Você está aqui: Página Inicial / Educação / Carta Fundamental / O grande confabulador

Carta Fundamental

Literatura

O grande confabulador

por Carta na Escola — publicado 28/05/2012 16h16, última modificação 28/05/2012 16h16
O frasista da irreverência Millôr Fernandes revisitou as fábulas clássicas e ironizou os costumes da sociedade brasileira
Millor Fernandes

O frasista da irreverência Millôr Fernandes revisitou as fábulas clássicas e ironizou os costumes da sociedade brasileira. Foto:Ricardo Moraes/Folhapress

Por Ana Mariza R. Filipouski*

Millôr Fernandes nasceu no Méier, bairro da zona norte do Rio de Janeiro, em 1924. Há controvérsias a respeito da data, que supostamente não seria a mesma da certidão, pois ficou órfão muito cedo (o pai morreu em 1925 e a mãe em 1934) e perderam-se muitas referências familiares. Por isso, repetindo recomendação de um amigo, adotou data e mês que constavam em seu documento de identidade: 27 de maio.

Ele e seus irmãos – eram quatro – foram criados por tios. A luta pela sobrevivência o fez cedo iniciar uma educação profissionalizante na Escola de Artes e Ofícios e, simultaneamente, o trabalho em jornal.

Um fato curioso de sua vida pessoal é que, até os 17 anos, foi conhecido por Milton. Nessa época, ao ler a certidão original de nascimento, que estava manuscrita, percebeu que a grafia do escrivão representava claramente Millôr. Gostou do nome, passou a divulgá-lo e logo tornou-se conhecido como tal.

Suas primeiras atividades na imprensa foram em O Jornal e na revista O Cruzeiro, na qual era responsável pela seção humorística Pif-Paf. A precocidade da iniciação profissional e a boa aceitação de seu trabalho favoreceram sua integração na intelectualidade carioca e deram início a uma formação autodidata.

Por volta de 1943, a revista O Cruzeiro tornou-se uma importante forma de comunicação nacional e alçou seus colaboradores à condição de quase ídolos, já que tinham posição equivalente à dos grandes comunicadores televisivos de hoje.

Desde então, muitos leitores brasileiros letrados acompanharam, por décadas, a produção de Millôr Fernandes: no Pasquim, na Veja, na IstoÉ, no Jornal do Brasil, na Folha de S.Paulo e no O Estado de S.Paulo, entre outros veículos impressos de grande circulação. Atualmente, boa parte de sua produção, mesmo publicada em livro, está disponível no “saite do Millôr” (www2.uol.com.br/millor/index.htm), onde sua obra aparece online: desenhos, textos diversos (“conpozissõis imfãtis”, fábulas, haicais, poemas, peças de teatro, frases soltas etc.). Nela há sempre um traço surpreendente, seja pelo lirismo inusitado, seja pelo prazer do uso da cor, pelo
exagero da representação das figuras ou pela irreverência que instiga o riso e torna o texto diferenciado, provocando estranhamento ao leitor.

De si, Millôr dizia ser um “franco-atirador”, impermeável às ideologias, e caracterizava-se com a frase “Livre como um táxi”. Esse traço pessoal o liga estreitamente a O Pasquim, semanário brasileiro editado entre 1969 e 1991, reconhecido por seu papel de oposição ao regime militar – do qual foi um dos idealizadores e editores, com a colaboração de outros intelectuais de renome, como Jaguar, Tarso de Castro, Henfil, Paulo Francis, Glauber Rocha, Chico Buarque e Rubem Fonseca,entre outros.

Em sua obra, o jeito de ver o mundo e de pensá-lo cotidianamente provoca de imediato a desconstrução da realidade, revela as mazelas do ser humano e denuncia a hipocrisia de suas formas de socialização, problematizando valores de convivência social e de dignidade pessoal. Por provocar o riso com argúcia e objetividade, sem grosserias, Millôr constrói um texto múltiplo, em que traço, cor e palavras muito dizem a respeito dos brasileiros e de suas circunstâncias.

Além de ser reconhecido como livre pensador, criativo e atuante em muitos setores da cultura midiática, também se destacou como tradutor, tendo sido responsável pela tradução de autores clássicos da dramaturgia ocidental, tais como Molière, Racine e Shakespeare, entre outros.

Millôr morreu aos 88 anos, em 27 de março último. Sua obra, bem-humorada e um pouco ácida, mas sempre criativa e inteligente, bem como sua contribuição para a cultura nacional, continuará como
um instigante desafio à compreensão de nossa condição.

*Por Ana Mariza R. Filipouski, professora, coautora de A Formação do Leitor Jovem: Temas e gêneros da literatura e de Leitura e Autoria: Planejamento em Língua Portuguesa e Literatura, ambos pela Edelbra

Mais Millôr Fernandes
Cadernos de Literatura Brasileira, 15: Millôr Fernandes. Rio de Janeiro: IMS, 2003.
Fernandes, Millôr. A Entrevista. Porto Alegre: L&PM, 2011.