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Artes Plásticas

Por um professor nômade

por Fernando Vives — publicado 15/09/2010 17h17, última modificação 16/09/2010 14h15
Stela Barbieri, curadora educacional da 29ª Bienal de Artes de São Paulo, fala sobre o novo viés do evento e do professor como agente cultural
Por um professor nômade

Stela Barbieri, curadora educacional da 29ª Bienal de Artes de São Paulo, fala sobre o novo viés do evento e do professor como agente cultural. Foto: Masão Foto Filho

Stela Barbieri, curadora educacional da 29ª Bienal de Artes de São Paulo, fala sobre o novo viés do evento e do professor como agente cultural

Uma enorme interrogação paira sobre a 29ª edição da Bienal de Arte de São Paulo. A crítica recorrente às últimas edições do tradicional evento, que ocorre desde 1951, é que ele perdeu o contato com seu público. Elitizada e superintelectualizada, a Bienal viu decair sua importância no meio artístico nacional. O cenário fez os curadores da edição 2010 repensarem a função da Bienal e trazê-la novamente ao mundo dos professores, alunos e curiosos pelas artes. E é com essa expectativa de mudança que a 29ª Bienal, cujo nome “Há sempre um copo de mar para um homem navegar”, estará aberta ao público entre os dias 25 de setembro e 12 de dezembro. Uma das responsáveis por essa mudança de paradigma do evento é Stela Barbieri, artista plástica, educadora e curadora educacional da “29ª”, como chama o evento. Stela assumiu sua função em junho de 2009 e de lá para cá tem feito um “trabalho de formiga” para aproximar a exposição aos professores. Mais que isso: organiza a Pós-Bienal, um plano para fazer com que as ideias afloradas no evento continuem a ser debatidas. Nessa entrevista, Stela expõe a mudança de paradigma da Bienal 2010 e suas novas estratégias. Falou também sobre a difícil tarefa do professor em se educar e de cativar os alunos para o aprendizado da arte. Para ela, mais importante que diretrizes governamentais é o interesse do professor pela cultura. “Um professor mais nômade, que percorre sua cidade atrás de sua arte sem o sedentarismo educacional vai achar coisas interessantíssimas.”

Carta Fundamental: Quais são os diferenciais da 29ª Bienal de Artes de São Paulo?
Stela Barbieri: Bem, a diretoria da Bienal mudou. A nova direção pôs a casa em ordem e deu muito apoio para que o setor educativo da Bienal seja feito da maneira cuidadosa. Houve uma reflexão sobre o papel da Bienal, e a ideia é de retomar sua função de possibilitar um olhar contemporâneo da arte, e também permitir o acesso a ela.

CF: Houve, portanto, uma discussão forte sobre a posição da Bienal.
SB: Exatamente, há um reposicionamento não só da mostra, como da Fundação Bienal. É uma reestrutura. Isso é importante. Não estamos reinventando a roda, muito foi feito antes de nós, mas agora há um trabalho de equipe, de redes colaborativas, o que é um diferencial. São tantas parcerias que fortalecem o papel da Bienal como instituição agregadora e de representatividade mundial. Tudo isso sugere a mudança.

CF: Qual é a diretriz para a nova Bienal?
SB: Acho que, se o papel da arte é vital, o papel da Bienal é revitalizar a arte, potencializar as discussões sobre ela no País. É o papel da arte como campo da liberdade, da transformação, e esta edição acredita que a Bienal não é para poucos, e, sim, para todos aqueles que querem se aproximar da arte. Vamos atender um grande número de pessoas, mas vamos falar com cada um. São sempre grupos pequenos, de 20 pessoas. Atendemos por volta de 30 mil pessoas na Bienal, mas vendo cada uma com singularidade. A meta é atender 400 mil pessoas no evento. Como a maior parte do dinheiro vem da Lei Rouanet, precisamos fazer com que esse atendimento tenha acesso efetivo à população. É um trabalho de formiga.

CF: Houve, de fato, uma crítica às últimas edições da Bienal, de que eram elitizadas demais, com pouco público...
SB: A Bienal já viveu situações de muito público e de pouco público, mas normalmente sem um trabalho prévio. Agora há uma sinergia entre trabalhar com calma e com muito público. Fui contratada em junho de 2009, tive tempo. Geralmente, a curadora educativa é a última a ser contratada, e agora foi diferente.

CF: E como foi feita a preparação dos orientadores envolvidos?
SB: Grande parte do trabalho foi feita em três partes, sobretudo com professores: a Pré-Bienal, a Bienal em si e a pós-Bienal. Na Pré-Bienal, escolas públicas e particulares foram atendidas através de ações com cerca de 300 alunos universitários que vão trabalhar no evento. Para isso foi fundamental a nossa relação com instituições culturais, como Pinacoteca do Estado, Masp, Museu Lasar Segall e outros – são 22 no total. Esses estudantes, reunidos em grupos de 20, passaram por todas as instituições em rodízio. Isso possibilitou aos educadores uma visão ampla de como o diálogo com a arte deve se dar. Posteriormente, houve uma imersão nos conteúdos da 29ª, estudando os artistas e os percursos dentro da mostra, que tem 170 artistas e se chama “Há sempre um copo de mar para um homem navegar”, frase do poeta alagoano Jorge de Lima.

CF: Como se dão as divisões da Bienal?
SB: O corpo curadorial desenvolveu uma plataforma baseada em alguns conceitos que servem como porta de entrada para quem quer observar as obras. Esses conceitos ancoram ao longo da mostra, em possibilidades de protagonismo do público. São os chamados terreiros, que dialogam com as plataformas conceituais. Temos terreiro de cinema, de debates, de descanso, e cada um deles tem uma função específica que dialoga com esses conceitos. São espaços de encontro, para que as pessoas dialoguem com as obras. Por exemplo: há um terreiro que tem uma biblioteca. Há outro que é uma plenária aberta para discutir a questão do discurso, da verborragia que pode dizer nada e do vazio que pode dizer tanto. Busca-se relação entre as obras.

CF: A senhora comentou sobre ações depois do fim dela...
SB: Sim, a ideia é que, no Pós-Bienal, a gente deixe um setor educativo permanente, porque a Bienal muda, a cada edição, toda sua equipe e, com isso, não estabelece parcerias a longo prazo. Tudo sempre começa do zero. A ideia é que todas essas relações constituídas entre secretarias municipal e estadual, instituições culturais e escolas tenham continuidade depois. A gente vai às escolas e secretarias, além de receber quem nos procura. Estamos trabalhando com a Secretaria Municipal de São Paulo, e temos um projeto de educação a distância com a Secretaria Estadual, na capital e no interior, para promover a arte.

CF: Como um professor pode aproveitar a visita à Bienal com seus alunos?
SB: Se o professor conseguiu vir nesses nossos encontros, tanto melhor, já que ele estará por dentro do material educativo, o qual propicia várias ações diferenciadas com os conceitos da 29ª Bienal. Mas há também sugestões de roteiros de leituras de cartazes. Há sugestões de leituras com os alunos.

CF: Os professores devem ver esse material antes?
SB: Sim, esse material está disponível junto à mostra. O professor pode pegá-lo e estudar antes da visita, com a vantagem de que pode aproveitar também depois. Além dos seis cartazes, temos 30 fichas de artistas, e em cada artista existem algumas palavras que definem o universo em que o artista está contextualizado, questões reflexivas sobre ele e localização de seu trabalho. Temos pistas educativas, que são sugestões de exercícios para o professor incluir no seu planejamento, ou então servir para ele criar outras. Então só nessas 30 fichas temos um manancial de possibilidades para investigar, criar suas próprias ideias.

CF: Como você avalia o ensino de arte nas escolas?
SB: Acho que houve melhora nos últimos tempos. A gente vem sofrendo a reverberação de uma ausência do ensino da arte nas escolas por muitos anos, mas tem havido esforço gradativo e com certa constância para que os professores possam ter informação e contato com exposições. Há oito anos, estou no Instituto Tomie Ohtake, e logo que entrei lá dei um curso grande de formação para 6 mil professores da rede municipal. E agora reencontrei esses professores, e percebo neles um desenvolvimento muito grande quanto ao papel da arte nas ações realizadas na escola.

CF: A senhora acredita que a visita monitorada faz diferença para o aluno?
SB: Faz toda a diferença. A arte em si é educadora. Sou a favor de contato com a arte vital, não com a superintelectualizada. Precisamos conhecer a potência da arte de acordo com nossas percepções – claro que também precisamos de muita informação. Se você tem contato com o meio cultural com a cidade onde vive, a percepção estética se amplia.

CF: Qual a melhor maneira de fazer com que os alunos se interessem por arte?
SB: A melhor maneira é instigar a si mesmo. Quando o professor vive a arte, visita exposições, estuda e lê, está sensível a este universo e naturalmente faz isso para os alunos como uma disciplina viva, e não como obrigação. Falar de arte precisa de um encantamento.

CF: Há uma crítica recorrente de que a escola foca a arte excessivamente em modernismo brasileiro. A senhora concorda?
SB: Sim! E acho uma tristeza isso. A minha sugestão é que os professores visitem mais as exposições. O professor normalmente se segura nos modernistas porque é isso que ele conhece, mas ele também pode convidar um artista do bairro para falar na escola dele. Há a internet, nela você pode visitar museus virtualmente. É necessário um professor um pouco mais nômade, que percorra a arte de sua própria cidade e saia do sedentarismo educacional. Há obras públicas interessantíssimas. Se o professor percorrer, em São Paulo, só as obras públicas nas estações de metrô, já vai ter um universo enorme.

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