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Música

Vozes do carnaval

por Carta na Escola — publicado 13/02/2012 18h28, última modificação 13/02/2012 18h28
Alegres e fáceis de aprender, marchinhas exprimem espírito das festas de rua ao mesmo tempo que fazem crônicas breves de seu tempo

Alegres e fáceis de aprender, marchinhas exprimem espírito das festas de rua ao mesmo tempo que fazem crônicas breves de seu tempo

Por Braulio Tavares, escritor, compositor e colunista de Carta Fundamental

Uma boa marchinha carnavalesca deve ter uma melodia alegre de cantar e fácil de memorizar, além de letra divertida, que diga coisas engraçadas mesmo que não façam sentido.  Numa descrição tão vaga cabem muitos modelos, inclusive alguns que desobedecem a algum item da lista: há marchinhas tristonhas, por exemplo. Outras têm letras meramente descritivas ou que soam de um modo totalmente nonsense. E a marchinha, por definição, é curta.  Em geral tem uma estrutura de primeira parte, segunda parte e refrão, além de algum riff instrumental característico capaz de evocá-la instantaneamente.

O auge da marchinha coincide com o auge do rádio, entre as décadas de 1930 e 1960, antes que a televisão começasse gradualmente a ocupar espaço na criação de modas e tendências associadas à música. Ela exprime o espírito do carnaval de rua, que vive das mil e uma marchinhas que todo folião sabe de cor desde a infância.

“Com pandeiro ou sem pandeiro, êêêê, eu brinco; com dinheiro ou sem dinheiro, êêêê, eu brinco!”

(Eu Brinco, de Pedro Caetano e Claudionor Cruz, 1944)

“As águas vão rolar, garrafa cheia eu não quero ver sobrar! Eu passo a mão na saca, saca, saca-rolha, e bebo até me afogar – deixa as águas rolar!”

(Saca-rolha, de Zé da Zilda, Zilda do Zé e Waldir Machado, 1954)

A marchinha é a trilha sonora do carnaval sem altas produções, com pouca grana, o carnaval que qualquer joão-ninguém pode brincar.  O que nunca impediu, é claro, que ela fosse tocada pelas orquestras e cantada em coro pelos foliões de clube, uma tradição que ainda resiste heroicamente.  As orquestras dos clubes fechados foram tão importantes quanto as rádios para fazer das marchinhas a trilha sonora mais popular.

A marchinha faz a crônica dos fatos do momento, das novidades, das modas, de tudo que atrai a atenção do povo. Assunto que gera manchete é assunto que gera marchinha. A marchinha era como um cartum, uma maneira rápida e vívida de cristalizar um aspecto engraçado ou paradoxal de uma situação qualquer.  

“Lá vem o cordão dos puxa-sacos dando vivas aos seus maiorais... Quem está na frente é passado pra trás, e o cordão dos puxa-sacos cada vez aumenta mais!”

(Cordão dos Puxa-sacos, deRobertoMartins e Eratóstenes Frazão, 1946)

“Você conhece o pedreiro Waldemar? Se não
conhece, pois eu vou lhe apresentar: de madrugada toma o trem da circular, faz tanta casa e não tem casa pra morar”

(Pedreiro Waldemar, deRobertoMartins e Wilson Batista, 1949)

Personagens pitorescos, figuras públicas, tipos populares, tudo fornece material para marchinhas que captam o olhar do povo sobre as novidades que o mundo apresenta.  Olhar conservador, irreverente, simpático ou desconfiado com novas maneiras de ser, atitudes, formas de comportamento. 

““Olha a cabeleira do Zezé... Será que ele é? Será
que ele é?”

(Cabeleira do Zezé, de JoãoRobertoKelly eRobertoFaissal, 1964)

“Maria Sapatão, sapatão, sapatão... De dia é Maria, de noite é João”

(Maria Sapatão, de JoãoRobertoKelly, 1981)

Não se deve pensar, porém, que a marchinha é um jornalismo musicado.  As letras são muito curtas e o espaço dos versos tem de ser repartido com os refrões, que muitas vezes não passam de onomatopeias.  O folião parece gostar de letras com algo de exótico, mas não levado muito a sério, como nas inúmeras marchinhas ambientadas em outras culturas, e reduzindo tudo à poética lúdica de suas letras. 

“Eu fui às touradas em Madri, pararatibum,
bum, bum... E quase não volto mais aqui, pra ver
Peri, beijar Ceci”

(Touradas em Madri, de João de Barro e Alberto Ribeiro, 1938)

“Atravessando o deserto do Saara, o sol estava quente, queimou a nossa cara... Ala-la-ô, ôô, ôô... Mas que calor, ôô, ôô...”

(Allah-la-ô, de Nássara e Haroldo Lobo, 1941)

A mulher é um tema constante nessas músicas, feitas de propósito para o canto de uma multidão, num clima de euforia de verão.  Mulheres de todos os tipos já foram musas de marchinhas: a fiel, a sapeca, a trabalhadora, a fatal, a esposa paciente, a namorada esfuziante.  Em três anos sucessivos, o carnaval carioca homenageou a mulata (O Teu Cabelo não Nega, de Lamartine Babo e Irmãos Valença, 1932), a morena (Linda Morena, de Lamartine Babo, 1933) e a loura (Linda Lourinha, de João de Barro, 1934).

Há muitas marchinhas celebrando a mulher diferente, desinibida, que atrai os olhares à sua passagem; talvez porque seja assim que muitas mulheres querem se sentir no carnaval, e os compositores fazem o que podem para que isso aconteça.  Versos sobre mulheres namoradeiras, anticonvencionais, são mais aceitos dentro da leveza de tom de uma marchinha carnavalesca.

“Chiquita Bacana lá da Martinica se veste com uma casca de banana nanica”

(Chiquita Bacana, de Alberto Ribeiro e João de Barro, 1949)

Os anos 1950 foram uma época conservadora nos costumes, mas também de uma euforia modernizante generalizada, inclusive nos costumes. Daí os conselhos prudentes de João de Barro em Vai com Jeito (1957): “Se alguém lhe convidar pra tomar banho em Paquetá, um piquenique na Barra da Tijuca ou pra fazer um programa no Joá... Menina, vai; com jeito vai, se não um dia a casa cai”.  Havia no ar certa preocupação com o perigo de tantas jovens inexperientes receberem sua iniciação amorosa nas mãos dos “lobos maus” de sempre.  Anos depois, tanto a bossa nova quanto a Jovem Guarda retomaram esse tema, que vive girando eternamente na cabeça dos jovens e dos pais dos jovens.

As letras das marchinhas ganham novos sentidos a depender do contexto.  Uma marchinha despretensiosa como a Marcha do Remador (de Antonio Almeida e Oldemar Magalhães, 1964) acabou se transformando num símbolo popular de esperança e otimismo.  É cantada por torcidas de futebol e por estudantes encarando vestibular; em comícios políticos, em greves, em campanhas de todo tipo explodia de vez em quando o coro: “Se a canoa não virar, olê, olê, olá, eu chego lá!”

A marchinha gosta de trocadilhos, distorção de siglas ou de nomes próprios, rimas inesperadas com palavras que acabam de “entrar na moda”.  Ela é conservadora no sentido de ter criado para si própria uma tradição: um perfil melódico, rítmico, e um estilo de letras que mantém o mesmo espírito de quase um século atrás.

No recente 7o Concurso Nacional de Marchinhas Carnavalescas da Fundição Progresso (Rio), os organizadores receberam a inscrição de 1.049 composições, entre as quais o júri escolheu dez finalistas.  As letras demonstram a fidelidade à tradição, mesmo nos novos tempos:

“Já tô treinando pra 2016/no COI dos outros é
refresco, podes crer/ninguém vai botar membro no meu comitê”

(Neto, Janjão, Gallotti e Holanda)

“Cai, cai, cai, cachaça/acha graça quem não viu/já virou moda na praça/guarda-chuva de funil”

(Leandro Almeida)

“Já me apaixonei por colombina/já me apaixonei por arlequim/de dia sou caubói/de noite bailarina”

(Eugenio Dale e Suely Mesquita)