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Língua Portuguesa

Notas sobre ortografia (2)

por Sírio Possenti — publicado 21/05/2012 12h28, última modificação 06/06/2015 18h14
Os casos de 'pegadinhas' gramaticais, mais do que revelar falta de domínio da escrita, revelam que a língua varia

Pesquisas sobre erros de ortografia mostram que cerca de 30% dos erros se devem a “trocas” ou “confusão” ou falta de domínio de opções  como x ou ch, s ou z, g  ou j, ss / sc, etc. Ou seja, a maior parte dos erros não é de casos como “caza” (casa) ou “chícara” (xícara), ou de distinções como “xeque / cheque”, mas de casos como “mal / mau”, “poco / pouco”, “minino /  menino” (“emprimir / imprimir”), “coruja / curuja” etc. OU de separação ou junção indevida: “ir mos”, “serhumano” etc.

As gramáticas destacam conjuntos de palavras do tipo “emergir / imergir”, “comprimento / cumprimento” etc. (homófonas) exatamente porque, na fala usul, elas não são distinguíveis (é nessas listas que, frequentemente, provas e concursos buscam pegadinhas).

Esses casos, mais do que revelar falta de domínio da escrita, revelam que a língua varia. Eventualmente, que está mudando. Quem erra grafias só erra onde pode errar. Pode parecer um jogo de palavras, mas é, de fato, uma espécie de lei, a pura verdade.

Vamos a alguns exemplos: ninguém troca e por i (ou vice-versa) em lugares como a primeira sílaba de “mesa”. É tônica e, por isso, ninguém diz [misa]. Em compensação, troca-se constantemente e por i em palavras como “menino” (minino) ou “ministro” (menistro) – casos em que também o final pode variar (o/u). Por que? A explicação é simples: as vogais átonas médias (e/o) têm pronúncias variáveis, embora não em todos os contextos.

Simplificando: diante de uma palavra como “menino”, a  aprendiz pode cometer dois erros, e ambos têm a ver com a variação do e (e/i) e do o (o/u) em posições átonas, na primeira e na última sílabas. Uma análise de cadernos escolares revelará isso claramente.

Pode-se prever os erros que um aprendiz pode cometer escrevendo uma palavra como “resolveu”: pode ter dúvidas entre escrever s ou z e entre escrever l ou u em dois lugares. Assim, escrever  resolveu, rezolveu, rezouveu, rezouvel, resouveu, resouvel etc. A pronúncia é sempre a mesma. O problema do aluno é como representar esses sons, se a relação entre letra e som varia.

Não é um problema banal. Mas não é impossível superá-lo. Com o aumento da experiência de leitura (de ver palavras escritas) e de escrita, acompanhada de boas análises desses fatos em aula, os erros diminuem. Provavelmente, nunca desaparecem totalmente, porque são diversos e relativamente complexos os fatores que levam a errar.

Uma das principais mudanças na escola (e na mídia) deveria ser a correta avaliação dos erros de escrita. É claro que escrever corretamente continua sendo um objetivo importante. Mas o principal deveria ser a compreensão dos fatos que esses erros revelam em relação à língua. Permitem compreender melhor como se fala efetivamente e quais deveriam ser, portanto, as estratégias para tratar da questão.

A grafia não deveria ser uma medida discriminadora, porque, evidentemente, ela prejudica mais duramente os falantes cujo sotaque mais se separa do culto. Ou seja, os alunos que mais precisam da escola.

 

o  aprendiz

 escreve

 

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