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Carta Fundamental

Reportagem

Vontade de mudar

por isabelamorais — publicado 09/01/2013 15h39, última modificação 09/01/2013 15h39
Escola pública em Mogi das Cruzes cria projetos que incentivam professores e melhoram habilidades dos alunos
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Escola pública em Mogi das Cruzes cria projetos que incentivam professores e melhoram habilidades dos alunos. Foto: Isadora Pamplona

 

Numa rua de paralelepípedo em Mogi das Cruzes, região metropolitana de São Paulo, Giovana da Anunciação de Souza inicia a aula de Matemática que preparou para sua turma de quinto ano da Escola Municipal Doutor Benedito Laporte Vieira da Motta. Na sala abafada, os 30 alunos divididos em grupos discutem e dão risada. Não há lição na lousa e a professora permanece em sua mesa. Eventualmente, ela interrompe algum aluno exaltado, mas os deixa conversarem. “E é sempre assim?” “Sim, essa é nossa aula”, ela responde.

O barulho se explica pelos tabuleiros, dados e cartelas que fazem desta a aula de Matemática mais aguardada da semana. Desde o início do ano letivo de 2012, professores e alunos criam, confeccionam e brincam com jogos em sala. E não é só isso. Outros dois projetos – um pedagógico e outro de leitura – têm motivado a equipe de docentes e melhorado o desempenho das crianças.

Localizada no distrito de Nova Jundiapeba, periferia da cidade, a escola Benedito Laporte atende alunos do primeiro ao quinto ano. São cerca de 510 crianças de uma comunidade pobre e “itinerante”, nas palavras da coordenadora pedagógica Débora Soares Alves Teixeira. Muitas famílias chegam, mas pouco tempo depois se mudam. O saneamento básico precário e a violência são grandes problemas. As adversidades se refletem no alto índice de abstenções. “Temos de ir atrás da família para tentar entender por que o aluno está faltando”, diz Débora.

Apesar das dificuldades, a Benedito Laporte é a escola que apresentou a maior evolução no Ideb em Mogi das Cruzes. De 2009 a 2011, o índice aumentou 40% e passou de 4.0 para 5.6, número superior à média do estado de São Paulo, de 5.4. O crescimento é 30% superior à meta estabelecida para 2011.

A mudança na escola traduzida em números teve início em 2011. Nesse ano, Débora assumiu a coordenação pedagógica e implementou um projeto de reestruturação dos Planos de Ação, iniciativa que já se desenhava desde 2009, quando ainda era professora. A proposta era transformar os Planos de Ação, tidos como mera formalidade, em um documento de reflexão e autocrítica, como uma espécie de diário do professor. Os primeiros passos foram difíceis. “Havia aquela ideia de que o Plano de Ação era feito só para o coordenador ver. Fui mostrando que o documento pode até mesmo estar rascunhado a lápis, em uma folha qualquer. Ele precisa ser funcional e deve auxiliar o professor”, afirma.

Hoje a prática é adotada por toda a equipe. Os professores do primeiro ano traçam metas mensais em grupo e a cada semana registram, individualmente, os detalhes de suas aulas. Do segundo ao quinto ano, os objetivos são definidos em conjunto quinzenalmente. Os planos detalhados são feitos a cada semana. “Alguns usam o documento para desabafar e hoje já acrescentam até as fotos das atividades e comportamentos dos alunos que eles acham interessante. Isso faz do Plano de Ação um instrumento de trabalho significativo”, comenta.

Cada docente tem sua pasta, onde guardam as anotações feitas à mão. Débora lê e comenta todos os registros duas vezes ao mês. “Se vejo que a atividade está dando certo, valorizo e peço para que compartilhem com os colegas nas reuniões.” Após a reestruturação dos Planos de Ação, a qualidade das aulas aumentou.

Para atrair o interesse dos alunos para as aulas de Matemática, foi criado o projeto de jogos. A cada semestre, cada turma fica responsável por elaborar, problematizar e confeccionar um desafio que contemple um dos quatro eixos da disciplina: números e operações, espaço e forma, grandezas e medidas ou tratamento da informação.

Neste semestre, a sala da professora Giovana produziu os jogos Trilha do Tempo e Tentativa e Análise. No primeiro, o participante joga um dado e avança o número de casas no tabuleiro. Cada casa conta com uma numeração, que equivale a um cartão com uma pergunta. O oponente a lê e o jogador tem dez segundos para responder. Se ele errar, terá de cumprir a penalidade correspondente. O jogo, que trabalha o senso de tempo, traz questões como: “Mil anos equivalem a quantos milênios?”

Já o Tentativa e Análise trabalha com tratamento da informação e é jogado por duas pessoas. Um jogador anota uma sequência de quatro cores e a mantém em segredo. Em um tabuleiro, dividido em duas colunas, o oponente tenta descobrir a série colocando cartões coloridos em ordem. Na outra coluna, o jogador analisa a jogada do oponente distribuindo cartões pretos para os erros e brancos para os acertos. O jogador tem oito tentativas para acertar.

Nas turmas de primeiro ano, o Jogo do Caranguejo é um dos preferidos. Em grupos de quatro pessoas, eles jogam um dado e realizam as instruções correspondentes em um tabuleiro retangular. Todos começam com suas peças no centro e devem avançar ora para a direita, ora para a esquerda, de acordo com as orientações retiradas. Vence quem alcançar primeiro uma das pontas. “O jogo trabalha o senso de direção, com ordens de ir para a direita ou para a esquerda. Eles já são craques e dão um banho na gente”, brinca Débora.

Os jogos são utilizados uma vez a cada semana em todas as turmas. As primeiras aulas são destinadas ao planejamento e à confecção. Depois, os alunos começam a se familiarizar com as regras. A princípio, os professores interferem nos grupos, problematizando, mas, no final, a mediação diminui e eles dão autonomia para que os estudantes resolvam entre si eventuais problemas.

Nas aulas de Língua Portuguesa, os alunos tomam a frente da sala para contar histórias. A ideia é que o estudante mais velho seja um exemplo para os mais novos. A cada 15 dias, professores do quarto e quinto anos iniciam a escolha de uma obra a ser lida para as crianças da Educação Infantil. Na biblioteca, os alunos exploram diferentes livros e decidem qual deles será utilizado. Depois, os docentes realizam o estudo do texto, onde dão aos colegas a oportunidade de escutar e recontar a história, chamando a atenção para a entonação, a pontuação e outras estratégias de leitura em voz alta.

Entusiasmados, os alunos costumam produzir cartazes, fantoches e fantasias para o momento da leitura. “Alguns têm a iniciativa de se caracterizar como os personagens, o que é muito estimulante para eles”, diz Sandra Regina Fritoli Renzi, professora do quinto ano.

No momento de contar a história, os estudantes são divididos em grupos e se dirigem às salas de aula do primeiro ano. Na turma de Sandra, Leandro de Souza e Guilherme Alves, ambos de 10 anos, se preparam para interpretar os personagens Coelho Pai e Coelho Filho, do livro Adivinha o quanto Te Amo. De maquiagem pronta e orelhinhas coladas, eles interpretam a narrativa que seis colegas leem diante dos alunos de 5 e 6 anos. Os estudantes do segundo e terceiro anos, ainda em processo de alfabetização, não realizam a contação, mas indicam livros para os alunos da Educação Infantil.

Segundo Sandra, além da melhora na fluência, o trabalho com a pontuação e a entonação ajudou os alunos a compreender melhor o texto. “No início, eles ficaram inseguros, mas criaram o hábito de leitura e hoje são modelos na escola, o que é muito importante para eles.” Ao término da leitura, a professora questiona os alunos do primeiro ano: “Quando vocês crescerem, quem vai querer contar histórias?” Sentados em grupos de quatro, todos levantam as mãos.

As iniciativas da Benedito Laporte foram reconhecidas pelo 1º Congresso de Boas Práticas em Sala de Aula, que aconteceu em setembro na capital paulista. O evento, promovido anualmente pela ONG Parceiros da Educação, promove e monitora parcerias entre empresas e escolas da rede pública. Um dos critérios para a aprovação da escola foi justamente a facilidade de os projetos serem replicados, um estímulo para outros educadores que também têm vontade de mudar.

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