Você está aqui: Página Inicial / Educação / Na rua dos bobos, número 0

educação

Educação

Na rua dos bobos, número 0

por Redação Carta Capital — publicado 30/05/2012 10h30, última modificação 06/06/2015 18h13
Na Unifesp de Guarulhos, uma das tantas universidades federais criadas nos últimos anos, faltam salas e professores
Parreira

Sem espaço. Parreira, aluno de Filosofia, reclama da ausência da infraestrutura. Foto: Olga Vlahou

Por Marcelo Pellegrini e Tory Oliveira

“Dilma, termina a faculdade que o Lula começou”, pede uma faixa amarela estendida na Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), localizada no bairro dos Pimentas, na periferia de Guarulhos. Em greve desde 22 de março, os alunos reivindicam a construção de um novo prédio, melhores condições de acesso ao campus e instalação de moradia estudantil. A insatisfação é compartilhada pelos docentes, que pedem mais transparência e democracia na gestão, investimentos no espaço físico e na infraestrutura, e políticas de acesso e permanência da comunidade acadêmica. Parte deles paralisou suas atividades em abril.

Inaugurado em 2006, o campus em Guarulhos, na grande São Paulo, foi projetado originalmente para abrigar uma escola técnica. No local funcionam cinco cursos da área de humanas (Ciências Sociais, Filosofia, História, História da Arte, Letras e Pedagogia), com 2,8 mil alunos. Por causa da superlotação, algumas aulas foram transferidas para o CEU-Pimentas, vizinho à universidade, onde o número de salas também é insuficiente. “Uma vez, um professor de Letras foi dar aula em uma sala e, quando entrou, viu que ela estava ocupada por outro professor”, relata Arlley Parreira, aluno do curso de Filosofia.

Outro problema é o isolamento do campus e o número reduzido de ônibus oferecidos pela universidade para levar alunos e professores da estação de metrô Corinthians-Itaquera à universidade. Apenas seis fazem o trajeto até o campus. A viagem dura de 40 minutos a uma hora. “Nos ônibus das empresas privadas os usuários só podem ir sentados. Como nos da Unifesp, quem quiser pode ir em pé, esses ônibus saem lotados”, conta Iann Leda, aluno de Ciências Sociais.

Segundo a professora Olgária Matos, criadora e coordenadora do curso de Filosofia da Unifesp, a localização do campus exclui os alunos mais pobres, uma vez que a dificuldade de acesso e o preço da condução os impedem de estudar e trabalhar. “O problema mais grave de infraestrutura é a dificuldade de acesso. Mesmo quem mora em Guarulhos demora a sair do centro e chegar ao campus.”

O laboratório de informática e a biblioteca são outro motivo de queixas. Apenas 50 computadores estão disponíveis e, ao serem operados conjuntamente, a velocidade da internet cai, segundo os alunos. Em um prédio apelidado de “puxadinho”, o laboratório não tem para onde ser ampliado. A biblioteca, que recentemente adquiriu 240 mil reais em livros, libera apenas 70% do seu acervo por falta de espaço.

Professor do curso de Pedagogia da Unifesp, Daniel Revah relata a falta de espaço para a atividade de pesquisa ou mesmo para grupos de estudo. “Há cursos superlotados e ainda precisam completar o número de docentes”. O curso de Letras tem 38 professores e 730 alunos matriculados. Segundo a Associação dos Docentes da Unifesp, é necessário contratar 27 docentes e 60 profissionais administrativos, quase o dobro do quadro atual.

Talvez o maior símbolo da inapropriada estrutura do campus seja um grande descampado, logo em frente ao portão de entrada. Trata-se de um retângulo de cimento, coberto de pedras, pedaços de madeira e bitucas de cigarro, onde ainda podem ser vistos resquícios do que foi um cercado de tapumes. Lá seria erguido o prédio definitivo. Em março, parte dos tapumes caiu em decorrência da chuva. A sobra do material foi utilizada pelos estudantes para construir um barraco no centro do terreno e alimentar fogueiras em um recente protesto.

“Os alunos reclamam com toda a razão. Mas precisam entender que estamos sujeitos às leis do serviço público e a uma licitação que seja adequada ao preço de nosso projeto”, explica o diretor do campus de Guarulhos, Marcos Cezar de Freitas. Até o prédio sair do papel, o campus continua a funcionar de forma improvisada ou, como prefere o diretor, incompleta. “Se ele fosse improvisado não teria formado oito turmas, não teria os programas de pós-graduação. Agora, sou o primeiro a reconhecer a precariedade”, diz Freitas.

O fato é que a atmosfera da Unifesp-Guarulhos está carregada. Em 3 de maio, cerca de 80 estudantes invadiram a diretoria acadêmica. A ocupação durou três dias e acabou sem conflitos, mas com a atuação da tropa de choque da PM. Os estudantes exigem a presença do reitor da universidade, Walter Manna Albertoni, para o início das negociações.

“Esse curto-circuito que existe dos estudantes quererem falar direto com a reitoria é possível, mas sempre por meio do diretor acadêmico e do conselho, que são os órgãos que administram o campus”, responde Albertoni. “Em termos de instalações, elas estão realmente atrasadas. Mas acreditamos que as dificuldades serão superadas com as atitudes que já estão sendo tomadas.”

Enquanto o prédio principal não é erguido, a reitoria negociou a compra do terreno em frente para comportar a administração e pretende alugar outro espaço para acomodar os alunos provisoriamente. A respeito da contratação de novos docentes, Albertoni afirma ter solicitado ao MEC e que espera apenas a liberação da verba. Os problemas de acesso ao campus, segundo o reitor, estão em negociação com as prefeituras de São Paulo e Guarulhos. Ele garante, porém, que a unidade não será movida do atual local.

O campus de Guarulhos é apenas um dos 134 campi e 14 universidades criados desde 2003 pelo Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais, o Reuni, cujo objetivo é expandir o acesso e a permanência de jovens na educação superior. Depois de décadas de estagnação do setor público, a rede federal deu um salto no período de 2000 a 2010. Apenas entre 2005 e 2009, o número de matrículas nas federais aumentou 30%. A rápida expansão tem seu custo. “É preciso crescer sem perder qualidade na graduação e também na área de pesquisa”, explica o coordenador do Grupo de Estudos em Educação Superior da Unicamp, Renato Pedrosa.

Outras unidades da Unifesp enfrentam problemas parecidos. O caso da Baixada Santista é mais grave. Após uma forte chuva em abril, o prédio está interditado desde 19 de abril. O reitor acredita que o problema será resolvido nos próximos dias.

Segundo o professor do programa de pós-graduação da Universidade Federal de Goiás, Nelson Amaral, a nova realidade de investimentos no setor criou efeito colateral de improvisação, obras não concluídas a tempo e dificuldades de contratação de docentes qualificados para as unidades recém-inauguradas. “No futuro, essas condições vão se ajustando. Agora, é claro que os estudantes que estão vivendo este momento devem reclamar. As primeiras turmas da expansão terão prejuízos em sua formação.”