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Mudar o campus de lugar não é a solução

por Redação Carta Capital — publicado 07/08/2012 19h20, última modificação 18/08/2012 19h34
Em artigo, professor Janes Jorges defende que a universidade pública tem o dever de levar o desenvolvimento para regiões afastadas
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Na Unifesp, os alunos entraram em greve em 22 de março por causa das condições precárias do campus. Foto: Olga Vlahou

Em meio à recente crise enfrentada pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), o professor Janes Jorges defende, em artigo enviado a CartaCapital, que a distância do campus da Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (EFLCH) não é a causa dos maiores problemas da instituição. Para ele, a falta de infraestrutura na unidade da Unifesp é mais relevante, e os alunos, docentes e funcionários precisam se unir para encontrar saídas mantendo a universidade na região, pois a Unifesp poderia ser um motor de desenvolvimento do bairro Pimenta, em Guarulhos. Confira o artigo abaixo:

Por Janes Jorge*

 

 

Neste ano de 2012, professores, alunos e técnicos administrativos têm discutido intensamente os graves problemas enfrentados pela Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (EFLCH) da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Inúmeros fatores são apontados como causadores da chamada “crise da EFLCH”, embora o próprio entendimento do que seja a tal crise varie bastante na comunidade universitária, bem como a melhor forma de superá-la. O objetivo deste texto é discutir em que medida a localização do campus é um fator agravante ou provocador dos problemas da EFLCH. A tese aqui defendida é a de que a crise não decorre de fatores geográficos – localização e características do entorno - e que sua presença no bairro Pimentas, em Guarulhos, não compromete sua excelência acadêmica, além de ser um fator de desenvolvimento social, político e urbano da Região Metropolitana de São Paulo.

É preciso ressaltar que ao se decidir pela localização do campus da EFLCH não se deve ter no horizonte perspectivas e interesses de curto prazo, embora eles sejam os que parecem ter maior sentido do ponto de vista individual. Houve um tempo que o belo campus Butantã da USP era um local isolado e distante para muitos, assim como o campus da Unicamp. Por outro lado, mudanças de endereço de campi não são estranhos à vida universitária, como a própria história da FFLCH/USP indica - embora a mudança de endereço da Faculdade de Direito da USP do Largo de São Francisco não tenha prosperado.

Uma correlação mecânica entre a chamada crise da EFLCH e o bairro Pimentas transfere a responsabilidade da situação para uma agente exterior ao mundo universitário. Neste caso, o fator provocador não decorre mais da estrutura universitária e da ineficiência com que professores e alunos atuam dentro dela ou de sua incapacidade em transformá-la. É transferida, mesmo que involuntariamente, para o bairro popular.

Há a necessidade de evitar a ilusão de que bastaria mudar a localização do campus para que os problemas da EFLCH acabassem, pois isso poderia gerar nova frustação caso eles se repetirem alhures. O mais provável é que se os problemas não forem discutidos em sua complexidade e enfrentados coletivamente, a mudança apenas alteraria o endereço de grande parte deles. Os problemas de licitação e a precariedade do campus, as greves de alunos e professores, as dificuldades de diálogo na EFLCH e na Unifesp não são decorrentes do local do campus. As dificuldades de transporte sim. Mas, neste caso, deveriamos deixar o local ou contribuir para que tais dificuldades sejam superadas em benefício da comunidade universitária e da vizinhança, mesmo tendo como horizonte um período de tempo mais longo?

É compreensível que professores e estudantes que enfrentam, há anos, todo o tipo de dificuldade estejam desanimados e furiosos, ou mesmo saturados de debates. Ainda mais depois de um semestre conflituoso - embora também de conquistas, como as novas áreas para o campus. Mas, começar do zero em outro local, sabe-se lá onde, não parece a melhor saída.

Um bom argumento, talvez central, para que a EFLCH permaneça em Pimentas vem da necessidade de construir uma metrópole mais igualitária em todos os sentidos. Como é necessário expandir o ensino superior público na Região Metropolitana de São Paulo, que tem cerca de 20 milhões de pessoas, ou 10% da população brasileira, é recomendável do ponto de vista da justiça social e do desenvolvimento urbano que as universidades ocupem lugares antes preteridos da metrópole, como os seus extremos. Em geral, urbanistas e geógrafos concordam que é preciso criar "novas centralidades", algo benéfico para toda a metrópole, inclusive para suas áreas privilegiadas que hoje também enfrentam graves problemas de mobilidade urbana e segurança.

Não é mais possível desenvolver a Região Metropolitana de São Paulo concentrando ações e recursos em áreas historicamente beneficiadas pelo poder público, ocupadas preferencialmente por segmentos de classe média alta da população. É preciso conectar a periferia à periferia. Seria irônico que a universidade pública, autora de tal diagnóstico em inúmeros estudos, aja contrariamente ao que recomenda à sociedade. Quanto à região central da cidade de São Paulo, talvez sua melhor vocação, hoje, seja a moradia.

A expansão da Unifesp na Grande São Paulo e cidades próximas responde a essa necessidade de democratização da metrópole. Ao desenvolver nestes locais uma estrutura universitária pública, amplia-se a consciência crítica e cidadã. Um exemplo são os professores da EFLCH em conselhos municipais de Guarulhos e participando de outras iniciativas municipais. Essa interação é tensa por interferir diretamente em conflitos locais, mas é também transformadora.

Guarulhos é a segunda cidade mais importante da Região Metropolitana. Quando a EFLCH funcionar plenamente poderá, então, polarizar toda a área leste e norte da Grande São Paulo, além de parte do Vale do Paraíba. São milhões de pessoas, dezenas de cidades. Devido à precariedade do transporte público, seguramente não é o campus ideal para o aluno ou professor que vive nas zonas Sul e Oeste de São Paulo, mas a situação é melhor para o paulistano da Zona Leste e Norte, ou de Itaquaquecetuba. Cabe, por fim, lembrar que nas zonas Leste e Norte de São Paulo e em parte de Guarulhos existem bairros de classe média alta. Futuramente, eles poderão servir de moradia a professores e alunos.

A EFLCH e o bairro Pimentas

Nas últimas décadas, o bairro Pimentas teve mudanças positivas, segundo seus moradores. E foi, sem dúvida, a nova conjuntura econômica nacional e os investimentos municipais que alteraram a região. O campus não causou a valorização imobiliária de que muitas vezes foi acusado, pois ela ocorreria de qualquer forma.

Por outro lado, a presença da EFLCH no bairro foi benéfica. Escolas da região recebem alunos do campus e professores da rede pública vão para a EFLCH, além de docentes da Unifesp que se engajam em atividades de pesquisa e extensão. Mais uma vez, tendo-se o curso de história como referência, é possível afirmar que os resultados são promissores. Evidentemente isso poderia ser feito mesmo que a universidade estivesse em outra região de São Paulo, mas é inegável a diferença de estar localizado em um bairro popular e ir a uma destas regiões realizar atividades de extensão. Neste caso, o compromisso com a realidade local se impõe de forma inescapável, pois a comunidade universitária trata de seu próprio destino.

O campus também traz recursos para o bairro: atrai investimentos e atenção do poder público (federal, estadual e municipal), cria empregos para moradores da região, ajuda a movimentar o comércio, o aluguel de residências, etc. Em longo prazo, pode criar dinâmicas que ampliem as opções culturais e as perspectivas da população local, tornando o bairro mais heterogêneo e diversificado. Salvo engano, quando o quadro de professores estiver completo serão cerca de 250 docentes, centenas de funcionários e milhares de alunos de diversos locais diferentes. Muitos deles estarão pela primeira vez em um bairro de origem popular.

De nada adiantaria, porém, a EFLCH ser benéfica para o desenvolvimento de São Paulo e para o bairro Pimentas se não fosse capaz de produzir conhecimento de qualidade. Tendo como parâmetro a área de história – faltam dados e conhecimento para analisar as demais - isso vem ocorrendo plenamente. O curso de História está entre os melhores e mais difíceis de São Paulo. Há alunos concluindo a faculdade e disputando com êxito o mercado de trabalho e a pós-graduação, o que deve se expandir de forma acelerada.

O departamento também tem realizado encontros acadêmicos periodicamente, apesar de todas as dificuldades. No primeiro semestre houve, inclusive, um encontro internacional exitoso. Professores e alunos têm seus projetos aprovados pela FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) e convênios com instituições importantes, como o Arquivo Público do Estado de São Paulo. Além disso, enquanto houve aulas os grupos de pesquisa se reuniram periodicamente. Em julho, estudantes de História acolheram no campus e no CEU o Encontro Nacional dos Estudantes de História, que contou com cerca de 450 participantes, a maioria de fora de São Paulo.

Alguns apontam os índices de evasão dos alunos da EFLCH como a prova cabal de que o campus é inviável no bairro Pimentas. Evidentemente, a precariedade do transporte público e, em especial, a ausência de uma estação de metrô na região causam grandes prejuízos a estudantes, técnicos administrativos e professores, além da população local. Contudo, não é possível correlacionar tão imediatamente um suposto “isolamento” do bairro e as taxas de evasão, pois há outros problemas afetando a vida dos estudantes.

Uma possibilidade, talvez mais provável, é a de que os alunos se desanimam ao chegar a um campus sem condições adequadas de estudo e convivência acadêmica e não pela distância geográfica. Portanto, somente se a EFLCH estivesse plenamente instalada seria possível fazer essa correlação entre evasão e distância. Por outro lado, o simples arrolamento estatístico da evasão não explica as suas causas. Para isso, são necessários estudos qualitativos, pois a evasão pode decorrer de inúmeros fatores, alguns até mesmo positivos, como maiores possibilidades de escolha por parte dos estudantes.

Ainda que seja uma deficiência gravíssima de solução complexa, alunos, professores e técnicos administrativos não são passivos diante da precariedade da rede de transportes públicos. Procuram soluções como os fretamentos e caronas, nem sempre saídas ideais. Por isso, a luta pela instalação de uma estação de metrô próxima ao campus é um sonho possível que devia começar a ser construído imediatamente. Esse objetivo poderia, inclusive, congregar a comunidade universitária e a população do bairro e arredores. Embora promissor, é necessário aguardar para avaliar a qualidade do sistema Orca recém-conquistado.

Além disso, é interessante observar como o sistema de caronas entre professores - que funciona relativamente bem -, não deixa de estreitar os encontros e conversas com os colegas, indicando que o enfrentamento conjunto das dificuldades pode ter efeito agregador e construtivo.

Novo campus: novas promessas e novos problemas?

É possível que algumas pessoas que pensam na saída do bairro Pimentas como solução para os problemas da EFLCH idealizem o novo local a ser escolhido. A situação começaria a mudar de figura quando o novo local fosse indicado. Seria o momento em que os problemas dele começariam a aparecer. Por exemplo, será que ele seria mais próximo que o atual para estudantes e professores? E para os técnicos-administrativos? Haveria verba garantida para essa operação? O governo federal apoiaria a medida? E o governo municipal da nova cidade escolhida, apoiaria? Mesmo que fossem de partidos políticos diferentes às vésperas de uma eleição presidencial? E a Unifesp aceitaria uma EFLCH na cidade de São Paulo?

É difícil acreditar que, se a estrutura universitária não foi capaz de oferecer um prédio novo para a EFLCH, possa rapidamente disponibilizar todo um campus novo, sem problemas de infraestrutura e bem localizado. Não se corre o risco de iniciar um novo ciclo de reivindicações do zero, tendo que refazer todas as relações que, bem ou mal, já existem em Guarulhos - desde o cadastramento de escolas para a licenciatura até contatos com o poder municipal? E, mais grave ainda, não se corre o risco de perder tudo o que foi conquistado no primeiro semestre sem qualquer garantia de haver algo melhor em outro lugar? Parece um risco alto demais.

Diante do que foi dito acima, acredita-se que a EFLCH, que já tem uma bela história de lutas, conquistas e realizações em Guarulhos, permaneça unida no campus atual, preparando-se para sua expansão com novos cursos e alunos, encontrando seu lugar na Unifesp, na metrópole e no universo do conhecimento.

*Professor-doutor de Teoria da História da Universidade Federal de São Paulo. É autor do livro Tietê - O Rio que a Cidade Perdeu, e, com outros autores, de Paulicéia Afro: lugares, histórias e pessoas.