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Língua Portuguesa

Notas sobre ortografia (3)

por Sírio Possenti — publicado 04/06/2012 10h54, última modificação 04/06/2012 10h56
Um tipo de erro comum, e que nunca é objeto de análise nos livros didáticos, decorre das dificuldades para delimitar palavras. Dizemos “aminhacasa” e não “a - minha - casa”

Um tipo de erro comum, e que nunca é objeto de análise nos livros didáticos, decorre das dificuldades para delimitar palavras. Parece óbvio, mas não é. No nosso sistema de escrita, a questão é importante porque escrevemos palavras separadas, mas não fazemos pausa entre cada palavra. Dizemos “aminhacasa” e não “a - minha - casa”.

Às vezes, duas ou mais palavras, dependendo de seu “tamanho”, ou do fato de terem mais ou menos sílabas tônicas, acabam sendo escritas juntas. Pode-se pensar que é um problema grave, mas também se pode tentar entender o que se passa na “cabeça” dos escreventes. Em geral, alunos erram na escrita porque juntam uma palavra átona com outra que tem pelo menos uma sílaba tônica. Há regularidade nos erros. Exemplos são casos do tipo agente (a gente).

Os fonólogos propuseram o conceito de vocábulo fonológico para dar conta de sequências como ser humano: ser passa a ter um acento mais fraco do que teria se proferida isoladamente. Por isso, acaba sendo “juntado” a humano.

A Carta de Caminha está cheia de exemplos do tipo ocapitam (o capitão), ajente (a gente), aoutra (a outra), poserãlho (puseram-lho) etc. Em Tempos linguísticos (S. Paulo, Ática, 1990), Tarallo cita documentos oficiais do século XVII em que aparecem grafias como seacha (se acha), edandolha (e dando-lha) etc.

O que “explica” essas grafias antigas explica também as modernas, dos aprendizes ou dos que escrevem pouco: palavras átonas (se, a, lhos etc.) são escritas junto às que têm pelo menos uma sílaba tônica. Dizemos essas sequências como se fossem uma só palavra. Logo...

Está errado? Claro. Afinal, há uma lei que rege a grafia. Mas os erros revelam a sensibilidade das pessoas ao fenômeno da acentuação. Se os erros das crianças de hoje são os acertos dos escribas oficiais de antigamente, deve haver algum fator relevante que os explique. Temos que descobrir qual é, para não repetir simplesmente que os alunos são incapazes ou descuidados.

Às vezes, eles erram porque ouvem bem demais.