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Carta Fundamental

Carta da Ana

História, escala e escola

por Ana Maria Machado — publicado 09/03/2012 15h58, última modificação 09/03/2012 15h58
Ana Maria Machado escreve sobre os desafios da educação do País, diante da nossa enorme escala e herança histórica
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Ter a quase totalidade das crianças em sala de aula só no início do século XXI é uma calamidade. Há de se começar a mudar. Ilustração: Nina Moraes

Caro professor,

Muitas vezes vemos resultados baixíssimos de avaliações educacionais no Brasil. Aplicam-se os testes, divulgam-se performances de diferentes países, e lá estamos nós nos últimos lugares. Entra ano e sai ano, a história se repete – mesmo que possa haver uma ou outra melhora aqui ou ali. Provavelmente isso indica que as mudanças são lentas. Mas outras nações (a Coreia é sempre lembrada nessa hora) já demonstraram que é possível melhorar muito, se essa metáfora é prioritária ou se define com clareza uma política pública global com esse objetivo.

Para bem situar a discussão, vale a pena insistir em ver coisas em seu contexto mais amplo. Para isso, trago duas considerações.

A primeira é a própria escala brasileira, com a qual convivemos naturalmente e estamos tão acostumados que, por vezes, esquecemos dela. Somos um país enorme, de população gigantesca. Por isso, a busca de paliativos não passa de gotas num oceano. Sinal de boa vontade, mas inócua. Precisamos também levar em conta o aspecto global. Basta um exemplo. Quando Fernando Morais era Secretário da Educação em São Paulo, contou numa entrevista ao jornalista Alexandre Machado que pensou em reforçar a merenda escolar dos alunos da rede pública, acrescentando um ovo por dia às refeições das crianças. Constatou que não era exequível fazer isso de uma hora para outra. Exigiria um planejamento cuidadoso e várias medidas prévias. Por uma razão muito simples: eram 6 milhões de alunos. Precisaria adquirir diariamente mais 6 milhões de ovos e mais um porcentual razoável para cobrir eventuais perdas de um produto tão perecível. Quase 7 milhões de ovos por dia. Mesmo que conseguisse que as galinhas pusessem mais ovos ou se incorporassem mais galinhas poedeiras, ainda precisaria de embalagens, depósitos, frete. Tudo isso apenas para o estado de São Paulo e sua rede pública, sem falar nos níveis municipais e federais nem nos outros estados. E não estamos discutindo os custos, mas partindo do pressuposto de que se decidiu fazer essas despesas, por considerar que são importantes e prioritárias. Esse exemplo simples mostra a situação que se enfrenta na distribuição de livros e material escolar.

Quando o ministro Paulo Renato, no governo Fernando Henrique, começou os programas de vasta distribuição de livros infantis (como o Literatura em Minha Casa) que chegassem a todo o ensino fundamental público, grande parte do tempo e dos esforços que precisaram correr paralelos, enquanto especialistas e editores montavam as coleções de livros, se destinavam a formar uma rede logística que permitisse a chegada desse material aos rincões do País.

Não estou pretendendo discutir nada disso, nem a merenda nem o material. Quero só acentuar o tamanho do problema. Os aspectos geográficos e demográficos, digamos.

Mas há também o aspecto histórico. Os nossos vergonhosos recordes, nos quais se insere a calamitosa situação do ensino. Basta lembrar alguns.

Fomos o último país ocidental a abolir a escravidão, e fizemos isso sem compensação financeira aos ex-escravos e sem lhes dar condições de começar uma vida independente e produtiva economicamente – ao contrário do que defendia, por exemplo, Joaquim Nabuco, e diferentemente do que ocorreu nos Estados Unidos, onde a lei assegurou a cada recém-libertado um acre de terra e uma mula para nela puxar o arado ou uma carroça. Pelo contrário, entre nós discutiu-se indenizar os ex-senhores por terem “perdido sua propriedade humana”. Educação para os antigos cativos e seus filhos? Era algo que não se cogitava. Mas, apesar disso – vejam nossas contradições –, os que conseguiram se educar, mesmo durante a vigência do regime escravocrata, tinham possibilidades de ascensão social. São muitos os negros e mulatos que, a duras penas e com muito sacrifício, se educaram e fizeram um nome em nossa história. Nem dá para enumerar, pois encheriam estas páginas. Basta citar escritores como Machado de Assis, Gonçalves Dias, Lima Barreto, músicos como José Maurício ou Carlos Gomes, artistas como Aleijadinho ou Timóteo da Costa, engenheiros como André Rebouças, políticos como José do Patrocínio ou Nilo Peçanha.

Só conseguimos ter em salas de aula a quase totalidade de nossas crianças em idade escolar agora, no começo do século XXI. Em países como a Argentina e o Uruguai essa foi uma conquista do século XIX e o analfabetismo não é problema há muito tempo.

Nossa primeira universidade foi criada no Governo Vargas, em 1932, ainda que antes houvesse algumas faculdades isoladas em alguns estados. A primeira universidade da América Espanhola foi criada poucos anos após o início da colônia, em Lima, no Peru, logo seguida por outras em outros países.

Ou seja, nossa defasagem é histórica. Nossa escala é assustadora. Não dá para esquecer isso. Mas por algum lugar se há de começar a mudar, e sem se contentar com menos. Cada vez mais estou convencida de que a maneira mais eficiente de agir sobre essa situação vergonhosa é investir no professor. Na sua formação. Na sua multiplicação, estando bem formados. Na sua remuneração justa, para atrair bons quadros. Nos recursos didáticos à sua disposição. Sem professores nada se alcançará.

Um abraço,
Ana Maria Machado

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