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Língua Portuguesa

Explicar. Sempre

por Sírio Possenti — publicado 17/01/2012 15h49, última modificação 06/06/2015 18h27
As línguas são objetos bastante complexos. Nelas, há fatos que são simplesmente porque são. Nomes de objetos, por exemplo. Explicar sua origem nem sempre é fácil

Um dos estereótipos de crianças é que são curiosas. Perguntam tudo. Às vezes, fazem perguntas sobre a língua que estão começando a falar. Ou a escrever, conforme a idade. Muitas vezes, não sabemos responder.

As línguas são objetos bastante complexos. Nelas, há fatos que são simplesmente porque são. Nomes de objetos, por exemplo. Explicar sua origem nem sempre é fácil. Muitas fontes não são confiáveis (há muita etimologia fajuta no mercado).

Mas há fatos que podem ser explicadas. Às vezes, os manuais não ajudam. Nem as gramáticas. Frequentemente, tratam de fatos que podem e devem ser explicados como se fossem não motivados, arbitrários.

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Por exemplo: pode-se dizer É necessário paciência ou É proibido entrada. Também é correto fazer a concordância: É necessária paciência ou É proibida entrada (conforme a Moderna gramática portuguesa, de E. Bechara)

Quem não vê, no entanto, que a ausência de concordância é motivada pela posição dos constituintes? Não se diz A paciência é necessário ou A entrada é proibido. Mas, se o sujeito vem depois do elemento que pode concordar com ele, a regra muitas vezes não se aplica.

Acho que não é um caso para ser detalhado nos primeiros anos da escola (mas as crianças entenderiam; quem não quer entender, às vezes, é o especialista; ele perderia dinheiro!). Mas, em algum momento, é bom que haja uma explicação e, principalmente, que se estabeleça uma relação entre partes da gramática que os próprios gramáticos não relacionam.

Bechara, por exemplo, apenas diz que, com expressões do tipo é necessário, é preciso, o adjetivo pode ficar invariável ou pode concordar (p. 551).

Mas os fatos mostram que o fenômeno não ocorre apenas  com tais “expressões”. Mais que isso: as gramáticas tratam em separado a concordância verbal quando o sujeito é composto e posposto. Constatam (e aceitam) que o verbo concorde apenas com o elemento mais próximo de um sujeito composto posposto (que vem depois do verbo). O exemplo clássico é Passará o céu e a terra, mas as minhas palavras não passarão. Mas há outros: Que te seja propício o astro e a flor...; Habita-me o espaço e a solidão (Cunha e Cintra. Nova gramática do português contemporâneo).

Observe-se o caso “que te seja propício o astro e a flor”: “propício” não está no plural. A única razão é sua posição, antes do(s) nome(s) com que concordaria.

Uma observação elementar mostra que devem ser tratados da mesma forma esses casos e o caso das “expressões”. Em todos eles, o fator condicionante é a posição do sujeito (posposto). Melhor ainda: esse fato explica tanto a (falta de) concordância nominal quanto a verbal! Obtém-se uma incrível generalização!

Ressalvados certos aspectos (línguas funcionam em sociedades heterogêneas, o que produz efeitos), as gramáticas deveriam operar como as outras ciências: explicar fatos! Se possível, com poucas regras.