica, ele propõe a incorporação dos meios de comunicação”, diz Sandra.
Em relação à primeira graduação em Educomunicação no Brasil, a autora mostra-se otimista. “É uma iniciativa mais do que oportuna, arrojada e ousada. É um projeto sintonizado com a sociedade em que vivemos hoje, a sociedade midiática.” Assim como Soares, Sandra destaca a importância do protagonismo do aluno. “Os meios de comunicação permitem que as pessoas possam ser criadoras de informação. Além do mais, é impossível não reconhecer o papel formador das mídias na atualidade.”

EDUCOMUNICAR NA ESCOLA
A criação de uma graduação específica para educomunicação vem em resposta a uma demanda já existente nas instituições de ensino, principalmente a partir da Lei de Diretrizes e Bases (LDB), que abriu a possibilidade de abordagem para as áreas de mídia e comunicação, principalmente, no Ensino Médio.
Soares explica que, nos últimos anos, algumas iniciativas já trabalham com o conceito. É o caso, por exemplo, do Projeto Educom.rádio, promovido entre 2001 e 2004 na rede municipal de ensino de São Paulo. Durante o projeto, ocorreu a formação de professores, com parceria do Núcleo de Comunicação e Educação da ECA, e foram enviados 250 kits de rádio para unidades da rede. A experiência culminou com a criação, em 2004, da Lei Educom, que prevê a inclusão de práticas educomunicativas nos planejamentos anuais das secretarias municipais de Cultura, Saúde, Esportes, Lazer e Recreação, do Verde e Meio Ambiente e, em especial, de Educação. Hoje, a educomunicação faz parte do cotidiano das escolas municipais, por meio dos projetos Imprensa Jovem e Nas Ondas do Rádio.

O coordenador do Projeto Nas Ondas do Rádio, Carlos Alberto Mendes de Lima, diz que a regulamentação surgiu “da própria experiência nas escolas públicas”. Segundo Lima, o Nas Ondas do Rádio atende à Lei Educom, uma vez que consiste na “formação do professor e na potencialização de ações nas escolas com o objetivo de promover o protagonismo infanto--juvenil”. Nascido da experiência com o rádio, o projeto hoje engloba diversas outras mídias, utilizando-se principalmente da abrangência de ferramentas da internet, como blogs, Twitter e recursos audiovisuais. O protagonismo dos alunos é evidente no trabalho de cobertura jornalística realizado por estudantes da rede municipal em grandes eventos sediados na capital paulista, como a Campus Party e, mais recentemente, a Bienal do Livro. Mendes de Lima considera que as escolas precisam de profissionais com conhecimento para usar a educomunicação visando facilitar o acesso à informação. “Ter um curso específico é muito importante não só para a escola como para toda a sociedade. O educomunicador pode, por exemplo, desenvolver projetos em ONGs e secretarias na gestão e formação de comunicadores comunitários dentro das instituições”, finaliza.

O ingresso para a licenciatura em Educomunicação será realizado por meio do vestibular da Fuvest, com 30 vagas no período noturno.