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Moacyr Scliar para crianças

por Regina Zilberman — publicado 09/05/2011 08h55, última modificação 10/05/2011 16h49
A obra infanto-juvenil do escritor gaúcho, morto neste ano, é rica e dialoga com clássicos da literatura brasileira. Por Regina Zilberman, para a Carta Fundamental
Moacyr Scliar para crianças

A obra infanto-juvenil do escritor gaúcho, morto este ano, é rica e dialoga com clássicos da literatura brasileira. Por Regina Zilberman, para a Carta Fundamental. Foto: Neco Varella/Folhapress

Moacyr Scliar nasceu em Porto Alegre (RS) em 1937. Seus pais eram europeus que migraram para a América em busca de melhor sorte. Judeus, haviam sido vítimas de perseguições em sua terra natal, e o Brasil se apresentava como nação acolhedora, que recebia os que a procuravam de modo amistoso e promissor.

O escritor gostava de contar que seus pais – especialmente sua mãe, professora – estimularam-no desde cedo à leitura de bons livros, de modo que o jovem logo se acostumou à literatura e à fantasia despertada pela ficção. Citava sua predileção por Monteiro Lobato, Viriato Correia e Erico Verissimo. Entre os internacionais, por Alexandre Dumas e Lewis Carroll, todos criadores de personagens que povoaram sua infância e adolescência.

Cedo se revelou sua vocação literária. Ele também dizia que publicou seu primeiro conto quando frequentava o secundário (atual Ensino Médio). É também por essa época que recebe um prêmio literário, o primeiro de muitos que se sucederiam ao longo de sua vida. Mas, profissionalmente, decide-se pela medicina, que acaba por constituir a matéria de seu livro inaugural, Histórias de um Médico em Formação, de 1962. No mesmo ano, participa de Nove do Sul, coletânea de narrativas que virá a constituir um marco na história da literatura do Rio Grande do Sul e que teve em Moacyr Scliar uma de suas principais expressões.

Embora tenha publicado mais um livro de contos, em 1964, Tempo de Espera, em parceria com Carlos Stein, Moacyr considera O Carnaval dos Animais o legítimo início de seu percurso de escritor. Este deslancha na década de 1970, quando aparecem alguns de seus já então importantes livros, como A Guerra do Bom Fim (1972), O Exército de um Homem Só (1973), Mês de Cães Danados (1977) e O Centauro no Jardim (1980), indicados aqui apenas os romances desse período.

É quando se sente suficientemente seguro no campo da criação literária que Moacyr Scliar começa a escrever para crianças e jovens. Os primeiros títulos aparecem entre 1981 e 1982, quando lança, respectivamente, as novelas Cavalos e Obeliscos e A Festa no Castelo. Desde então, sua produção somou mais de 30 livros, que pode ser diferenciada para crianças ou adolescentes. Algumas características são comuns a ambas, pois predominam a ação e o bom humor, a valorização da vida familiar, o respeito por professores e, sobretudo, a criação de personagens com as quais jovens leitores podem se identificar.

Considerando o número de obras produzidas por Scliar, é interessante pensá-las em três grandes grupos. O primeiro deles é formado por narrativas destinadas aos adolescentes, como os citados Cavalos e Obeliscos e A Festa no Castelo. Neste caso, as histórias são conduzidas por personagens jovens e idealistas que almejam transformar o mundo. Em A Festa no Castelo, por exemplo, o protagonista é Fernando, jovem de classe média que não se conforma com a acomodação de seu pai e entusiasma-se com as aventuras narradas pelo sapateiro Nicola. Essas levam Fernando e o amigo a buscarem realizar seus sonhos, de pendores socialistas, processo que faz com que a personagem principal experimente, nem sempre com êxito, suas próprias peripécias.

Constituem o segundo grupo as tramas voltadas às crianças, representadas nos textos por meio de figuras que vivenciam dificuldades pessoais, resolvidas seguidamente por adultos solidários, de preferência parentes do herói da narrativa. O Tio Que Flutuava, Uma História Só pra Mim, O Irmão Que Veio de Longe e Aquele Estranho Colega, o Meu Pai exemplificam esse grupo de livros, em que as personagens se caracterizam por necessidades interiores que se transformam em problemas, até serem solucionados.

Scliar produziu igualmente adaptações de clássicos da literatura brasileira, convertidos em narrativas ágeis, capazes de motivar o leitor, de preferência jovem, a buscar as obras em que o livro se baseou. Assim, Câmera na Mão, O Guarani no Coração atualiza o romance indianista de José de Alencar, O Mistério da Casa Verde retoma a matéria de O Alienista, novela de Machado de Assis, Ciumento de Carteirinha se apropria do tema central de Dom Casmurro, e O Sertão Vai Virar Mar, conforme sugere seu título, dialoga com Os Sertões, de Euclides da Cunha.

A produção dirigida ao público infantil e juvenil de Scliar acompanhou sua trajetória literária. Se os primeiros livros foram lançados quando o escritor já era uma referência, a continuidade da prática de redigir obras para crianças e adolescentes manteve-se constante pelas três décadas subsequentes. Assim, aparecem em paralelo os textos para leitores jovens, como Câmera na Mão, O Guarani no Coração, de 1998, e romances para adultos, como A Mulher Que Escreveu a Bíblia, de 1999. Da mesma maneira, O Mistério da Casa Verde é contemporâneo de Os Leopardos de Kafka, ambos publicados em 2000. E tanto Ciumento de Carteirinha quanto o romance Os Vendilhões do Templo, um dos mais bem-sucedidos do escritor, foram publicados em 2006.

A simultaneidade é reveladora de que, para Scliar, a literatura para crianças e jovens era tão importante quanto as narrativas encaminhadas para adultos. Desse modo, aquelas podem ser valorizadas, de uma parte, por sua qualidade própria e, de outro, por se constituírem em uma estação de passagem para o conjunto da obra de um dos mais estimados escritores brasileiros do fim do século XX, que nos deixou em fevereiro deste ano.

Regina Zilberman é professora e autora de O livro infantil na escola, entre outros