Você está aqui: Página Inicial / Educação / Carta Fundamental / Quanto vale o dinheiro na sala de aula?

Carta Fundamental

Carta Fundamental

Quanto vale o dinheiro na sala de aula?

por Carta na Escola — publicado 15/04/2012 11h26, última modificação 15/04/2012 11h29
Ele pode significar liberdade, poder, segurança. Descobrir qual é a nossa relação e a dos alunos com o dinheiro pode nos ajudar a lidar melhor com ele
edfinanceira35

Ele pode significar liberdade, poder, segurança. Descobrir qual é a nossa relação e a dos alunos com o dinheiro pode nos ajudar a lidar melhor com ele

Por Márcia Tolotti*

Não podemos negligenciar que culturalmente, um dos valores mais solidamente ancorados na consciência dos homens e que mais provoca paixões é o valor do dinheiro. As conquistas e possibilidades garantidas pelo dinheiro justificam, em grande medida, a sua busca. Na contrapartida, é necessário fazer uma avaliação mais aprofundada. Segundo Nietzsche “não há valor que não seja uma possibilidade ou um modo de ser do homem”, isto é, o valor de algo está associado à força de motivação na busca do mesmo. Além disso, sofremos a influência do inconsciente – não percebida – daquilo que vivenciamos na infância. Considerando especificamente a questão financeira, sabemos que a forma como os pais lidam com o dinheiro, o nível de conforto, de aquisição, de privação e todos os sentimentos decorrentes dessa complexa relação determinará como os filhos vão conquistar e gastar o dinheiro no futuro.

Falar sobre dinheiro com os jovens e as crianças é uma oportunidade para incentivar um olhar crítico diante das escolhas, sobretudo, financeiras. Ajudá-los a analisar a motivação e o meio de conquista é um caminho que desenvolve o autoconhecimento e, por vezes, oportuniza uma mudança de atitude. Se o dinheiro surgiu como uma forma de pagamento em substituição ao escambo e tem como função a equivalência (serve para trocar uma quantidade x de um produto/serviço por uma quantidade y de outro), ele também está ligado aos valores morais e éticos.

A sociedade contemporânea aprecia e cultua a imagem, consequentemente, julgamos e somos julgados também pela aparência. Eticamente temos consciência de que as pessoas não deveriam ser medidas pelos bens que possuem, mas em muitos momentos, emitimos julgamentos a partir da roupa, do carro, da casa, das joias, das viagens, enfim, dos símbolos que visualizamos nos outros. Felizmente a educação financeira tem conquistado espaço nos lares, nas empresas, oportunizando um entendimento mais meticuloso sobre nossa relação com o dinheiro.

A relação com o dinheiro

Embora o dinheiro seja universalmente aceito como um meio de troca, individualmente ele possui significados diferentes dependendo da classe social, idade, cultura e valores intrínsecos. Todavia, podemos adotar quatro grandes categorias: o dinheiro pode representar liberdade, segurança, poder ou relacionamento.

Quando o dinheiro representa liberdade para alguém, a forma de se relacionar com ele será pautada no desfrute imediato, porque o mais importante é fazer o que se quer, satisfazer-se urgentemente. Planejar, seguir regras, pensar no amanhã são quase impraticáveis. Como educar alguém com esse perfil? A motivação para o aprendizado deverá focar na ideia de liberdade financeira, isto é, mostrar que abrir mão de um pouco no presente (e poupar/investir) garantirá a liberdade de escolha também no futuro.

Para quem tem uma relação de segurança com o dinheiro, os imprevistos causam muita angústia. Geralmente, são -pessoas que evitam riscos, cumprem as normas, são metódicos. Educar financeiramente quem apresenta essa característica é mais fácil, porque planejar, poupar e esperar são práticas facilmente compreendidas e rapidamente adotadas.

Para aqueles que representa poder, o dinheiro é uma garantia de controle e realização pessoal. Geralmente, é alguém que gosta de estar no comando, de ter status, reconhecimento e que é exigente consigo e com os outros. A educação financeira para quem tem esse perfil precisa ser desafiadora. Promover a competição e incentivar a superação de limites garantirá bons resultados.

E, por último, o dinheiro pode significar uma fonte de relacionamento, ou seja, é utilizado para fortalecer o relacionamento com amigos, família e colegas. São pessoas compreensivas, amigáveis, que gostam de ser reconhecidas, geralmente presenteiam muito. A educação financeira deve focar a necessidade de poupar dinheiro e desenvolver a autoconfiança (a fim de evitar o presentear constante).

A complexa relação com o dinheiro, além de ser influenciada pelos aspectos subjetivos citados, engloba pontos objetivos e práticos.

Educação financeira na prática

A educação financeira tem por objetivo o desenvolvimento de conceitos e práticas sobre decisões econômicas: como e por que poupar, a importância de um planejamento de curto, médio e longo prazo, os primeiros passos para iniciar a independência financeira e noções básicas de economia. Esses temas podem ser trabalhados tanto em casa quanto em sala de aula por meio da constante reflexão sobre o uso dos recursos financeiros. Tornar a análise das motivações diante das escolhas e suas consequências um hábito é um grande feito, uma vez que crianças e adolescentes são altamente influenciáveis pelos grupos de convivência, mídia e moda. É evidente que a adoção de um programa formal, um roteiro estabelecido para trabalhar a educação financeira como um tema transversal é necessário para aprimorar o ensino. Mas, para iniciar a sensibilização sobre o assunto, basta promover espaço para que os alunos respondam, pesquisem e avaliem sobre: Qual é a importância do dinheiro?, Qual é o papel do dinheiro no desenvolvimento da sociedade?, O que representa o dinheiro na minha vida?, Por que é importante poupar?, O que é investir e quais são seus benefícios?

Muito além de fornecer respostas tais como “poupar é uma escolha intertemporal”, “abre-se mão do usufruir hoje em favor do amanhã” ou “investir é fazer o dinheiro poupado crescer”, o espaço oportunizado nas escolas e nos lares por intermédio das perguntas serão a garantia de que os jovens poderão avaliar os motivos e, principalmente, as consequências de suas decisões. Em outras palavras, a contribuição da educação financeira não está restrita às técnicas para administrar bem o dinheiro, pois ultrapassa esse campo e aporta na essência daquilo que direciona a vida de um sujeito. Afinal, somos o resultado de nossas escolhas.

*psicanalista e consultora em programas de educação financeira

registrado em: