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Carta Fundamental

Educação Financeira

Muito cartão, pouca informação

por Carta na Escola — publicado 13/12/2011 15h45, última modificação 13/12/2011 15h47
Escolas apresentam o universo financeiro a crianças e jovens e ensinam a fazer escolhas mais conscientes
financeira

Compra por impulso, falta de informação e crédito fácil estimulam o consumismo e endividam os jovens brasileiros. Foto: Renato Stockler/Folhapress

Já existe hoje quase um cartão de crédito por habitante no Brasil – são 153 milhões de cartões para uma população de 190 milhões de pessoas. O aquecimento da economia brasileira e a popularização do cartão, porém, não foram acompanhados por um maior esclarecimento da população sobre termos como juros e poupança. Realizada em 2008 pelo Instituto Data Popular, com 1.809 pessoas em seis capitais, a Pesquisa Nacional do Grau de Educação Financeira da População Brasileira revelou que o nível de conhecimento no assunto ainda é muito baixo. Entre as conclusões da pesquisa, estão que três em cada dez brasileiros pagam apenas o valor mínimo do cartão de crédito (ignorando os juros) e que 44% pediram dinheiro emprestado nos últimos meses. No caso das classes C e D, quase metade dos entrevistados (43%) com até três anos de estudo que fizeram compras a prazo optaram por parcelas de valores menores, ainda que essas prestações embutam juros altos e aumentem o preço final do produto.

Para introduzir os jovens no universo das finanças e prepará-los para fazer escolhas mais conscientes, escolas públicas e privadas estão investindo em aulas e programas desde os primeiros anos do Ensino Fundamental. Na rede pública, o projeto piloto da Estratégia Nacional de Educação Financeira (Enef) já está em vigor em 410 escolas dos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Ceará, Tocantins e do Distrito Federal (box). As instituições de ensino particulares também adotam diversas metodologias, a fim de desvendar o mundo financeiro para seus alunos.

Há dois anos, os professores de Matemática do Ensino Fundamental do colégio Encanto Juvenil receberam mais uma missão: ensinar conceitos de educação financeira para crianças e adolescentes de baixa renda, com idades entre 7 e 14 anos. Desde 2009, as turmas do segundo ao nono ano possuem em sua grade uma aula semanal de 45 minutos, na qual são discutidos termos como despesas prioritárias, consumo consciente, salário e faixa de renda. A escola, localizada no bairro Jardim Ângela, na periferia de São Paulo, utiliza a metodologia DSOP (iniciais de diagnosticar, sonhar, orçar e poupar), criada pelo educador financeiro Reinaldo Domingos. Presente em 67 escolas em oito estados brasileiros, a metodologia DSOP trabalha a educação financeira com foco no comportamento do indivíduo e no estabelecimento de hábitos e costumes. O educador defende a aplicação de conceitos de educação financeira desde os primeiros anos da criança na escola. “É muito mais fácil entrar com esses ensinamentos logo nos primeiros anos, porque é um trabalho de conscientização e familiarização”, conta. Segundo o diretor do colégio Encanto Juvenil, Jairo Lopes, os ensinamentos chegam a extrapolar os limites da sala de aula e batem na porta da casa dos alunos. “Às vezes o pai tem uma dúvida e pede para o filho perguntar na aula de educação financeira”, comemora.

Os alunos do Colégio Gutenberg, localizado em Mogi das Cruzes (SP), que utiliza a mesma metodologia, contam que aprenderam a contabilizar melhor os gastos e a pensar duas vezes antes de consumir. “Agora, quando vou a algum lugar, analiso o preço para guardar e comprar coisas legais que desejo com o meu próprio dinheiro”, relata Lucas Lorijola, do 6º ano do Ensino Fundamental. Diretor da escola, Leonardo Assis explica que os estudantes mais novos envolvem-se com educação financeira a partir de situações lúdicas. “Já os adolescentes são levados a discutir questões financeiras tendo o contexto social como plano de fundo”, afirma. As aulas são dadas uma vez por semana, em uma disciplina chamada Educação Financeira e Empreendedorismo e ministrada pelo professor de Matemática.

DIA MUNDIAL SEM COMPRAS
No colégio particular Magister, na zona sul de São Paulo, o fio condutor do programa de educação financeira é o livro Você Sabe Lidar com o Seu Dinheiro?, de Marília Cardoso e Luciano Gissi Fonseca. Os conteúdos do livro são distribuídos em duas disciplinas: Matemática e Língua Portuguesa. No caso da Matemática, a professora -Elisabeth Commans aproveita o gancho de temas próprios da disciplina, como regra de três, porcentagem e estatística, para trabalhar o assunto dinheiro com os estudantes. Em 2011, os alunos do sétimo ano do Ensino Fundamental saíram de férias com uma atividade na mochila: entrevistar diferentes grupos de pessoas sobre temas como orçamento e renda. Com os dados nas mãos, os estudantes montaram gráficos e apresentaram os resultados para os pais. Segundo a professora, a abordagem do tema na escola é importante para que os alunos entendam melhor o que é o dinheiro e seu valor. “Com as pesquisas, eles ficaram sabendo quanto ganha um aposentado, como os jovens gastam seu dinheiro em supérfluos e também um pouquinho sobre poupança e cartão de crédito.”

Forma de protesto contra o consumismo inicialmente criada em países de língua inglesa, o Buy Nothing Day (Dia Mundial sem Compras) também é comemorado pelos alunos da escola Stance Dual, como parte das atividades ligadas às aulas de educação financeira. Segundo a coordenadora do Ensino Fundamental I, Luciana Lapa, a data é um convite à conscientização. “Eles não são proibidos de comprar nem penalizados, mas são levados a refletir”, explica. A escola bilíngue localizada em São Paulo possui um programa de educação financeira há sete anos, estruturado a partir da metodologia desenvolvida pela consultora Cássia D’Aquino, que tem como objetivo ensinar crianças e adolescentes como poupar e planejar seus gastos. Os temas são abordados de maneira transversal desde o Ensino Infantil até o Fundamental II – além disso, há aulas específicas a cada 15 dias. Para Luciana, conceitos trabalhados com os alunos como ganhar, gastar, poupar e doar acabam extrapolando os limites da sala de aula e modificando a maneira como os próprios professores e coordenadores utilizam seus recursos. “Esses valores passam a fazer parte do nosso cotidiano.”