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Queda do muro

por Tory Oliveira publicado 08/09/2011 14h21, última modificação 08/09/2011 14h21
Em parceria com a Bienal, 250 artistas e moradores do Jardim Pantanal revitalizaram região que separava a comunidade do resto de São Paulo

Hoje acredito que a arte pode transformar a sociedade”, declara Antônio Hermes de Souza, 47 anos, em tom de quem sabe o que fala. Conhecido como Senhor Hermes na comunidade de União de Vila Nova, zona leste de São Paulo, ele carrega uma história que envolve criminalidade e dependência de cocaína e crack. Chefe de quadrilha, passou dez anos atrás das grades em nove presídios diferentes antes de mudar – com pedaços de madeira e um cortador de unha – sua história por meio da arte.

Nascido na pequena Tauá, no Ceará, em 1964, imigrou para São Paulo aos 16 anos em busca de emprego. Morou no centro, nos cortiços do bairro do Glicério e envolveu-se com cocaína aos 25. Foi quando começou a traficar e a assaltar. Em 1990, foi preso pela primeira vez, por furto. “Certo dia, fizeram uma batida na minha cela e jogaram fora a madeira que eu usava para fazer maria-louca. Olhando para ela, enxerguei a forma da cabeça de um cavalo”, lembra. Para não passar por mentiroso, pescou um pedaço de madeira e entalhou o cavalo com o cortador de unha. Descobriu um dom.

A princípio, vendia as esculturas na cadeia para sustentar o vício em crack. “Aí comecei a perceber que, quando esculpia, esquecia a droga.” Limpo, passou a organizar uma oficina de artes e, já em regime semiaberto, expôs com os colegas na PUC e começou a trabalhar em oficinas.

Em 2001, criou o Instituto Nova União da Arte (NUA) dentro de casa, na União de Vila Nova, em São Miguel Paulista. Apelidada de “Jardim Pantanal”, a comunidade foi construída por 260 famílias em 1987 em uma região de várzea, onde antes ficava um lixão. Lá, em uma casa improvisada de três andares, há dez anos o NUA oferece aulas de artes plásticas, artesanato e dança para 180 crianças no contraturno escolar. Foi esse pedaço da história da União de Vila Nova e do Senhor Hermes que recebeu a intervenção da Bienal.

Atualmente, cerca de 40 mil pessoas vivem no bairro, já urbanizado, mas marginalizado pelo muro da linha de trem da CPTM. Com 2,5 quilômetros de extensão e 2,5 metros de altura, o muro que separa a linha da comunidade recebeu pintura e grafitagem de 250 artistas e moradores da região em novembro do ano passado.

O projeto nasceu de uma formação realizada pela Bienal no Instituto e ganhou força com a adesão do artista plástico e ativista Rui Amaral. Segundo a coordenadora de relações externas da Bienal, Helena Kavaliunas, as ações da instituição são “flexibilizadas” de acordo com as necessidades de cada comunidade. “A gente vai até lá, ouve e vê o que a comunidade quer.” O artista ministrou o workshop “Arte, Política e Grafite” para 40 pessoas em uma escola estadual da região e, no dia seguinte, coordenou a pintura. Hoje, o muro grafitado trouxe nova vida ao bairro. “A Bienal foi para a periferia. Acabou a pichação. Hoje, só tem grafite”, garante Hermes, que já não esculpe tanto. “Agora sou mais um contador de histórias.”

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