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Inovação ou modismo?

por Valéria Amorim Arantes — publicado 17/08/2010 15h40, última modificação 17/08/2010 17h53
Saiba como o ensino por competência pode provocar transformações na educação e vislumbrar melhorias da qualidade no setor

Saiba como o ensino por competência pode provocar transformações na educação e vislumbrar melhorias da qualidade no setor

No âmbito educativo, o conceito de competências vem ocupando cada vez mais espaço. Em especial, entre a década de 1990 e os primeiros anos do século XXI, tal conceito foi conquistando terreno nas instituições escolares, inclusive nas propostas de formação universitária. Fruto das críticas ao chamado “ensino tradicional” ou apenas um “modismo”? O que significa o ensino por competências? Afinal, ele representa ou não um avanço em relação aos modelos educativos existentes?

Para além da influência de determinadas ideias e práticas psicopedagógicas, a introdução do conceito de competências no campo educacional deve-se à mudança de paradigma no qual o mundo se encontra. Pressupõe romper com a simplificação que está posta na estrutura curricular tradicional – na qual as disciplinas estão isoladas em campos teóricos cada vez mais segmentados –, e reinventar uma escola que aborde a realidade em toda a sua complexidade.

Como nos adverte Joan Rué (no livro Educação e Competências: Pontos e contrapontos), o ensino por competências sinaliza uma tentativa de reequilibrar duas grandes funções da escola: formar pessoas para que possam desenvolver sua própria liberdade; ir além da capacitação nos programas escolares, baseados em disciplinas acadêmicas, proporcionando uma funcionalidade social e produtiva.

O foco de atuação pedagógica no ensino por competências é o aluno e sua ação. Com isso, temos pelo menos cinco características do conceito de competências: vínculo com a ideia de ação (a competência é adquirida na ação); envolvimento do aprendiz (envolve a pessoa com seus valores, atitudes, capacidades, conhecimentos etc.); é desenvolvido e expresso por meio de situações e problemas contextualizados (a competência é adquirida e desenvolvida em um determinado meio ou contexto); introduz um princípio de autorregulação e melhora (a própria ação do sujeito contribui para o autocontrole e para perceber se os resultados são ou não satisfatórios); envolve o exercício e o domínio das habilidades competentes da competência (o aprendizado se dá progressivamente e não de uma só vez).

Tais características sinalizam que, para além de uma mudança de cunho epistemológico no processo de ensino e aprendizagem (o indivíduo passa a ser foco da ação formadora), o ensino por competências refere-se a uma forma complexa de saber. Ensinar competências pressupõe intervir em situações reais que, por serem reais, sempre são complexas.

O desenvolvimento das competências se dá em contextos de ação e reflexão, por meio de situações-problema e na resolução de casos. Uma abordagem que assume problematizações concretas e situações reais como ponto de partida para o processo de ensino e aprendizagem. O protagonismo/ação do sujeito que aprende sobre os objetos de conhecimento, uma estrutura de ensino-aprendizagem que tem a experiência como base de sustentação e o desenvolvimento da autonomia dos estudantes estão entre os eixos de sustentação desta perspectiva.

Nesse cenário, o enfoque por competências exige do corpo docente uma mudança na forma de entender e de orientar o trabalho dos alunos. Trata-se, pois, de uma mudança de cultura. E sobre isso dois pontos parecem-nos importantes: o lugar dos conhecimentos no ensino por competências e o sistema de avaliação.

No que tange ao primeiro ponto, os professores precisam levar em conta os conteúdos pertinentes à situação em pauta e acompanhar o desenvolvimento dos estudantes. Afinal, à instituição escolar cabe trabalhar aqueles conteúdos curriculares social e historicamente estabelecidos e que devem, necessariamente, ser apreendidos. Afinal, eles são condição necessária para o acesso ao instrumental fundamental para a construção da cidadania e da inserção no trabalho. E ensiná-los é da competência dos professores. Ocorre que abordar os conteúdos escolares como fim em si mesmo não é suficiente nem adequado para o desenvolvimento de competências. Eles são recursos para promover o desenvolvimento dos alunos. É preciso esclarecer que o desenvolvimento das competências é resultado de uma conjunção de conhecimentos numa determinada situação-problema.

No que tange ao sistema de avaliação, no enfoque por competências dois princípios parecem qualificá-lo e enriquecê-lo: a noção de avaliação formadora, centrada e desenvolvida no próprio processo de aprendizagem; a autoavaliação, como fórmula para que o próprio aluno saiba exercer controle sobre sua aprendizagem. Com isso, os professores precisam ter um olhar apurado de como os alunos avançam no domínio das atitudes esperadas.

Como outras propostas inovadoras no campo da educação, o ensino por competências pode ser compreendido, ao mesmo tempo, como fruto de profundas transformações e portador de uma mudança paradigmática da forma de se conceber os atos de ensinar e de aprender. De um modo ou de outro, ele parece lançar novas luzes sobre o cotidiano escolar, permitindo vislumbrar novas perspectivas para a melhoria da qualidade do ensino brasileiro. Melhorias que favoreçam o pensamento complexo das próximas gerações.

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