Você está aqui: Página Inicial / Educação / Carta Fundamental / O vampiro na sala de aula

Carta Fundamental

Literatura

O vampiro na sala de aula

por Luisa Nobrega — publicado 14/10/2010 12h00, última modificação 14/10/2010 17h06
O sucesso da saga Crepúsculo revela a fascinação que a literatura de vampirismo exerce sobre os jovens; o tema pode ser explorado para iniciar os alunos no mundo dos livros
vampirosCF

Cinema usou e abusou dos vampiros. Acima, o clássico alemão Nosferatu

O sucesso da saga Crepúsculo revela a fascinação que a literatura de vampirismo exerce sobre os jovens; o tema pode ser explorado para iniciar os alunos no mundo dos livros

E m um dos capítulos de Crepúsculo, um dos maiores fenômenos editoriais dos últimos tempos, o vampiro Edward Cullen leva Bella, donzela protagonista, até uma clareira ensolarada, revelando seu verdadeiro aspecto: sua pele resplandece, repleta de pontos cintilantes. É sua maneira de mostrar que, ao contrário de tudo aquilo que se escreveu a respeito, os vampiros se mantêm na sombra apenas para que as pessoas não saibam que são diferentes: não são aniquilados pela luz do sol.

Segundo Ken Gelder, autor de Reading The Vampire, coletânea que procura analisar os elementos culturais que permeiam as narrativas, cada nova história de vampiros, desde o sucesso de Drácula, revisa e contesta alguns elementos das narrativas que a antecederam, buscando assim afirmar sua própria validade. Os vampiros de Anne Rice, por exemplo, ainda dormem em caixões e perecem quando expostos ao sol (assim como o Conde Drácula, do irlandês Bram Stoker), porém ridicularizam o propalado pavor de crucifixos. Por que, afinal, deveriam temer um mero objeto? 

Pode ser revelador observar as retificações e acréscimos que cada uma dessas crônicas vampirescas faz às suas predecessoras: elas podem nos ajudar a traçar um pequeno retrato das transformações do nosso imaginário ocidental.

Século XVIII: caça aos vampiros 

Embora na mitologia seja possível encontrar divindades e demônios bebedores de sangue, as primeiras referências a vampiros, tais como os conhecemos, remontam ao século XVIII. No também chamado Século das Luzes, chega à Europa Ocidental essa figura folclórica das regiões eslavas, dos Bálcãs e da Romênia, por meio da ampla difusão dos casos jurídicos de Peter Pogojovitz e de Anatole Paole, dois camponeses sérvios cujos cadáveres foram exumados por ordem judicial, sob suspeita de que tivessem se tornado vampiros após a morte.  

A partir daí, uma verdadeira histeria de caça aos vampiros começaria precisamente no século¬ do Iluminismo, cujos porta-vozes rejeitavam qualquer dogmatismo ou superstição. Aquilo que poderia parecer paradoxal mostra-se, na verdade, bastante elucidativo. Em A Dialética do Esclarecimento, Adorno e Horkheimer comentam como o “Esclarecimento”, ao tentar submeter toda e qualquer instância do mundo ao signo da razão, acaba instaurando uma relação tensa com o “Outro”.  Muita luz, como se diz, acaba apenas projetando uma sombra escura: a história do esclarecimento é também a história daquilo que a razão rejeitou. Daí porque o Sé¬culo das Luzes foi também o dos vampiros,  particularmente adequados para representar esse “Outro” temível, que unificava tudo o que era considerado inadmissível pela razão: sexualidade desenfreada, instâncias sobrenaturais, morte.

Datam da metade desse século as primeiras referências aos vampiros na Literatura em três poemas de língua alemã: o poema Der Vampyr, de Heinrich August Ossenfelder, em que um homem rejeitado por uma donzela piedosa ameaça visitá-la durante a noite e sugar seu sangue, o poema narrativo Leonore, de Gottfried August Burger, e A Noiva de Corinto, de Goethe, em que uma jovem morta retorna de sua cova para visitar seu amado. Todas essas narrativas já possuíam, em maior ou menor grau, os elementos de erotismo, sedução e necrofilia que se tornariam típicos do gênero. 

Data também do século XVIII, na Inglaterra, o advento do romance gótico, cujos autores mais célebres seriam Horece Walpole e Ann Radcliffe. Embora seus romances não fizessem referência a vampiros, essas narrativas de teor sentimental uniam ingredientes sombrios e sobrenaturais a elementos melodramáticos. Antecipariam, assim, a literatura sobrenatural do nosso tempo. Nessas narrativas, já se revelava uma mescla de anseio e fascínio pela morte, evocada numa atmosfera de mistério e terror. Também num aspecto mais pragmático as nossas narrativas vampirescas foram antecipadas por esse gênero híbrido: o romance gótico tornou-se, até a primeira década do século XIX, um negócio bastante rentável para livreiros e escritores profissionais, ocupados em suprir a demanda de um número crescente de leitores incansáveis. 

Século XIX e Drácula

A partir desse século, com o advento do romantismo, encontros literários com vampiros se tornarão progressivamente mais recorrentes. Na Inglaterra, Samuel Taylor Coliridge, na virada do século, evoca o tema em seu poema inacabado Christabel, seguido por Robert Southey, em Thalaba. Lord Byron, em Giadour, narraria um encontro de seu herói com um vampiro antes ainda que John Polidori publicasse seu The Vampyre, em 1819, considerada a primeira narrativa em prosa a respeito do tema. Em Paris, em 1920, Lord Ruthwen ou Les Vampires, de Cyprien Berard, é publicado anonimamente. No mesmo ano, Le Vampire, peça de Charles Nodier, estreia no Théâtre de la Porte Saint-Martin. Em 1850, na mesma cidade, Alexandre Dumas estrearia O Vampiro, sua última peça.

Seria possível mencionar ainda muitos outros autores de diversos países do mundo ocidental. É, porém, inegável que a obra que consolidou a popularidade dos vampiros na literatura e forneceu as bases sobre a ficção contemporânea a respeito desse personagem foi Drácula, do autor Bram Stoker, publicada em 1897. A maior parte das características que atribuímos aos vampiros foi estabelecida por esse romance: o hábito de dormir em caixões durante o dia e acordar à noite, a extrema vulnerabilidade à luz do sol, a palidez cadavérica, a força descomunal, o pavor de crucifixos e dentes de alho, a capacidade de se transformar em morcegos, entre outras características propagadas. 

O romance, cujo protagonista é o Conde Drácula, inspirado no conde romeno Vlad Tepes III, conhecido como Vlad Dracul, evidencia de maneira bastante precisa o pavor do europeu esclarecido diante do Outro (que pode ser o eslavo, o judeu, o asiático), o temor do bretão colonizador diante da possibilidade de uma descolonização, de uma colonização às avessas, em que estrangeiros não civilizados invadiriam a nobre Inglaterra, ameaçando as conquistas da razão, revertendo o percurso da nascente Revolução Industrial. 

Século XX e Anne Rice

No século XX, a popularidade dos vampiros tornou-se ainda mais generalizada depois que sua figura começou a ser explorada no cinema. Em 1922, o alemão F. W. Murnau filmou Nosferatu, primeira adaptação cinematográfica de Drácula. Na Literatura, floresceram uma infinidade de épicos vampirescos, dentre os quais os mais célebres são as Crônicas Vampirescas, de Anne Rice, que incluem o romance Entrevista com o Vampiro e uma série de outras narrativas sobre o mesmo universo. 

Nos romances de Anne Rice, como em obras de outros autores da mesma época, nota-se uma evidente guinada na maneira como os vampiros são retratados. As histórias não são mais contadas do ponto de vista de um homem que se depara com um vampiro, mas, sim, dos próprios vampiros, fazendo com que o leitor se identifique com essas criaturas sobrenaturais. O vampiro deixa de ser o Outro para ser uma imagem projetada de mim mesmo, mais sedutora e ambivalente. O que encontramos são vampiros humanizados, repletos de conflitos psicológicos, reflexões existenciais e afeições duradouras. 

A sexualidade e o jogo de sedução continuam a ser elementos fundamentais. No entanto, embora os vampiros ainda suscitem sentimentos dúbios, o embate entre atração e repulsa é menos acirrado. Por trás dessa guinada, existe uma transposição espacial e simbólica: a guinada do Velho para o Novo Mundo. 

Em Entrevista com o Vampiro, a autora remete, por meio dos vampiros europeus que migram para a América, Louis e Lestat, à experiência da colonização. No início do livro, os dois vivem juntos numa propriedade escravocrata, que será incendiada pelos escravos revoltados após desvendar a natureza monstruosa de seus senhores. Uma vez que os vampiros são, em princípio, imortais, o romance pode refazer, à sua maneira, a trajetória dos Estados Unidos, do período da colonização até o momento presente, passando por uma temporada de retorno à Europa. Nos romances que se seguem, Lestat se torna, sintomaticamente, líder de uma banda de rock: de criadoras demoníacas e temíveis, os vampiros pós-modernos passam a ícones da cultura pop. 

Século XXI e Crepúsculo

Se for possível dizer que a figura dos vampiros já se encontra um tanto suavizada nos romances de Anne Rice, o que dizer, então, a respeito de Crepúsculo? Os vampiros protagonistas da série frequentam a escola, se alimentam do sangue de animais para evitar o sangue humano, não dormem em caixões, são bons alunos, cumprem suas promessas, podem se expor ao sol e jogam beisebol.  Trata-se fundamentalmente de uma história romântica. O vampiro adolescente Edward Cullen é uma espécie de Romeu contemporâneo. Há ainda um erotismo sutil na história, mas bastante suavizado. A vida dos vampiros é apenas uma versão um pouco mais glamourosa da vida comum. 

Em Entrevista com o Vampiro, o vampiro Louis ainda fala com nostalgia de seu último amanhecer, deixando claro que há um preço relativamente caro a pagar pela imortalidade. No caso dos vampiros de Stephenie Meyer, o preço a pagar parece ínfimo, diante das promessas de beleza sobrenatural e juventude eterna: “Eu os olhava por que seus rostos, tão diferentes, tão iguais, eram todos devastadoramente, inumanamente lindos”, diz Bella Swam, a respeito dos Cullen. “Eram rostos que você nunca espera encontrar além de, talvez, nas páginas editadas de uma revista de moda.” Os vampiros deixam de ser a imagem concretizada de nossos desejos obscuros e temíveis para se tornarem modelos, personificações de nossos ideais de beleza, juventude e até mesmo bom comportamento. Instaura-se uma separação entre vampiros bons e vampiros maus; o terror encontra-se praticamente ausente, substituído por momentos de ação e aventura, evocando as narrativas americanas de super-heróis. O vampiro Edward Cullen, mais do que um sedutor perigoso e carismático, como ainda o era Lestat, de Anne
 Rice, é de um bom- mocismo exemplar: faz questão de se apresentar oficialmente ao pai da virgem Bella como seu namorado, e ao final do primeiro romance leva a moça ao baile de formatura do colegial. Os vampiros finalmente podem sair ao sol: já não representam nenhum perigo para as nossas convenções sociais. Resta saber o que fazer com nossos temores, fetiches e obsessões.

registrado em: