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Carta Fundamental

Reportagem

Sexo, palavra constrangida

por Fernando Vives — publicado 17/08/2010 15h50, última modificação 17/08/2010 15h50
Polêmica no Recife sobre um influente livro de educação sexual reacende o debate: qual a melhor maneira de lidar com a questão em sala de aula?

Polêmica no Recife sobre um influente livro de educação sexual reacende o debate: qual a melhor maneira de lidar com a questão em sala de aula?

O ensino da educação sexual nas escolas do Brasil historicamente esbarra no constrangimento. Pais de alunos e instituições de ensino que não concordam com o tema recorrem ao argumento de que sexo não é assunto para ser tratado em sala de aula. No entanto, os protestos ocorrem, na maioria das vezes, sem que os pais saibam exatamente o que vai ser ministrado nessa disciplina. A falta de informação torna embaraçoso ensinar um assunto relevante para os alunos. O conhecimento vira tabu.

O tema educação sexual voltou à tona por conta da polêmica ocorrida no sistema de ensino municipal do Recife (PE). Em abril, o vereador André Ferreira (PMDB), ligado à bancada evangélica, recebeu um grupo de eleitores de sua comunidade para reclamar que os alunos ganharam, entre os livros recomendados como leitura extracurricular, a obra Mamãe, como Eu Nasci?, escrita pelo sexólogo Marcos Ribeiro em 1988. O livro, que já ganhou até adaptação para o teatro e mostra um elogio do educador Paulo Freire na contracapa (“Livrinhos assim deveriam multiplicar-se”), é visto pelos pensadores da educação sexual como referência ao tema e um inibidor de tabus. Entre as várias ilustrações do livro, duas que mostravam cenas de masturbação – a primeira, de um menino dentro de uma banheira, e outra, com uma menina em um sofá (págs. 22 e 23) –, chocaram. Após ser procurado por pais de alunos com o livro em mãos, o vereador dirigiu-se à Secretaria de Ensino Municipal, que optou por recolher os livros.

Em maio, uma audiência pública na Câmara dos Vereadores do Recife discutiu o uso do livro no material paradidático. A prefeitura confirmou que optou pelo recolhimento opcional do livro do material extracurricular (ou seja, só devolveram o livro os alunos e os pais que assim bem entenderam) e que não deve mais usá-lo paradidaticamente, mantendo planos para usá-lo em sala, com professores assistindo os alunos.

O vereador André Ferreira argumenta que não é contrário à educação sexual, mas que concorda com os pais que consideram a obra imprópria para crianças de 7 e 8 anos, que é o público-alvo de Mamãe, como Eu Nasci? “O livro é inadequado nas figuras e nas palavras. Não sou contra o tema, desde que se considere a idade. O livro estimula o sexo para crianças. Não se pode permitir que uma menina de 7 anos leia que as pessoas gemem de prazer.”

Marcos Ribeiro, autor do livro que suscitou a polêmica e de nove outras obras na área, ficou surpreso com a situação. “O livro foi lançado há 22 anos e isso nunca havia acontecido antes”, disse. Ele também discorda da ideia de que o livro estimula o ato sexual entre crianças. “Escrevo livros para não ter mistérios e tabus na sexualidade. Uma pessoa bem informada tem menos complexos para lidar com seus problemas. Muitos pais têm a fantasia de que na escola vão ensinar os filhos a ter relação, o que não é verdade. Adolescente informado sobre sexo perde a virgindade mais tarde, porque é menos ansiado a respeito.”

O conceito de Marcos Ribeiro é compartilhado por Paula Regina Costa Ribeiro, coordenadora do grupo de pesquisa Sexualidade e Escola, da Universidade Federal do Rio Grande. “Educação sexual tem de estar desvinculada do ato sexual. As crianças são vistas como inocentes e asssexuadas e muito pequenas para tratar desse assunto. Argumentam que, ao se conversar com elas sobre sexo, vai despertá-las para o ato. Isso não é verdade. Por outro lado, em países subdesenvolvidos, como o Brasil, ainda existem muitas crianças que deixam a escola até a quarta série. Estimular o aprendizado de educação sexual com crianças até a faixa etária de 10 anos é estimular a conscientização”, defende Paula.

A Secretaria Municipal de Educação do Recife mantém o veto ao Mamãe, como Eu Nasci? entre o material paradidático, mas segue um plano de ensino de educação sexual na cidade. Elenira Silveira, assessora para educação sexual da cidade e que fala em nome do secretário Cláudio Duarte, diz que a ação do vereador não foi unânime entre os pais dos alunos. “A maioria dos pais das crianças não quis devolver o livro”, conta. “Embora não esteja presente no material paradidático, a distribuição continua nas bibliotecas das escolas municipais. O ensino sexual segue presente nas escolas do Recife.”

Educação sexual: como e o que ensinar?

O imbróglio na capital pernambucana abriu a discussão sobre o manejo correto da educação sexual nas escolas. E a primeira coisa unânime entre as pessoas que discutem o tema é a inclusão dos pais dos alunos na conversa. Paula Regina Costa Ribeiro entende que a maior parte dos problemas sobre o tema seriam sanados com uma conversa com os pais dos alunos. “O ideal é que a escola, no início do ano letivo, apresente tudo que vai ser discutido nas aulas a eles. Se os pais não forem surpreendidos, a tendência é que eles aceitem, mesmo os mais conservadores.” Paula Regina mostra os argumentos que ajudam a convencer as famílias dos alunos. “Temos de trabalhar sexo nos anos iniciais do Ensino Fundamental porque, segundo a Organização Mundial da Saúde, isso ajuda a evitar a gravidez precoce e doenças sexualmente transmissíveis, e aprofunda a discussão da questão de gênero, da homossexualidade e situações presentes no dia a dia. O conhecimento ajuda em tudo isso”.

“Trazer os pais para a discussão no início do ano letivo é, além de tudo, muito produtivo”, diz Lucilaine Oliveira, pedagoga que há sete anos trabalha com o tema educação sexual em escolas públicas do Rio Grande do Sul. “Há vários pais que alegam ficar constrangidos de conversar com os filhos sobre isso, e a escola tira esse peso deles”, afirma. Inusitadamente, Lucilaine começou a trabalhar o tema em sala de aula para uma pesquisa de mestrado em Educação Ambiental. Segundo ela, entender o próprio corpo é o passo inicial para lidar com a questão do ambiente. “A primeira coisa que uma pessoa lida em vida é o próprio corpo, a relação dela com o ambiente começa por ele. Eu queria fazer um trabalho de campo dando voz às crianças para saber como elas entendem o próprio corpo. A educação sexual começa aí.”

Marcos Ribeiro, que até o fim do ano deve lançar mais um livro sobre educação sexual chamado Conversando com Seu filho Adolescente sobre Sexo, acredita que a o tema tratado em casa independe da educação sexual a ser tratada em classe, justamente pelo viés diferente que ela tem. “A escola vem complementando lacunas, caso isso não tenha ocorrido em casa. Um não exclui o outro. O professor deve incentivar que os alunos problematizem questões, ouçam os colegas, enfim, valorizar o que cada um traz de casa. Alunos evangélicos, católicos, budistas, são todos leituras diferentes. Então, tem-se aí um debate rico e cada um vai assimilar o conteúdo de acordo com seus princípios.”

Se a tradicional maneira de educar em que o professor fala e o aluno escuta já está cada vez mais defasada em boa parte das matérias em sala de aula, o mesmo ocorre com a educação sexual. Como a sexualidade está na mídia com frequência, trazer temas de fácil entendimento pode ser bem interessante para discutir questões com os alunos. A professora Fabiane Lopes Teixeira, que dá aulas de educação sexual em escolas públicas de Rio Grande (RS), aponta que os alunos demonstram muito mais interesse nesse assunto. “Houve uma novela que tinha um casal gay. Alunos relatavam situações com eles, acabavam falando a respeito. Sempre vai haver piadinhas e preconceito, mas a forma como o professor conduz a conversa melhora a visão deles. Fizemos os alunos criarem uma esquete de teatro com um gay como personagem para ver como eles lidavam com isso e saber que final dariam para a história. Muitos transformaram o gay em heterossexual no fim da esquete. A partir daí, trabalha-se a questão do preconceito”, diz.

Tanto Paula Regina quanto Marcos Ribeiro entendem que está havendo uma evolução no ensino da educação sexual nas escolas, tanto na sentido macro, junto ao Ministério da Educação, quanto no micro, em sala de aula. “Anualmente, ocorre o Fórum Saúde e Prevenção nas Escolas, sobre Aids, patrocinado pelo governo. E lá você pode observar milhares de projetos sobre estudo de educação sexual em escolas de todo o País, até em algumas regiões rurais e pobres”, ressalta Marcos Ribeiro.

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