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Carta Fundamental

Carta da Ana

Quem merece?

por Ana Maria Machado — publicado 17/08/2010 15h55, última modificação 13/09/2010 00h31
Os conceitos de mérito e merecimento, antes presentes no mundo da escola, foram abandonados. O que se ouve falar é em meritocracia

Os conceitos de mérito e merecimento, antes presentes no mundo da escola, foram abandonados. O que se ouve falar é em meritocracia

Caro professor,
Ano de Copa do Mundo. Todo mundo se mobiliza, torce, reúne os amigos, faz festa para assistir à transmissão dos jogos, pinta ruas, se comove, na esperança de uma vitória. E de uma grande comemoração, festejando uma conquista.
Da mesma forma, nas Olimpíadas, os habitantes dos diversos países do planeta acompanham os feitos dos atletas, se emocionam com derrotas e vitórias, torcem por uma subida ao pódio, pelas medalhas, pelas flores, pela coroa de louros, pela execução do hino nacional no fim da disputa.

Medalhas também fizeram parte do ambiente escolar durante muito tempo – bronze, prata, ouro. Presas ao uniforme ou penduradas ao pescoço, acompanhadas de uma fitinha verde-amarela, vinham em geral acompanhadas de um dístico: “Honra ao Mérito”. Porque a ideia de mérito fazia parte do universo do ensino.

Depois, as coisas foram mudando. Foi ficando evidente que educar não é uma competição esportiva. Entendeu-se que as pessoas são diferentes, têm aptidões e vocações diversas. Movem-se em velocidades de aprendizagem completamente distintas. Não há motivo para erigir todo um sistema em termos de classificação de estudantes, indo desde o primeiro da classe ao último da turma. As próprias avaliações do aprendizado foram deixando de estar vinculadas a notas numéricas e passaram a admitir uma classificação conceitual. Passou-se até a questionar a própria noção de aprovação escolar.

Muito bem. Há argumentos respeitáveis em ambos os lados e podemos conversar sobre isso outro dia. Frisar que cada criança deve ser tratada em sua individualidade. Ou lembrar que o mundo lá fora é competitivo e a escola não pode preservar as novas gerações numa redoma que as deixem despreparadas para a vida real.

O que me interessa hoje aqui neste papo é, de início, lembrar que os conceitos de mérito e merecimento estiveram muito tempo associados ao mundo da escola. Mais recentemente, foram abandonados. Ao mesmo tempo, cada vez mais se ouve falar em meritocracia.  Ou “o governo de quem merece”, o comando por aqueles que revelaram possuir mais merecimentos. Ou seja, uma gestão que procure estimular quem se destaca por suas qualidades, suas conquistas, seus resultados, sua capacidade de enfrentar desafios com sucesso e atingir metas prefixadas. Agora numa área não mais voltada para os alunos, mas para os professores, diretores e administradores.

É disso que se trata: uma forma de administração. Recompensar quem cumpriu sua parte e, portanto, fez por merecer. Alguns estados brasileiros (como, por exemplo, São Paulo e Espírito Santo) vêm se destacando por programas desse tipo na área de educação. Segundo os especialistas, os resultados têm sido encorajadores. No entanto, muitas vezes, a reação também tem sido virulenta, sobretudo por parte de setores mais associados ao corporativismo do que à busca de qualidade profissional ou à preocupação com a melhora do nível educacional brasileiro.

Entende-se a polêmica. É natural que haja temores, principalmente por parte de quem tem medo de ser prejudicado pela exposição de suas fraquezas profissionais ou falta de competitividade. Mas esse mesmo ponto delicado poderia (ou deveria) também funcionar como um estímulo à busca de aprimoramento.

No fundo, é também uma questão de justiça. Não está correto que um profissional relapso e despreparado tenha garantido o mesmo tratamento que um professor dedicado e capaz, entusiasmado pelo que faz, sempre disposto a dar o melhor de si em sua atividade e a buscar atualização em seus conhecimentos. Ainda mais se é pago com dinheiro público, a partir dos impostos de todos nós, contribuintes de uma das nações com maior carga tributária do mundo, obrigados a trabalhar quase cinco meses por ano apenas para sustentar as ações do governo.

Por tudo isso, a discussão sobre meritocracia interessa a todos nós. Não adianta querermos bancar os bonzinhos e fingir que nesse campeonato todas as partidas devem terminar empatadas sem que exista uma taça a ser levantada ao final pela equipe vencedora. Os pódios se multiplicam pela vida afora. Alguém sobe neles sorridente, festeja, toma banho de champanhe, ganha prêmios. Mesmo que seja apenas metaforicamente. E sobe para ser celebrado e celebrar, porque naquele instante merece.

Todo dia, a cada momento, alguém se destaca e merece um reconhecimento ou uma recompensa. A escola não deve incentivar discriminações, competições sem sentido ou falsas superioridades. Mas não deveria deixar de reconhecer quem merece, sob pena de nivelar tudo numa massa informe de desmerecimento, acarretando a consagração da mediocridade. Ficar atolado num pântano desse tipo é uma tristeza para o País. Isso, sim, é que ninguém merece.
Um abraço, Ana Maria

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