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Memória Virtual

por Tory Oliveira publicado 09/03/2012 18h01, última modificação 09/03/2012 18h01
Museu da Imigração abre portas para a vida dos estrangeiros que vieram a São Paulo entre 1887 e 1978

Datada de 1921, uma carta datilografada pelo imigrante português Manuel Rodrigues manda notícias para a mulher: “Maria, comunico-lhe que fiz boa viagem e que não houve nada, pelo contrário, no mar. Comunico-lhe ainda que não arranjei emprego, e estes dias tenho estado na casa do senhor Manuel Santos, até que arranje um quarto ou uma sala...” Em outro arquivo, uma foto em preto e branco revela pelo menos 20 japoneses apinhados em camas simples de madeira, no dormitório coletivo da Hospedaria dos Imigrantes, em 1930. Outra, de 1900, retrata um professor com seus alunos, na Escola Alemã da cidade de Rio Claro, interior de São Paulo. Também de 1921, documento do Consulado de Portugal em São Paulo atesta que o cidadão português Antônio Alcântara chama seu pai, sua mãe e irmã para viver no Brasil.

Antes disponíveis somente no arquivo físico do Museu da Imigração (antigo Memorial do Imigrante), na cidade de São Paulo, esses e outros retratos da história da imigração no Brasil estão disponíveis gratuitamente para consulta e download no novo site da instituição (www.museudaimigracao.org.br). No total, foram digitalizados 87.640 imagens, 2.824 mapas, 3.223 cartas de chamadas, 9.740 documentos iconográficos e 2.098 jornais. Há também informações como nome completo, data de nascimento e local de origem dos cerca de 2,5 milhões de pessoas que passaram pela Hospedaria dos Imigrantes entre 1887 e 1978.

“Antes, o visitante precisava dirigir-se diretamente ao acervo do museu, no bairro da Mooca, ou entrar em contato por e-mail ou telefone e agendar uma visita”, explica Claudinéli Ramos, coordenadora da Unidade de Preservação e Patrimônio Museológico da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo. Segundo a coordenadora, o principal objetivo da digitalização é garantir maior possibilidade de acesso aos documentos com maior comodidade para o usuário.

Inaugurada em 1887, no bairro do Brás, a Hospedaria dos Imigrantes tinha como funções principais a recepção, triagem e encaminhamento dos trabalhadores estrangeiros para seus postos de trabalho, em geral localizados nas fazendas de café do interior paulista. Mantida pela Sociedade Promotora de Imigração, a hospedaria fornecia durante oito dias abrigo e alimentação para todos que desembarcassem nos portos de Santos e do Rio de Janeiro – banho com água quente, roupas desinfetadas e vacinação também faziam parte do pacote de boas-vindas. Nas épocas de maior movimento, chegou a receber 600 recém-chegados por dia, porém, com a queda no fluxo de imigração, a hospedaria fechou suas portas em 1978. Tombado pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico (Condephaat) em 1982, o edifício passou a abrigar o Memorial do Imigrante em 1998.

Realizado em parceria com o Arquivo Público do Estado de São Paulo – local que abriga o acervo do Museu da Imigração desde que o espaço fechou para reforma, em 2010 –, o trabalho de colocar cartas, fotografias e registros de imigrantes na web envolveu pelo menos 25 profissionais da área de Arquivologia, Museologia e História, além de auxiliares técnicos. Todos os documentos passaram por etapas de organização, digitalização e tratamento das imagens. Ao mesmo tempo, ações de conservação e pequenos reparos possibilitaram a recuperação de informações antes ilegíveis. De acordo com o coordenador do Arquivo Público do Estado de São Paulo, Carlos Bacellar, a parte mais difícil do processo foi relacionar as imagens às palavras-chave, procedimento necessário para a realização de buscas no acervo virtual.

Iniciada em janeiro de 2011, a criação do acervo digital do Museu da Imigração foi concluída em outubro do mesmo ano, com o lançamento do site. Para Carlos Bacellar, a publicação dos arquivos na rede torna o acervo do Museu da Imigração ainda mais público. “A página facilitou o trabalho das pessoas interessadas em buscar documentação para requisição de cidadania ou mesmo em conhecer a história de sua família”, conta. “O interesse é muito grande”, comemora Claudinéli Ramos. O site, que já recebeu 65 mil acessos, também ajuda a suprir a demanda por informações a respeito da imigração no estado, uma vez que o espaço físico do museu, fechado para reforma, só deve reabrir em maio deste ano