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Para que classificar as palavras?

por Marcos Bagno — publicado 30/07/2010 15h53, última modificação 30/07/2010 16h39
Vamos botar essa garotada para ler, escrever, reescrever, reler. Só assim se formam cidadãos capazes de se integrar na cultura letrada. As classificações ficam para os cientistas!

Vamos botar essa garotada para ler, escrever, reescrever, reler. Só assim se formam cidadãos capazes de se integrar na cultura letrada. As classificações ficam para os cientistas!

Uma das atividades mais praticadas nas aulas de português infelizmente ainda é a classificação das palavras de acordo com as categorias da tradição gramatical. Digo infelizmente porque essa atividade é imposta aos aprendizes sem que se explique em momento algum qual o seu objetivo. Nem os professores conseguem responder para que serve classificar as palavras. A verdade é que, no ensino de língua materna, isso não serve basicamente para nada.

Toda ciência trabalha com classificações. Afinal, toda ciência trabalha com objetos empíricos ou teóricos e, para tornar o trabalho de investigação mais racional, esses objetos são agrupados em categorias, classes, tipos, gêneros, espécies etc. Para um leigo, uma pedra é apenas uma pedra, mas para um geólogo cada pedra é um desafio científico, é um objeto que exige uma apreensão racional, uma categorização que se fará segundo princípios e critérios estabelecidos pelo acúmulo de conhecimento de sua área de estudo. No entanto, ao contrário do que muita gente (ingenuamente) acredita, as classificações científicas não são definitivas nem incontestáveis. Muito pelo contrário: boa parte da atividade científica consiste precisamente em decidir os critérios de classificação de seus objetos. E as classes, categorias, espécies etc. definidas numa dada época ou por uma dada escola teórica podem muito bem ser contestadas, redefinidas ou mesmo abandonadas em épocas posteriores ou por escolas teóricas diferentes. A história de qualquer ciência é a história dessa criação, demolição e recriação constante de sistemas classificatórios. 

O mesmo vale para as categorias gramaticais. É uma ilusão, muito prejudicial à pedagogia de língua, acreditar que as classes de palavras que aparecem nos compêndios normativos correspondem a uma verdade nítida e definitiva sobre o funcionamento da língua. E também é uma ilusão acreditar que verbos, substantivos, preposições, artigos, pronomes etc. “existem” como objetos concretos, como seres do mundo real. Nada disso. Essas classificações representam pontos de vista, hipóteses, tentativas de apreensão do objeto língua. E justamente por isso elas estão sempre sob suspeita, sob a suspeita dos cientistas que, tentando dar conta dos fatos da língua de forma mais racional ou segundo as concepções de sua filiação teórica, contestam as classes tradicionais, propõem revisões sobre elas ou mesmo o abandono puro e simples de antigas categorias em favor de novas.

A tradição gramatical insiste em dizer, por exemplo, que existem artigos indefinidos. Ora, a classificação de “um” (e flexões) como artigo indefinido não se sustenta. Se digo: “Tem um gato em cima do muro”, a gramática normativa vai me dizer que esse “um” é artigo indefinido. Mas se digo: “Tem dois gatos em cima do muro”, a palavra “dois” é classificada como “numeral”. É uma gritante falta de lógica. Por isso, a teoria gramatical contemporânea rejeita, para o português, a classe dos “artigos indefinidos”: eles são, de fato, numerais. Seu comportamento sintático-semântico-discursivo é muito diferente do comportamento dos verdadeiros artigos (os definidos).

Deveríamos então incluir os velhos “artigos indefinidos” na classe dos “numerais”? Aí também tem problema. Os chamados “numerais” nem de longe constituem uma verdadeira classe gramatical nem mesmo segundo os critérios da própria gramática tradicional. Essas palavras são, de fato, substantivos e adjetivos que funcionam como quantificadores. A classe dos “numerais” é tão inconsistente quanto seria uma classe que incluísse “verde”, “azul”, “amarelo” etc. como se fossem palavras de um tipo diferente dos adjetivos somente porque designam as cores...

Por falar em adjetivos, essa classe gramatical é contestada por muitos teóricos. Afinal, qualquer substantivo pode exercer a função tradicionalmente atribuída aos adjetivos: “filme cabeça”, “papo aranha”, “governo Lula”, “jeito moleque” etc. Para alguns, os adjetivos não se distinguem dos substantivos e, por isso, seria melhor incluir essas duas classes numa só, a dos “nomes”. Para outros (como o filósofo Platão), os adjetivos deveriam entrar na classe dos verbos. Se digo “carro verde”, estou de fato me referindo a um “carro [que é] verde”, pois todo adjetivo traz embutido o verbo ser...

Outro problema é tentar separar adjetivos de advérbios. Se digo: “Ela falou bonito na cerimônia”, esse “bonito” tem forma de adjetivo, mas funciona como advérbio. O mesmo vale para “pensar grande”, “agir direito”, “cantar alto”, “descer redondo”, “falar errado” etc.

E agora? O que fazer? Se é tão complicado assim ensinar as classes de palavras, não seria melhor abandonar essa atividade? Claro que seria. Mas aí vem a pergunta inevitável (e irritante, depois de tudo o que se tem falado e escrito sobre ensino nos últimos 30 anos): se não é para “ensinar gramática”, o que é que vamos fazer nas aulas de português? Ora, muito simples: num país em que as crianças chegam à 5a série ou ao 6o ano praticamente analfabetas, como mostram tantas pesquisas (oficiais inclusive), vamos botar essa garotada para ler, escrever, ler, escrever, reler, reescrever... porque só assim é que se formam cidadãs e cidadãos capazes de se integrar na cultura letrada que é a nossa. As classificações? Essas ficam para os cientistas!

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