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Nove anos. E bicampeão de xadrez

por Paula Thomaz — publicado 30/09/2011 10h48, última modificação 13/10/2011 13h47
Escola do campeão brasileiro do xadrez introduziu a atividade para combater excesso de medicamentos para 'déficit de atenção' dos alunos. E deu certo.

Em vez de caderno, tabuleiro branco e preto; no lugar de estojo com canetas e lápis, peões, cavalos, bispos, um rei e uma dama. É com esses objetos que Gianluca Jorio Almeida passa a tarde na escola em que estuda, no Rio de Janeiro. Rotina de um bicampeão brasileiro xadrez. Com apenas nove anos de idade, Gianluca ganhou mais uma vez o Campeonato Brasileiro de Xadrez Escolar na categoria dos alunos que estão no 4º ano, que aconteceu nos dias 23 a 25 de setembro em São Sebastião do Paraíso, Minas Gerais.

Agora, ele se prepara para o primeiro mundial a ser disputado no Brasil, em Caldas Novas, Goiás, em novembro.

Gianluca é um desses garotos que descobrem um talento e não para mais de treinar. O interesse pelo xadrez surgiu aos quatro anos de idade, quando o menino viu o pai ensinando o irmão, num momento de dedicação aos filhos depois do trabalho. No Colégio Franco-Brasileiro, onde o menino estuda, o desempenho do aluno chamou a atenção do professor Fernando Paulino Chagas, hoje seu treinador. E da brincadeira, aflorou no garoto um dom que hoje é sua grande paixão.

No quarto, poucos brinquedos. As prateleiras são ocupadas mesmo pelos mais de 20 troféus que já ganhou. “Não consigo imaginar meu filho fazendo qualquer coisa que não tenha xadrez no meio”, diz Jeanpauline Jorio Almeida, mãe de Gianluca. Na rotina, 10 horas semanais dedicadas a treinos pelo computador, na escola e com o técnico particular.

Com tanto esforço, vale a pena dar aquele apoio financeiro conhecido como “paitrocínio” e “vótrocínio também”, diz Jeanpauline. Quase todos na família ajudam a bancar as participações nos torneios do futuro “mestre internacional”, título concedido pela Federação Internacional de Xadrez a quem consegue pontuações altas – o que ele afirma ser seu objetivo. Ano passado, a mãe foi com o filho para a Grécia. Lá, Gianluca sentiu um frio na barriga muito grande e o peso de disputar um campeonato mundial. “Ele jogou com russos, turcos e africanos, não se interessava pelo inglês”. Desde então, está matriculado num curso, que é para poder entender o que diz o árbitro. Ele ficou em 67º lugar entre 150 jogadores, mas é do lado de cá que o garoto treina e se destaca. Gianluca é também bicampeão estadual e vice-campeão Panamericano.

A disciplina tem ajudado no desempenho do enxadrista mirim na escola, conta a mãe. Como ele começou cedo, ela acredita que o xadrez influenciou muito na formação de Gianluca. “A paciência, preparação, perseverança, com certeza são coisas que ele adquiriu com o xadrez, e são características que fazem parte da vida dele como um todo, inclusive na escola”.

É o que pensa a lenda russa do xadrez Gary Kasparov, que esteve no Brasil no início deste mês. Desde que se aposentou, em 2005, ele viaja o mundo para promover o xadrez entre as crianças. No Distrito Federal, ele chegou a afirmar que “o principal papel de projetos sociais que ensinam xadrez para crianças não é formar campeões. É usar o jogo como uma ferramenta para que o desempenho escolar das crianças melhore”.

No Centro Educacional da Lagoa, no Rio de Janeiro, a inclusão do xadrez nas atividades da escola foi proposital. De acordo com Elaine Azevedo, coordenadora pedagógica, “o xadrez ajuda no raciocínio lógico, na concentração do aluno; trabalha estratégia, ajuda o aluno na percepção espacial. Contribui também com a Matemática e na interpretação.” Os alunos com déficit de atenção também são grandes beneficiados pela inclusão do xadrez nas atividades da escola. “Quando a gente viu alunos tomando medicação, com atendimento fora da escola, com dificuldade de realizar uma prova, a ponto de ter de separá-lo para realizar prova sozinho, nós começamos a pensar em estratégias para ajudar esses alunos e o xadrez foi um grande parceiro.”

Em 2009, a cidade de São Paulo também apostou no xadrez e lançou o programa Xadrez Movimento Educativo, por meio da secretaria municipal de Educação, e já conquistou 36 mil crianças de 300 escolas públicas paulistanas.

Além dos alunos, quem ganha também com o ensino do xadrez nas escolas é o próprio xadrez, como afirma Eduardo Passos Pereira, diretor-secretário do Clube de Xadrez São Paulo. Segundo Pereira, a principal fase para a popularização desse esporte passa pela inserção dele na escola. Cria um público que precisa de torneios, que consome literatura sobre o assunto, se filia a um clube ou participa de associações que tenham xadrez entre as atividades. É toda uma cultura que vai se formando aos poucos.

Pereira confia que o futuro do xadrez no Brasil está na escola. “A maior expressão do xadrez hoje é na área escolar mesmo. E o processo de massificação do esporte no Brasil tem que, necessariamente, passar por ela."

Esse projeto da secretaria de Educação de São Paulo ganha projeção e verba para expansão. É provável que nos próximos anos haja um crescimento da participação nos clubes, por exemplo. "É uma alternativa razoável tanto do ponto de vista das competições como para o ensino nas escolas.”