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Carta Fundamental

Carta da Ana

Professor não é incapaz

por Ana Maria Machado — publicado 10/02/2011 20h23, última modificação 10/02/2011 20h25
Ao tentar banir as Caçadas de Pedrinho nas escolas, as autoridades pressupõem que o professor não sabe analisar o contexto em que se insere o texto

Caro professor,

Recentemente causou grande polêmica um parecer do Conselho de Educação Básica e do Conselho Nacional de Educação do MEC, recomendando o banimento da leitura de Caçadas de Pedrinho, de Monteiro Lobato, nas escolas do Distrito Federal. As alegações para a decisão tinham a ver com a representação de tia Nastácia na obra, por meio de estereó-tipos raciais. Incluíam também uma ressalva: o livro só poderia ser lido em sala de aula se a editora nele incluísse comentários ao texto, ressaltando seus aspectos negativos e formulando orientações específicas às escolas.

Na discussão que se seguiu, os aspectos odiosos do racismo foram tão ressaltados quanto as características inadmissíveis do dirigismo cultural por parte do governo. Não é o caso de aqui voltarmos a isso ou a detalhes da obra em si. É verdade, sim, que vários termos que o autor emprega refletem visões preconceituosas  que sua época tinha em relação aos descendentes de africanos no Brasil, num momento ainda muito próximo da escravidão recente, com todas as suas sequelas sociais ainda muito vivas – como a ignorância e a pobreza em que foram mantidos. É inegável que a escola deve combater tais preconceitos e atitudes, inadmissíveis em qualquer circunstância.

O enfrentamento dessa questão, porém, não deveria passar pelo banimento do livro ou por enchê-lo de penduricalhos e comentários. Uma obra artística faz parte da história cultural. Não pode ser modificada ou corrigida a cada geração. Todo autor reflete seu tempo e por mais que alguns pretendam, não há como mudar o passado reescrevendo a História. O mundo não começou hoje. Shakespeare fala de seus personagens a partir da visão que seu tempo e sua sociedade tinham deles – e é assim que se refere ao negro Otelo, ao selvagem Calibã ou ao judeu Shylock.  Euclides da Cunha, em Os Sertões, reconta a epopeia de Canudos e aprende a admirar Antônio Conselheiro e seus jagunços, mas nem por isso deixa de se referir sempre aos sertanejos e mestiços com uma carga de preconceitos que nos horrorizam hoje quando o lemos. As Mil e Uma Noites estão cheias de referências abomináveis aos escravos. Muitos grandes autores tratam a mulher em suas obras de um modo que hoje nos revolta. Os exemplos são infindáveis. Isso tudo, sem falar na Bíblia, repleta de referências mais que desairosas a vários povos, por vezes insultantes mesmo, incitando a sua destruição.

A solução não está em deixar de ler tais obras, mas em lê-las de forma crítica, contextualizada. Isso vale para obras literárias destinadas a qualquer idade, seja ou não no contexto escolar.

Mas quando essa leitura se associa à educação e aos canais burocráticos dos formuladores de políticas públicas de ensino, surge nessa recomendação da CEB/CNE outro aspecto que me parece assustador e ofensivo ao professor. Por isso quero discuti-lo nesta nossa conversa.

Fico estarrecida ao constatar que o parecer pressupõe que o professor é incapaz de exercer sozinho a sua profissão, fazendo com seus alunos uma leitura crítica e os orientando a analisar o contexto em que se insere o texto lido. Por que precisa que o editor faça isso por ele? Só há uma explicação para esse insulto ao magistério: as autoridades dispõem de uma radiografia confiável do nível precário desses mestres e, a partir dela, estariam constatando uma deficiência real na sua formação. Nesse caso, a solução está em formá-los melhor, não em tratá-los como incapazes. 

Cabe ao professor desenvolver com os alunos a leitura crítica. Sem concordar com tudo o que o autor escreveu ou sua época pensava. Pelo contrário, fazendo uma viagem a esse tempo e o compreendendo, sem deixar de discordar. Supõe dialogar com a obra, distinguindo nela o que não se aprova e o que desperta identificação.

Um bom leitor de Lobato sabe que Tia Nastácia encarna a divindade criadora do Sítio do Picapau Amarelo. Ela é quem cria Emília, de uns trapos. Ela é quem cria o Visconde, de uma espiga de milho. Ela é quem cria João Faz-de-Conta, de um pedaço de pau. Ela é quem “cura” os personagens com suas costuras ou remendos, quem conta as histórias tradicionais, quem faz os bolinhos. Se é mostrada como negra e ex-escrava, é porque essa era sua cor  e a realidade dos afrodescendentes no  Brasil dessa época. Não é um insulto, é a triste constatação de uma vergonhosa realidade histórica.

Em vez de proibir as crianças de saber disso, seria melhor se os professores estimulassem a leitura crítica por parte dos alunos. Mostrassem como nascem e se constroem preconceitos. Sugerissem que se pesquise a herança dessas atitudes na sociedade contemporânea. Propusessem que se analise a legislação que busca coibir tais práticas.  Ou o que mais a criatividade pedagógica indicar.

Mas para tal, é preciso ler Lobato e estar familiarizado com sua obra. Para saber quanto ela enche de orgulho uma cultura. Poucos personagens de livros infantis pelo mundo afora são dotados da irreverência de Emília ou de sua independência de pensamento, estimulando os leitores a pensar por conta própria, mesmo para discordar. Dispensá-la sumariamente é um desperdício.

Um abraço,
Ana Maria Machado

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