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O pai da didática

por João Luiz Gasparin — publicado 30/07/2010 15h54, última modificação 30/07/2010 16h28
Comênio, pensador tcheco do século XVII, defendeu o ensino de “tudo para todos” e fundamentou um método para ensinar e aprender
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Gravura de Comênio para o seu livro de texto. Imagem: Hulton Archive/Getty Images

Comênio, pensador tcheco do século XVII, defendeu o ensino de “tudo para todos” e fundamentou um método para ensinar e aprender

“Didática significa arte de ensinar.” Este é o grande e solene anúncio de Comênio na saudação que faz aos leitores em Didáctica Magna, um tratado da arte universal de ensinar tudo a todos. Como um pensador atento a seu tempo, reúne nesta obra sua proposta metodológica que as escolas deveriam seguir no processo de ensino e de aprendizagem. Trata-se de uma expressão e uma resposta aos desafios sociais e educacionais do século XVII, em que se vivia a passagem da Idade Média para a Idade Moderna. Tudo estava em processo de mudança. Surgiam gradativamente uma nova forma de trabalho, a ciência, a filosofia, a literatura e a educação; realizavam-se grandes viagens; novas terras eram descobertas; tudo se universalizava. Tornava-se necessário que todas essas conquistas sociais e científicas passassem a ser parte do conhecimento escolar. Isso somente poderia acontecer se houvesse um processo pedagógico-didático que fosse do mesmo tamanho dos novos inventos universais humanos.

Comênio preocupou-se em apresentar os fundamentos sobre os quais se pudesse edificar um método de ensinar e de aprender com tal segurança que seria impossível não obter bons resultados. Esse método devia ter um fundamento tão sólido que conduzisse, com certeza e sem erro, ao progresso intelectual. As fontes principais desse método eram duas: a natureza e a tipografia.

A natureza como modelo de ensino
Em Didáctica Magna, Comênio faz um paralelo entre as coisas naturais e as coisas artificiais para apresentar sua nova arte de ensinar e aprender. Sobre o fundamento da natureza, como modelo da arte de ensinar, ele afirma: “Mas, como este fundamento não pode consistir senão em conformar, com o máximo cuidado possível, as operações desta arte com as normas que regulam as operações da natureza, [...] perscrutemos os caminhos da natureza, servindo-nos do exemplo de uma ave que faz sair dos ovos os seus filhos; e, observando como os jardineiros, os pintores e os arquitetos seguem felizmente os vestígios da natureza, facilmente veremos como é que eles devem também ser imitados pelos formadores da juventude”.

O primeiro fundamento sobre o qual Comênio assenta seu novo modo de ensinar é o da natureza perfeita. Os que seguirem os passos da natureza produzirão obras igualmente perfeitas. O modelo adotado é a ave. Como exemplo dos que seguem o proceder da ave ou da natureza encontram-se os artesãos: carpinteiros, jardineiros, pintores etc.

Ao eleger a natureza como modelo de sua didática, Comênio expressava seu tempo e a ele respondia pedagogicamente. Neste período, a ciência da natureza apresentava um grande desenvolvimento. O homem começava a passar do teocentrismo para o antropocentrismo, colocando o ser humano como centro do universo. Ao conhecer a natureza, o homem podia mais facilmente dominá-la, por isso se tornava senhor dela.

A concepção de natureza que está subjacente na obra de Comênio não é a natureza em si mesma, mas o conhecimento científico que o homem adquiriu sobre ela. Portanto, se os artesãos imitavam a natureza é porque haviam observado e descoberto como ela agia. Por isso, podiam imitar-lhe os passos em suas novas obras artificiais. Assim, ao tratar dos requisitos gerais para ensinar e aprender, Comênio apresenta quatro passos:
1º. Mostra o fundamento, segundo o qual a natureza nada faz fora de seu tempo. Para exemplificar, toma a ave como modelo. Ela, para multiplicar sua raça, começa a trabalhar na primavera, quando o sol dá vida e vigor a todos os seres.
2º. Aponta que o procedimento da natureza é imitado pelos artesãos, como o jardineiro que aguarda a hora certa para o plantio das flores.
3º. Explicita o desrespeito à natureza por aqueles que não seguem seus passos. Contrariando a natureza e os artesãos, que a imitam em suas obras, existe a aberração da natureza: os professores. Esses não seguem o modelo da ave, por isso os resultados de seu trabalho são, em sua maioria, desastrosos para a aprendizagem. Entre as muitas aberrações apontadas, apresentamos algumas: os professores não aproveitam o momento favorável para exercitar as inteligências; não organizam sequencialmente os exercícios; não se preocupam em preparar antecipadamente todos os objetos de que necessitam para o ensino; querem meter na cabeça dos alunos muitas coisas ao mesmo tempo; exigem que os alunos decorem as lições sem tê-las compreendido; obrigam as crianças a aprender pela força; constrangem as inteligências quando obrigam as crianças a fazer coisas superiores à sua idade ou à sua capacidade.
4º. Apresenta a correção para cada uma das aberrações assinaladas, mostrando como os professores devem imitar os artesãos, que, por sua vez, imitam a natureza que é perfeita. É uma tríplice correção: que a formação deve iniciar-se na primavera da vida, isto é, na puerícia; as horas da manhã são mais propícias para os estudos; tudo deve dispor-se segundo a idade, para que as crianças aprendam apenas aquilo que são capazes de entender.

A tipografia como modelo de ensino
Se, num primeiro momento, Comênio elege a natureza, numa segunda fase o centro de processo escolar passa a ser a imprensa. Assim se expressa: “Desejamos que o método de ensinar atinja tal perfeição que, entre a forma habitualmente usada até hoje e a nossa nova forma, apareça claramente que vai a diferença que vemos entre a arte de multiplicar os livros, copiando-os à pena, como era uso antigamente, e a arte da imprensa, que depois foi descoberta e agora é usada”.

Como a arte tipográfica é mais adequada para escrever livros com rapidez, precisão e elegância, assim também o novo método servirá para ensinar a um maior número de alunos com maior proveito e prazer. Comênio mostra todas as vantagens que a imprensa tem sobre a arte dos copistas, a tal ponto que deseja até mudar o nome da didática para didacografia.

O pensador compara a arte da tipografia, quanto aos materiais que utiliza e os trabalhos que são necessários para operar o novo invento, com o novo método didático. Assim, na tipografia os materiais são: papel, tipos, tinta, prelo; os trabalhos: preparação do papel, composição, paginação, colocar tinta nos tipos, a tiragem das folhas etc. Os procedimentos da tipografia e da nova didática são os mesmos: “Na didacografia (agrada-me usar esta palavra), as coisas se passam precisamente da mesma maneira. O papel são os alunos, em cujos espíritos devem ser impressos os caracteres das ciências. Os tipos são os livros didáticos e todos os outros instrumentos propositadamente preparados para que, com a sua ajuda, as coisas a aprender se imprimam nas mentes com pouca fadiga. A tinta é a viva-voz do professor que transfere o significado das coisas, dos livros para as mentes dos alunos. O prelo é a disciplina escolar que a todos dispõe e impele para se embeberem dos ensinamentos”.

Comênio, na sequência da citação acima, analisa, comparativa e detalhadamente, cada um dos procedimentos do tipógrafo e do professor, evidenciando sua nova arte e desejando que ela se instaure quanto antes em todas as escolas. O professor já não necessita imitar os artesãos, mas os tipógrafos, que não imitam diretamente a natureza natural, mas a natureza artificial.

Tanto no modelo da natureza quanto da tipografia, Comênio faz uma leitura cuidadosa e perspicaz de seu tempo. Percebeu que o bom professor não se faz em sala de aula com os métodos tradicionais de ensino. O bom professor é aquele que vive o seu tempo histórico-social, o registra e o leva para a sala de aula dando-lhe uma forma didática adequada para que os alunos aprendam de forma sistematizada o conteúdo e o constituam como parte de resposta aos problemas postos pela sociedade.

O modelo de professor que Comênio nos apresenta é o de um clássico, ou seja, de alguém que lê o seu tempo, o registra numa determinada perspectiva pessoal e social e o comunica à sociedade. Assim são os clássicos da música, da pintura, da escultura, da filosofia, da ciência e da educação. Comênio é um clássico da educação e da didática. Foi um revolucionário educacional do século XVII. Por isso imortalizou-se com suas obras. Elas expressam seu tempo e a ele respondem pedagogicamente. Os clássicos devem ser lidos e entendidos dentro de seu momento histórico. A eles é necessário retornar, mesmo que vivamos imersos na imensidão de obras de grandes pensadores atuais.

Os clássicos nos ensinam a ler o mundo e a registrar de maneira original sua apreensão. Eles não resolvem nossos problemas, mas nos ensinam a captar e responder ao nosso momento, com instrumentos e tecnologias de nossa época. Retornar a Comênio é progredir na educação e na didática.

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