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Carta Fundamental

Educação Financeira

Um novo País, livre dos velhos hábitos

por Carta na Escola — publicado 13/04/2012 15h33, última modificação 13/04/2012 15h33
Entender as mudanças do sistema financeiro brasileiro nas últimas décadas é o primeiro passo para não transmitir a crianças e jovens o modelo de finanças usado em períodos de inflação descontrolada
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Entender as mudanças do sistema financeiro brasileiro nas últimas décadas é o primeiro passo para não transmitir a crianças e jovens o modelo de finanças usado em períodos de inflação descontrolada

Por Jurandir Macedo,  consultor de Finanças Pessoais do Itaú, doutor
em Finanças Comportamentais, com pós-doutorado em Psicologia Cognitiva e professor
da Universidade Federal de Santa Catarina

De forma surpreendente, o sistema financeiro nacional atravessou com relativa tranquilidade as décadas de inflação extremamente elevada ou hiperinflação. Porém, a queda brusca da inflação conquistada pelo Plano Real provocou uma profunda diminuição das receitas inflacionárias apropriadas pelo sistema, o que gerou riscos de uma crise bancária. Tal amea-ça foi contida pelo Programa de Estímulo à Reestruturação e ao Fortalecimento do Sistema Financeiro Nacional (Proer).
Bastante criticado e, por vezes, incompreendido, o Proer sanou o sistema e levou a uma profunda consolidação do setor. Atualmente, bancos públicos e privados, tanto nacionais quanto estrangeiros, competem livremente no mercado e contam com uma eficiente estrutura de regulação e autorregulação.

O crescimento do setor financeiro registrado na última década é impressionante por qualquer ângulo que se olhe. De acordo com a Federação Brasileira de Bancos (Febraban), a rede de atendimento saiu de 54 mil pontos, em 2000, para mais de 250 mil, no fim de 2011. No mesmo período, o número de contas correntes e poupanças mais que dobrou e o número e o volume de recursos movimentados com cartões de crédito quintuplicaram. Os recursos de terceiros administrados pelos bancos também aumentaram em cinco vezes, ultrapassando 2,3 trilhões de reais.

O incremento na captação refletiu-se diretamente na aplicação dos recursos, possibilitando uma significativa melhora na concessão de crédito no País. O crédito de médio e longo prazos, que era praticamente inacessível à população antes do Plano Real, já se aproxima dos 500 dias de prazo médio. São números ainda distantes dos países desenvolvidos, mas extremamente significativos dada a nossa história recente.

O Brasil tem hoje um sistema financeiro sólido e moderno, seus bancos estão entre os mais eficientes e automatizados do mundo. Os brasileiros conseguem, em segundos, transferir dinheiro do Rio Grande do Sul para o Acre. Um cliente de Roraima não encontra dificuldades para acessar um caixa eletrônico em uma praia do Rio de Janeiro. Além disso, os bancos complementam o governo na arrecadação de tributos e no pagamento de benefícios à população.

Os bancos têm hoje presença fundamental na vida dos brasileiros. Embora ainda tenhamos 13% da população excluída do sistema bancário, segundo dados do Censo 2010. Para tentar conquistar e incluir essa população, os grandes bancos estão apostando no microcrédito, abrindo agências em áreas de baixa renda e reforçando estratégias de correspondentes bancários para chegar a todo o País.

Apesar de todos os avanços conquistados, a satisfação com o sistema financeiro ainda é muito baixa. Uma empresa do grupo -McGraw-Hill fez recentemente uma pesquisa com 3 mil clientes dos sete maiores bancos brasileiros. O estudo apontou que temos o mais baixo índice de satisfação entre cinco países avaliados. Segundo a coordenadora da pesquisa, Célia Bastos, o dado “é agravada pela comunicação ineficiente sobre produtos bancários, serviços e taxas”.

Esse fato coloca os bancos entre os setores com maior número de reclamações nos serviços de proteção ao consumidor. De acordo com o Procon, 80% das reclamações seriam fruto da falta de informação. A comunicação ineficiente, ou a falta dela, pode ser traduzida como falta de educação financeira. Essa deficiência é mais um dos efeitos colaterais do período inflacionário. A falta de educação financeira explica o aparente paradoxo: de um lado, os avanços e a eficiência do sistema financeiro e, de outro, a insatisfação e a má fama dos bancos junto a seus clientes.

Na época da inflação fora de controle, com a moeda derretendo no bolso a cada dia, os brasileiros se acostumaram a correr para comprar o que pudessem tão logo recebessem seus rendimentos. Fazer orçamento e planejamento só era possível para quem sabia manejar os complexos mecanismos de correção monetária. Naquele tempo, investir era comprar imóveis, bens semiduráveis ou moeda estrangeira. Vem daí a visão equivocada de que comprar um carro é investimento.

A maioria da população não tem educação financeira porque três ou quatro gerações de brasileiros que nasceram após a década de 1940 se criaram em um período de inflação descontrolada. Educados em lares com gastos sem controle, os jovens de hoje crescem sem bons modelos do que fazer em relação às suas finanças. Conquistamos uma moeda confiável, temos um sistema financeiro sólido e eficiente, mas falta educarmos a população para usufruir dessas conquistas.

O desafio de educar financeiramente os brasileiros é imenso e urgente. O melhor local para se receber essas informações é em casa, mas como os pais conseguem dar educação financeira aos filhos se eles próprios não a têm? O primeiro impulso é transferir a tarefa para a escola, mas como ela vai dar conta da responsabilidade se não temos professores preparados? Precisamos de um esforço conjunto entre governo, escolas, meios de comunicação e agentes do mercado financeiro, em especial os grandes bancos brasileiros.

É comum pensar que os bancos são beneficiários da falta de educação financeira da população, o que não é verdade. Um cliente sem educação financeira toma crédito de forma errada, fica sobre-endividado e não consegue pagar suas contas – o que só dá prejuízo aos bancos, que perdem o dinheiro e o cliente. Mesmo aqueles que conseguem poupar acabam investindo em produtos inadequados, deixam de lucrar e se frustram.

O sistema financeiro tem recursos e conhecimento acumulado para ser o ator principal na luta para oferecer alfabetização financeira à população brasileira. Mas hoje atua apenas como coadjuvante.

É preciso que os agentes do sistema financeiro percebam o que apenas poucos já incorporaram: a educação financeira é estratégia de negócio, não atividade social.