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Carta Fundamental

Reportagem

Sinal fechado

por Tory Oliveira publicado 09/03/2012 16h30, última modificação 09/03/2012 16h30
Livros adaptados para Libras estimulam a inclusão de leitores surdos e começam a ganhar espaço em editoras especializadas
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Livros adaptados para Libras estimulam a inclusão de leitores surdos e começam a ganhar espaço em editoras especializadas

No lugar do sapatinho de cristal, uma luva cor-de-rosa. Na versão adaptada do clássico eternizado por Charles Perrault, Cinderela é uma menina surda que só se comunica pela língua de sinais. É assim que conquista o cobiçado príncipe, não sem antes deixar para trás uma pista para que ele a encontre. Com enredo pensado para aproximar o conto da vida da criança portadora de deficiência auditiva, Cinderela Surda tornou-se o maior sucesso da Editora da Ulbra e chegou à quarta edição, somando cerca de 2 mil exemplares. O livro é escrito em língua portuguesa e em sign writing, uma tentativa de escrita da língua de sinais.

Outra iniciativa no mesmo sentido é Uma Aventura do Saci-Pererê, lançado no ano passado pela Arara Azul. Neste caso, a edição é composta de um livreto em português e um CD-ROM com um livro digital, no qual gestos e expressões faciais traduzem, parágrafo a parágrafo, a história do Saci para a Língua Brasileira de Sinais (Libras).

Títulos assim são artigos raros. Das cerca de 750 editoras brasileiras, poucas se aventuram na publicação sistemática de livros de literatura em Libras. “Ainda é uma área bastante restrita”, constata Elidéa Bernardino, professora e coordenadora do Núcleo de Libras da Faculdade de Letras da UFMG. A variedade da produção também é limitada: grande parte é de adaptações de clássicos.

A lacuna é um dos reflexos do reconhecimento tardio da Libras como a língua oficial utilizada pela comunidade surda brasileira, que só aconteceu em 24 de abril de 2002, por meio da Lei 10.436, regulamentada três anos depois. Datado de dezembro de 2005, o Decreto Federal nº 5.626 garantiu o direito dos alunos surdos de receber educação bilíngue nas classes regulares – Libras como primeira língua e Língua Portuguesa em sua modalidade escrita como segunda. “A partir daí, começou o investimento por parte do governo na produção desses materiais, porque a lei prevê o direito dos surdos de ter materiais em língua de sinais”, explica Clélia Ramos, gerente editorial e de projetos da Editora Arara Azul.

De acordo com o Ministério da Educação, estudantes surdos matriculados em escolas públicas recebem os materiais pedagógicos impressos em português acompanhados por um CDem Libras. Em2011, por exemplo, foram distribuídos 254 mil exemplares da Coleção Porta Aberta, da editora FTD, nas escolas. Porém, dados de 2010 do Censo Demográfico revelam que existem 1.799.885 pessoas com “grande -dificuldade de ouvir”, enquanto 347.481 declararam “não ouvir de modo algum”.

Além dos custos de produção, geralmente os livros voltados para surdos são acompanhados por um DVD ou uma mídia digital com o vídeo do texto interpretado em Libras. Comisso, o valor de um livro acessível praticamente triplica. Isso porque é preciso filmar a narrativa sendo contada em Libras por intérpretes em um estúdio, editar o resultado e gravá-lo em um meio reproduzível em computadores ou aparelhos de DVD. “Não fazemos nada inovador no sentido de desenvolver uma tecnologia. Apenas adaptamos as tecnologias existentes”, explica Clélia. Criada por ela e seu marido em 1993, aArara Azul trabalha exclusivamente com livros em Libras ou publicações voltadas para o tema da surdez. Atualmente, a empresa possui seis funcionários fixos – o número salta para 20 durante a produção de um livro – e 30 obras do gênero no catálogo, incluindo cinco contos de Machado de Assis (O Alienista e A Cartomante, entre outros) e O Velho da Horta, do português Gil Vicente. Os preços variam entre 32 e 66 reais.

Valorizar a identidade do leitor

Diretor da Editora da Ulbra, Astomiro Romais afirma que há demanda crescente por esse tipo de publicação. Todos os títulos que tiveram tiragem inicial de 500 exemplares foram reeditados. Cinderela Surda, expoente do selo, foi escrito a seis mãos por Carolina Hessel, Lodenir Karnopp e Fabiano Rosa, em português e em sign writing.

Para Bernardino, as alterações feitas no enredo são importantes para valorizar a surdez como parte da identidade do leitor e não mais como uma deficiência.  “A Cinderela comum perde o sapatinho, essa, a luva. A diferença é essencial, pois ressalta a importância da mão. Para a criança surda, a literatura é ainda mais importante do que para as demais por conta da aquisição da linguagem. Normalmente, essas crianças só têm acesso a uma linguagem depois que entram para a escola.”

Além de adaptações de contos de fadas e outras histórias conhecidas, a Ulbra possui em catálogo um texto original. Escrito por Liège Kuchenbecker e traduzido por Erika Silva e Ana Paula Lara, O Feijãozinho Surdo tem versões em português e sign writing e é acompanhado por um DVD em que a história é contada em Libras.

Apesar do reconhecimento que o setor vem conquistando, para a professora surda Shirley Vilhalva,  ainda há muito a fazer. “A família precisa conscientizar-se da importância da literatura em Libras e adquirir os recursos tecnológicos necessários, principalmente o computador, pelo qual o aluno surdo vai ter acesso aos vídeos.”

 

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