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Carta Fundamental

Conto

Quando a Lua tomou chá de sumiço

por Maria Amalia Camargo — publicado 30/07/2010 15h55, última modificação 30/07/2010 16h25
Ela resolveu tirar umas merecidas férias e sair da galáxia sem que ninguém na Terra percebesse. Para explicar sua ausência durante tantos dias criou a mentirinha que depois veio a ser conhecida como, ah, vocês sabem: "Eclipse!"
conto

Toda estrela cadente é uma estrela que acabou de ganhar férias. Ela desce para a terra e vai passar uns dias na praia, virando debaixo d'água uma simpática estrela-do-mar. Ilustração: Maria Amália Camargo

Ela resolveu tirar umas merecidas férias e sair da galáxia sem que ninguém na Terra percebesse. Para explicar sua ausência durante tantos dias criou a mentirinha que depois veio a ser conhecida como, ah, vocês sabem: "Eclipse!"

Olha só o que diz esse livro de Ciências: “O eclipse lunar é quando a Lua entra no cone de sombra da Terra, deixando de ser visível a todos os terrestres...” 

– Ah, só pode ser brincadeira.
– Psiu! A chefe vem vindo aí.

Os cientistas têm explicação pra tudo e inventam denominação até para o que não conhecem. Neste caso, eles criaram uma desculpa bem esfarrapada e um nome que dá até pra se falar sorrindo: “eclipse”. E a tal mentira que depois virou verdade começou assim... 

Todo mundo sabe que há séculos e séculos a Lua aguenta um dragão nervosinho presenteado por São Jorge. Também não é mistério que a Lua ilumina as noites dos terráqueos, rege as marés, embala os casais apaixonados, inspira os poetas e, ufa, chefia um batalhão de estrelas lunáticas. Pois é, com tantas obrigações, você também ficaria cansado! E foi assim com a Lua, ela começou a ficar cheia, cheia...

O dia em que quase explodiu foi quando sem querer olhou pra baixo e viu sua imagem refletida no grande espelho d’água formado pelos oceanos da Terra. A Lua começou a se achar redonda demais, branca demais, com a pele seca demais e pra lá de esburacada.

Foi então que resolveu tirar umas merecidas férias. Tomar um chá de sumiço! Queria ficar de papo pro ar, pegar jacaré na praia, tomar água de coco, usar cremes de beleza e ter pela primeira vez uma marquinha de biquíni. 

Mas como sair da galáxia sem que ninguém na Terra desse falta do satélite? Hum, foi preciso queimar e muito as pestanas. 

Passados alguns dias, a Lua marcou uma reunião com todas as suas estrelas funcionárias. Para explicar sua ausência durante tantos dias criou a mentirinha que depois veio a ser conhecida como, ah, vocês sabem: “Eclipse!” 

– Saio à francesa e finjo que a Terra cobrirá minha silhueta. Como alguns minutos para os terráqueos equivalem a anos para nós, terei tempo suficiente para descansar. No entanto, para eles corresponderá a pouquíssimos segundos. Entenderam?

E foi só a Lua botar o pé no ônibus-espacial-turístico pra começar o zunzunzum: – Nós nos cansamos muito mais do que ela, porque produzimos luz própria! A chefona nem isso tem; empresta seu brilho do astro-rei, o magnânimo, o sublime, o poderoso, o esplendoroso e absoluto, Sol! Direitos iguais! Também queremos férias!

– É isso mesmo! Vamos aproveitar e cair na gandaia! – dizia uma das Três Marias, a Maria-sem-vergonha.

Outra das Três Marias, a Maria vai com as outras, concordou e então as estrelas começaram a preparar os roteiros de viagem. A última das Três Marias, a Maria-mijona, estava morrendo de medo de entrar numa barca furada. 

Apesar de toda a empolgação das estrelas havia um grande problema: a Lua, de onde estivesse, perceberia na hora que alguma coisa estava fora do lugar. E pra fingir que estava tudo normal seria necessário botar os estreulorônios pra funcionar. 

– Eureka; tive uma ideia brilhante! Podemos pendurar luzinhas de Natal no lugar das estrelas!

– Hã? Pirou de vez; o juízo foi pro espaço!

– É, meninas, luzes de Natal! Daquelas que os terráqueos compram pra nos imitar. Deve haver por aí algum estoque encalhado de final de ano.  

As estrelas que iam viajar estavam no mundo da lua: nem pensaram direito nas consequências e logo aceitaram a sugestão. Assim, fizeram as contas de quantas lâmpadas precisariam para formar o efeito de luzes igual ao de uma cadeia de estrelas. Precisariam de toneladas e toneladas de caixas para conseguir enganar a Lua, os terráqueos e os extraterrestres. E como o dinheiro era pouco, acabaram comprando toda a mercadoria em camelôs!

– Olhem que maravilha! De longe nem parece disfarce. Agora também podemos conhecer o mar.

Alguns dias galácticos se passaram. E tudo estava correndo muito bem, até que, de repente, as estrelas de plantão foram obrigadas a chamar pelo eletricista do universo, a Estrela de Nêutrons Riuston. 

– Riuston, nós temos problemas! – falou a plantonista chefe.

E então, lá foi Riuston com sua maleta de ferramentas para descobrir o que havia acontecido: – Vixe dona, a senhora não leu o manual de instruções? 

–  Que manual?

– O manual que acompanha as lâmpadas, oras! Quando uma lâmpada queima, as outras não acendem, daí tem de trocar a que está pifada pras outras voltarem a funcionar. Não vai dar pra saber qual delas está com defeito. São zilhões e zilhões! Sinto muito, madame, mas a senhora teve um baita prejuízo. 

Quando as estrelas ficavam nervosas elas começavam a piscar. Como um tique nervoso; apagavam e acendiam sem parar.

De onde estava, o redondo satélite percebeu que algum problema estava acontecendo: de um lado da galáxia um vazio e de outro, estrelas que piscavam sem parar!

– Essas lunáticas... E lá se vão minhas férias.

Enquanto algumas estrelas piscavam sem parar, outras riam de nervoso. E pra piorar, as Estrelas Explosivas começaram a falar pelos cotovelos. Era o começo do colapso de uma galáxia cheia de lunáticos: – Uma galáxia psicodélica em colapso no ápice do eclipse! O psicodélico eclipse da galáxia no colapso do ápice! O ápice do colapso no eclipse psicodélico das galáxias? É o colapso da galáxia de um psicodélico eclipse que é o máximo! 

Eu também quero brincar – diziam as Estrelas Novas: “Repete aí três vezes e bem rápido, casa suja, chão sujo, casa su...” No mesmo instante, no meio daquela confusão, as estrelas começaram a sentir um cheiro de queimado: era a Lua que havia chegado de surpresa depois de alguns dias tomando sol nas praias vulcânicas de Mercúrio. 

– Chefe! A senhora já voltou? Mas Vossa Excelência ainda está um pouco pálida.

– Sim, suas insubordinadas! Estão todas demitidas! E terão sorte de achar um lugar no buraco negro.

E não é que uma chuva de estrelas cadentes caiu sobre a Terra? Todas as estrelas demitidas voaram em direção ao planeta para se esconder no fundo do oceano. 

A Lua tinha ficado muito zangada com a desobediência das suas funcionárias. Porém, passado algum tempo, arrependeu-se e mandou que voltassem. Afinal, elas também estavam com a razão, pois todo mundo merece uma folguinha de vez em quando.

– Ah! Viver na praia é bom, mas o mar é muito salgado. A água deixa a gente cheia de ferrugem e isso prejudica nossa luz. Veja, Vossa Excelência, como estamos sem brilho. Chefe, será que poderíamos voltar? 

– Foi por isso que mandei chamá-las: quero que voltem a trabalhar como minhas assistentes.

E de uma hora pra outra, o brilho das estrelas foi voltando ao normal. Algumas começaram a apagar e a acender de felicidade. 

– E não acabou, disse a Lua – vocês também ganharão férias ano-luz sim, ano-luz não.

E assim, surgiu o primeiro eclipse lunar, as primeiras estrelas cadentes e as primeiras estrelas-do-mar que se tem notícia.  

Toda estrela cadente é uma estrela que acabou de ganhar férias. Ela desce para a Terra e vai passar alguns dias na praia, virando debaixo d’água uma simpática estrela-do-mar. Estrelas-do-mar que são retiradas de onde vivem nunca mais voltam para o céu. É uma estrela a menos que deixa de brilhar e de iluminar a noite.

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