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Língua Portuguesa

Mudanças estruturais

por Sírio Possenti — publicado 28/02/2012 12h11, última modificação 06/06/2015 18h27
Sírio Possenti explica que numa língua as mudanças ocorrem em cadeia e obedecendo a determinados processos não-isolados

Numa língua não ocorrem  mudanças isoladas. Ocorrem em cadeia. Além disso, obedecem a um processo, não são instantâneas. Uma forma pode ser antiga e não desaparecer totalmente.

Vou dar dois exemplos de variação (continua na próxima coluna), ou de mudança em curso, que talvez não cheguem a se consumar totalmente. A apresentação está obviamente simplificada.

Haver – ter – possuir

Em tempos idos, o sentido de haver era claramente ‘possuir / ter’, como em tenho livros, tenho vícios: São exemplos do Houaiss: “os Albuquerque hão cabedal de escudos para muito mais”; “Os Noronhas houveram notícia de sua prisão”. Um texto de D. Duarte, do séc. XV, começa assim: “E este rrey Leyr non ouue (houve) filhos, mas ouue (houve) três filhas muy fermosas e amauuas (amava-as) muito”). Com o tempo, o verbo perdeu esta acepção. Ultimamente, seu sentido mais típico era ‘existir’, como se aprende nas aulas de gramática (havia muita gente, há muita falta de vergonha).

Até recentemente, o sentido de ter era ‘ser possuidor’. As pessoas tinham carros, namorados, dúvidas, pernas, cabelos, medo. Não haviam mais. Tinham. Mas, aos poucos, ter passou a substituir o verbo haver no sentido de ‘existir’: quase só se diz “tinha gente lá em casa, tem dias que a gente se sente..., tinha uma pedra no meio do caminho, não tem mais jogador genial” etc. O verbo haver é, a rigor, arcaico; só ocorre em textos bastante formais, em provas de português e em hinos - sacros, nacionais ou de clubes de futebol: hei de vencer, vencer, vencer. Ainda se ouve, mas muito raramente. Soa artificial, antigo ou solene.

O verbo possuir era apenas empregado em contextos relativamente formais. E não se empregava em contextos como possuir pais ou irmãos. Implicava basicamente posse alienável, isto é, que alguém podia não ter: terras, livros, namorados. Por isso, não se empregava em contextos como possuir mãos ou pés; em casos assim, empregava-se ter. Mas as coisas mudaram: como ter substituiu haver, possuir substituiu ter: hoje, os livros possuem capítulos, as páginas possuem linhas, os meninos e meninas possuem avós, mães e cabelos lisos ou crespos. Antes, tinham!

A escala “evolutiva” para expressar o sentido de posse é haver > ter > possuir. Antigamente, havia-se bens; depois, tinha-se; hoje, possui-se. Haver e ter ainda alternam, no sentido de ‘existir”;  ter e possuir, no sentido de ‘ser possuidor’. A tendência é se fixem os segundos de cada dupla. Ninguém diz a bolsa dela possui de tudo. Ainda?