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Carta Fundamental

Conto

Os mortos

por Luiz Ruffato — publicado 03/06/2011 11h28, última modificação 03/06/2011 11h43
Luiz Ruffato conta o retorno do filho à sua cidade natal para enterrar o pai, um reencontro com o passado que ele desejaria que estivesse ultrapassado
conto

Ilustração: Odilon Moraes

No retorno do filho à sua pequena cidade natal para enterrar o pai, um reencontro com um passado que ele desejaria que estivesse completamente ultrapassado

Um telefonema do Toninho alertou Luís Augusto para o derrame do pai, mas a Lívia está grávida, uma coisa meio complicada, o médico recomendou repouso absoluto, uma dor de cabeça que você não faz ideia, convenceu-se de que não havia como largar tudo e viajar de imediato, oferecendo o pescoço à culpa. Uma semana depois, a vez da Delinha, Guto, o seu Raul, infelizmente etc.

A insônia acalentou-o na noite gelada, poucas poltronas ocupadas na linha São Paulo-Ubá, os faróis tentando romper impotentes o nevoeiro espesso, o silêncio ruidoso do motor, o cheiro acre de roupas fatigadas. Recordava o último encontro, caminhavam em direção ao Beira-Rio, o pai pastoreando seus devaneios, Estou pensando em abrir um comercinho, tem um chegado meu, de Dona Eusébia, que fabrica biscoito, desses amanteigados, coisa fina mesmo, e aí, mas não escutava, sabia de cor aquelas histórias que nunca vingavam, que serviam apenas para engabelar seus dias insossos.

Apeou sobressaltado na rodoviária de Ubá, manhã entrada, combinou a corrida com um motorista de praça, chegou em Rodeiro a tempo de velar o corpo na sala abarrotada da casa da tia Luzia, sufocada pelo fedor de parafina e flores agônicas. Abraçou, demoradamente, a mãe, vestígios de outrora recolhidos num traje de luto, o Toninho, o tio Jeremias, a tia Sílvia, apertou a mão de parentes insuspeitados, cumprimentou rostos sobrevindos do passado e outros nunca antes vislumbrados, e só então debruçou sobre o defunto que havia sido seu pai, as têmporas latejando, sono, cansaço, desalento. Observou o rosto mal barbeado, deformado, mas sereno, como se, avistada a morte, ele, farto de tudo, houvesse capitulado sem resistência, e não sobrevieram lágrimas. Recusou, polido,- a cadeira que -alguém cedeu, e deixou-se conduzir à cozinha, vozes sussurradas atualizavam conversas largadas ao meio. Tomou um gole de café ralo num copo americano e mastigou, sem vontade, um pedaço de bolo santista ainda morno. Ganhou o quintal, retângulo cercado por sarrafos de bambu entrelaçados a fios de arame farpado, onde uma pequena roda fumava, discutindo a estiagem.

Súbito, repicaram os sinos da Igreja de São Sebastião conclamando para a missa de corpo presente, interrompendo os murmúrios. Lentos e ordeiros, dezenas de pés esvaziaram os cômodos, em meio a queixas e gemidos refreados. Abatido, Luís Augusto deixou-se ficar, recostado ao poço-d’água. Um cheiro remoto de feijão refogado em banha de porco impregnou o ar.

Aos poucos, o silêncio baixou no que restava da manhã, chilreio de pássaros, mugido melancólico de um garrote, barulho de água escorrendo da torneira, uma mulher triste, rotunda barriga imprensada contra a pia, lava paciente as vasilhas, alguém varre com energia o chão da sala, despojada agora do caixão e dos castiçais, um vento frio avança porta adentro, como a querer afastar para longe a morrinha da morte. A voz do padre tonitroou no alto-falante, dai-lhe, Senhor, o descanso eterno, tangendo o réquiem. Resoluto, contornou a casa, ladeando um canteiro bem cuidado, roseiras, margaridas, cravos, jasmins, folhagens, dois pés de mamão e um limoeiro, entreabriu o portãozinho de madeira carunchada, e deambulou pelas imediações da praça principal.

Teria sido desejo do pai o enterro em Rodeiro? Ele, que sempre dizia, com sua fala arrevesada, de colono pobre e indômito, que viver é transpor a morraria, Meu filho, é da roça pra Cataguases e de Cataguases pra São Paulo, São Paulo, sim, é um mundo, repetia, olhos brilhando; ele, que evitava evocar os tempos em que tocavam terras à meia, em grotas e barrocas e furnas, puxando enxada entre pés de milho e de fumo, imerso até as coxas no barro de arrozais outrens – agora permaneceria para sempre abandonado naquele cemitério decrépito, amontoado de tumbas dependuradas barranco acima, sem arruamento.

Então, o esquife surgiu no adro, alças sustentadas de um lado pelo Toninho e o tio Nenego, de outro pelo Lalado e o tio Juca. Integrou-se, discreto, a uma das duas filas que se espicharam, paralelas, encabeçadas pelas profundas olheiras da mãe e da irmã, braços dados, formando o cortejo que devagar, a meio silêncio, evoluiu, cerrando as portas do comércio, sob curiosos semblantes debruçados às janelas. De que adiantara o pai bater pernas para cima e para baixo, andejo, inventariando novidades para estear a casa, se, sem emprego certo, profissão definida, tornou-se, à boca pequena, ridicularizado? De que adiantara- sonhar com a prole encaminhada, feita gente, se só colhera dissabores? As más línguas creditavam sua pressão alta ao desgosto provocado pelos filhos.

A Júlia, não bastasse ter casado às pressas, se separara, regressando, duas crianças nas escadeiras, corroída pela infâmia de, opinião corrente, haver traído o marido, podia ouvir o pai, balançando a cabeça, vaticinar, pau que nasce torto... E o Lalado, motivo de chacota e consternação, despertando-o assustado na madrugada, arriado no chão imundo de algum botequim, coberto de vômito, o corpo escoriado, obrigando-o a, vestido de vergonha, dirigir-se à delegacia para resgatá-lo da humilhação, esquecido num canto úmido da cadeia, companhia de maus elementos, parceiro de ratos, de baratas. Ele, que ostentava orgulhoso uma vida reta, sem nódoas, pobre, sim, mas cabeça erguida, arrastava seu amargor pelos passeios, chicoteado pelo falatório público. Com o Toninho, operário ciente de horários e hierarquias, o problema patenteava-se diverso: não havia meios de se entenderem, para mágoa e desgosto da mãe. Se encetavam conversa sobre o tempo, logo convergiam para a política; se principiavam uma sobre a parentalha, dá-lhe política; se experimentavam outra sobre a poda da jabuticabeira, lá vinha a política, tresandando a discussão.

O pai, inimizado dos Prata, por razões nunca desveladas, inconformava-se com o procedimento do filho na fábrica, puxa-saco de patrão, entregador dos colegas, amarra-cachorro que não media esforços para galgar posições de mando, e os encontros culminavam em bate-bocas, altercações, desavenças, favorecendo o rancor do Toninho contra o mundo, já que, Deus que me perdoe, castigo fosse, a Delinha não engravidava, por causa de um defeito no útero, de um tudo fizeram, até médicos de Juiz de Fora, de Belo Horizonte, sem remédio. Restava o caçula, desagradecido, que se homiziando em São Paulo dera as costas ao seu povo, cartas esparsas, raros telefonemas, breves notícias, também, como diziam com desdém, ficou importante, estudado, esqueceu da arraia-miúda, Nada pior do que a ingratidão, o pai entoava, embora, no íntimo, talvez se orgulhasse por ter conseguido empurrar pelo menos um dos seus para fora, ele, que acreditava sincero que a vida se resumia a isso, marchar em frente. Enquanto o coveiro assentava os tijolos que vedam a gaveta do túmulo, Luís Augusto, observando o séquito esparramado por entre as sepulturas, atinou o quão distante daquele mundo tencionava se conservar, mas também o quanto de visgo ainda o enlaçava àquela miséria, àquela desambição, àquele conformismo atávico, e, nem finda a cerimônia, esquivou-se dos pêsames, evitando a intimidade inquisitória dos parentes e dos irmãos, e despediu-se da mãe, que, desconsolada, sussurrou, nossa família está desmoronando, meu Deus. Enfiou-se no primeiro ônibus para Ubá, e voltou para São Paulo, em pânico, como se fugido de uma região empesteada, de uma zona deflagrada.

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