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Carta Fundamental

Entrevista

Pop arte sacra

por Tory Oliveira publicado 23/04/2012 12h27, última modificação 23/04/2012 12h27
Rodolfo Yamamoto, coordenador do educativo do Museu de Arte Sacra, afirma que o espaço não é uma extensão da Igreja Católica e discute a problemática dos centros culturais no centro de São Paulo
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Rodolfo Yamamoto, coordenador do setor educativo do Museu de Arte Sacra, afirma que o espaço não é uma extensão da Igreja Católica e discute a problemática dos centros culturais no centro de São Paulo. Foto:Katia Lombardo

Rodolfo Yamamoto Neves admite: arte sacra nunca foi seu métier. Ainda assim, desde 2011 o historiador de 33 anos formado pela USP é responsável pelo setor educativo do Museu de Arte Sacra (MAS) de São Paulo. Alocado dentro do Mosteiro da Luz, no centro, a instituição divide espaço com devotos do Frei Galvão e com uma ordem de freiras que ainda vivem em clausura no local. Mesmo assim, em fase de renovação, propõe-se a desempenhar um papel mais plural e questionador. Em entrevista a Carta Fundamental, sentado em uma das “conversadeiras”, bancos de madeira em frente às janelas do mosteiro utilizados antigamente por religiosos, o historiador especializado em gestão cultural reafirma que o Museu de Arte Sacra não é uma extensão da Igreja Católica, fala da busca por novas linguagens e problematiza a instalação dos centros culturais na região. “Queiram ou não, os museus são um problema para quem mora aqui.”

Carta Fundamental: Em janeiro, painéis grafitados por artistas contemporâneos foram afixados na fachada do museu. É uma forma de dar uma cara mais moderna a ele?
Rodolfo Yamamoto Neves: O Museu de Arte Sacra está indo para o seu aniversário de 40 anos. Ele já está, faz um tempo, aberto ao público, mas pouco acontece. Em diversos aspectos, este museu é extremamente completo, mas subaproveitado. Hoje, a Secretaria de Cultura, em especial a -Unidade de Preservação de Patrimônio Museológico (PPM), tem uma visão interessante do setor educativo. Normalmente, são as áreas com os piores salários e que sofrem preconceito da própria estrutura em que se encontram. A PPM vê o educativo como um fator de mudança, a peça estratégica para tornar os museus brasileiros algo totalmente diferente. A coordenadora Claudineia Moreira Ramos me chamou e o Museu de Arte Sacra abraçou a ideia de transformar o educativo em um carro-chefe. Todas as ações que pensei até agora foram apoiadas. Algumas pessoas surpreendem, mostrando que o museu não deve ser analisado só pelo viés religioso, mas também pelos impactos culturais, pelo diálogo com a sociedade, pelo culto doméstico. A nossa dificuldade agora é a comunicação e o relacionamento. Por mais que seja estranho um educativo atuar nessas duas áreas, é preciso lembrar que não adianta fazer um bom trabalho se as pessoas não souberem que ele existe. Dessa forma, o educativo precisa garantir e também firmar parcerias para que as relações sejam de longo prazo. Não é só uma questão de a gente aumentar o nosso público: este é um museu que consome verba pública e tudo o que envolve dinheiro público tem de ser de final público.

CF: A chamada arte sacra foi um gênero dominante no Brasil pelo menos até o século XIX. Há a impressão de que ela é pouco valorizada no circuito tradicional de museus e exposições. Por que isso acontece?
RYN: Quando converso com agências de turismo escolar, sempre pergunto por que não somos tão procurados quanto a Pinacoteca. Normalmente, a resposta é que eles têm um acervo mais variado e não há o fator religioso. E existe essa coisa de sofrimento, gente crucificada, imagens com muita dor, muito peso. As pessoas sempre olham desconfiadas e, muitas vezes, chegam aqui e se surpreendem. O educativo tem tentado fazer releituras do acervo, do papel do negro, do papel da mulher e também tem buscado adquirir coisas modernas. É um grande desafio.

CF: Como atrair um novo público, especialmente o jovem, para o Museu de Arte Sacra?
RYN: Nós temos buscado novas linguagens, por isso o grafite, o estêncil. Primeiro, no formato externo e na aparência, tentar conseguir mais sintonia com eles. Uma vez que consigamos trazê-los para dentro, queremos adequar nossa linguagem sem perder o foco do conteúdo. O objetivo do museu é gerar inquietações – o jovem vem pelo grafite e sai se perguntando o que é arte. Esse é o nosso objetivo, o que pode trazê-lo de volta.

CF: O que o professor pode explorar a partir de uma visita ao Museu de Arte Sacra?
RYN: Para a aula de Artes, o acervo fala por si. A Literatura construiu também muito do imaginário, por exemplo, Goethe, com Fausto, ou Dante Alighieri, com A Divina Comédia. Como isso impacta no imaginário? Como esse diálogo entre Literatura e Arte acaba criando nosso imaginário sobre Céu e Inferno, sobre bom e ruim, sobre o Universo? Também temos muitas possibilidades em História, pois esse mosteiro é um testemunho histórico do desenvolvimento da cidade e trabalhamos com visitas temáticas nesse sentido. Em Geografia, podemos estudar formação das cidades, porque São Paulo cresceu em torno desse prédio, que ficou como testemunho.

CF: Uma pessoa que não se interessa por religião pode ter uma visita proveitosa?
RYN: Claro, ele pode vir aqui para observar o aspecto estético das nossas peças, as questões históricas das construções, a economia que é ligada às técnicas. Há uma série de oportunidades para discutir a formação da cidade, as opções são múltiplas. O que a gente precisa é que todos que não sentem que o Museu de Arte Sacra oferece algo venham e pro-curem nos falar isso. A gente sempre vai procurar desenvolver trabalhos e novas visões para tornar o museu cada dia mais plural.

CF: O museu está alocado em um edifício com relevância histórica, como você mesmo disse, é uma testemunha das transformações da cidade. Como trabalhar a história de São Paulo a partir desse espaço?
RYN: O mosteiro tem um tipo de construção rara. Um dos nossos salões está preservado para que se possam observar as técnicas construtivas e, a partir delas, discutir a economia que existia a princípio e depois com a chegada do café. Você pode discutir também que o bairro se chama Luz por causa da estátua que temos aqui, a Nossa Senhora da Luz. É possível falar também do impacto que a Estação da Luz causou na cidade, da Sorocabana ou de como uma cidade de 20 mil habitantes passou a ter quase 2 milhões em 50 anos. Um tema importante é falar dos movimentos xenófobos que temos aqui contra migrantes numa cidade construída justamente por gente que migrou em situações bem complicadas. Hoje, o descendente de italianos pode olhar feio para o boliviano, mas a gente leva o aluno ali até a pintura do Benedito Calixto (Naufrágio do Sírio, de 1907) e mostra um evento que causou várias baixas na comunidade italiana. Mas onde ficavam os imigrantes? No porão, porque muitos não tinham dinheiro para pagar a viagem inteira, pagavam por fora, daí o capitão andava próximo da costa etc. Existem diversos ganchos na estrutura e no acervo para discutir a formação da cidade e sua população.

CF: O Museu de Arte Sacra localiza-se dentro do Mosteiro da Luz. Como trabalhar para que o espaço cultural não se transforme em uma extensão da Igreja Católica?
RYN: Esta é uma das partes mais difíceis na percepção do público. Muita gente que não é católica não quer vir porque acha que existe um trabalho de catequese. Como a igreja está aberta, o corpo do santo (Frei Galvão) está aqui na capela, tudo se torna muito confuso, nebuloso. Da nossa parte, temos investido em ações como o Entorno MAS, a ação do grafite. Estamos buscando a sociedade, por isso existe um núcleo de comunicação e relacionamento. Apesar de se tratar de um grande acervo católico, dentro de um mosteiro, não é necessariamente uma extensão da Igreja. Temos uma abordagem questionadora, que tenta oferecer mais caminhos para o visitante, seja ele religioso ou não, -para que possa olhar uma peça sem se sentir forçado a se converter.

CF: A última exposição em cartaz, Benedito das Flores e Antonio do Categeró, apresentou 170 esculturas de dois santos negros. Como o museu procura trabalhar a ideia do sincretismo religioso?
RYN: Para nós, é importante mostrar as influências e as forças culturais da sociedade, mostrar que os processos de dominância não são tão simples e ingênuos como muitas vezes se imagina. Você pode encontrar culturas que são vistas apenas como oprimidas e dominadas, mas que também têm esse poder de influência.

CF: Quais são os principais expoentes da arte sacra presentes no museu que podem ser interessantes para o professor?
RYN: Temos a coleção do Aleijadinho, que é uma referência muito grande para todos. Temos peças também do Mestre Valentim e do Benedito Calixto. Este é interessante porque temos o tridimensional na escultura e o bidimensional na pintura. Também é possível abordar a São Paulo antiga e discutir a imigração italiana em várias peças, como as representações em tela, algumas do Benedito.

CF: Há espaço para outras artes sacras, além da católica, no museu?
RYN: Em 2011, tivemos reuniões para decidir se vamos ou não mudar o acervo. Pelo menos queríamos fazer uma exposição neste ano ou no ano que vem chamada Caminhos. A ideia seria justamente conversar com monges budistas e pastores para conseguir Bíblias evangélicas etc. É do nosso interesse criar diálogos e, mais para frente, até mudar nossa política de aquisição. Isso ainda está em debate, não é simples, pois há uma linha de décadas e décadas e não podemos mudar assim no impulso do momento.

CF: A região da Luz passa por uma série de intervenções. Que ações estão sendo feitas no museu para também se revitalizar?
RYN: O termo revitalização é ruim porque vida não falta aqui. Há uma série de erros feitos na região que se perpetuaram e criaram esta situação. E a infelicidade é que os museus do Centro, quer queiram, quer não, acabam participando desse processo truculento. A cultura tem um aspecto democrático, que é quando a sociedade pode disputar o que é ou não valor cultural. Mas tem um aspecto muito antidemocrático: pode ser geradora de consensos. Então, por exemplo, se eu tirar você da sua casa porque quero ganhar dinheiro, serei criticado. Agora, se eu vou tirar porque vou fazer um centro cultural, tudo bem, porque é cultura. O discurso dilui os conflitos reais, os museus daqui tiveram um impacto na valorização fundiária e o Estado, desde a década de 1990, financiou esses museus sempre com discursos instrumentalizadores da cultura. A cultura traria revitalização e, depois, requalificação da Luz. Atrairia uma classe média espontaneamente etc. Como isso não aconteceu, a coisa tomou outro rumo. Os museus, por mais que as suas equipes não tenham a intenção de fazer mal, são um problema para quem mora na região. Por isso, torna-se nossa responsabilidade ter ações voltadas para esses públicos. Estamos procurando as comunidades do entorno, buscando parcerias, tentando servi-los com o máximo das nossas capacidades para tentar conter os danos dessa política confusa.