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Carta Fundamental

Meu primeiro grande livro

Encontro inesperado

por Edmir Perrotti — publicado 17/08/2010 15h46, última modificação 17/08/2010 17h52
Fui acompanhar meu pai, mestre de obras, em um sobrado. E lá encontrei uns livrões grandes, diferentes das cartilhas que eu estudava na escola
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Ilustração: Odilon Moraes

Fui acompanhar meu pai, mestre de obras, em um sobrado. E lá encontrei uns livrões grandes, diferentes das cartilhas que eu estudava na escola

Foi inesperado. Meu pai nunca me levava às obras onde trabalhava, exceto na festa da cumeeira. Talvez temesse que eu pudesse acabar gostando de pá, areia e cimento e, como ele, quisesse ser pedreiro. Não que desprezasse a profissão. Ao contrário, mesmo recatado, guardava orgulho do artesão fino que era. Repetidas vezes mencionou a admiração do Warchavchik, o grande arquiteto modernista, por seu trabalho.

Contudo, o talento em suas artes, por mais precioso que fosse, significava dinheiro curto, suado e trabalho de sol a sol. Sonhava certamente com dias melhores para os filhos.

Sei lá por que razão, certa manhã resolveu me levar à casa que estava reformando, próxima da nossa. Finalmente, eu, filho do mestre André, ia poder descobrir os encantos de um canteiro de obras em pleno funcionamento.

O sobrado era bonito e grande. Por conta da reforma, a sala de visitas estava vazia. Só lá no fundo havia um volume, coberto por um lençol empoeirado. Tão logo chegamos, meu pai me deixou por lá:

– Procure o que fazer!

Procurei imediatamente. Quis saber, claro, o que se escondia sob o tal lençol empoeirado. Assim que o afastei um pouco, vislumbrei um belo móvel de madeira escura pintada. Nunca tinha visto uma peça como aquela, e só chegando em casa fiquei sabendo pela minha mãe do que se tratava:

– É uma estante de livros. O tampo de vidro evita poeira!

Mais importante, no entanto, não foi o nome, mas a descoberta dos objetos ali guardados. Eram uns livrões, grandes como eu jamais vira, com capas esverdeadas e desenhos engraçados. Nada a ver com as cartilhas e os livrinhos escolares onde eu estudava Linguagem, Ciências, Geografia e até Educação Moral e Cívica! Qualquer criança curiosa os desejaria.

Como não houvesse ninguém na sala, puxei o lençol e descobri toda a estante. Lembro que reluziu sob o esplêndido sol que entrava pelos dois janelões da sala. Peguei rapidamente um dos livrões e abri-o. Na mesma hora, uma criatura pouco amigável apareceu diante de mim:

– Quem deu ordem para você pegar o que não é seu?

Quase morri de susto. Tinha certeza de que não havia ninguém ali. De onde, de repente, me apareceu aquela criaturazinha! Mas reagi:

– Quem disse que eu estava pegando o que não é meu?

– Vai ver estava até roubando o livro!

Bem, aí foi demais. Onde já se viu insinuação de que eu seria um ladrão. O sangue começou a ferver, as bochechas esquentaram, a língua destravou:

– Vê lá como fala comigo, menina! Quem é você? De onde apareceu?

– Vim com meu pai, seu cara de pavio. Ele constrói casas onde as crianças podem morar. Como essa que você pegou. Eu moro aí.

– Mora onde?– perguntei espantado

– Nesses livrões verdes...

– Acha que sou tonto, garota?

– Quem está falando que é tonto é você. Já ouviu falar de literatura?

– De quê?

Ela soletrou:

– L-i-t-e-r-a-t-u-r-a!

Como eu não respondesse, continuou:

– Pois fique sabendo que existem outros planetas e que não são exatamente como este em que você vive. Um deles é o planeta literatura.

– Que você não parece deste planeta, não parece mesmo. Com essas roupas, essa cara de boneca...

– Sou de um Sítio que não troco por nada.­

– Então por que está aqui?

– Você me chamou, abriu as portas da minha casa.

– Eu?

– É, você. E quando abrem as portas da minha casa, vou logo saindo. O Sítio do meu pai tem esse probleminha, Tenho de esperar gente como você aparecer para poder sair e andar por outros mundos. Logo eu que não suporto dependências!

– Mas você é uma criança !

– Comigo, não. Sou criança, mas detesto dependência e ficar presa nesse monte de papel e tinta. Quer saber, se pudesse fugia...

A conversa, que até então só tinha me causado espanto e certa irritação, foi tomando novos rumos. A garota-cara-de-boneca não era nada boba, viesse de onde viesse. Impossível não prestar atenção ao que dizia.

Quis saber o seu nome.

– Advinha.

– Como?

– Não vê televisão? Estou sempre por lá, levada pelo seu Júlio Gouveia e dona Tatiana
Belinky. Grandes sujeitos!

– Na minha casa não tem televisão. Como posso saber seu nome?

– Na sua escola não tem livros?

– Tem cartilha, dicionário. Esses livrões, a tal literatura, não tem, não.

– Pelo que vejo, apesar de poder abrir sozinho as portas de sua casa, você vive mais trancado do que eu.

– Deixe de comparação e me diz o seu nome!

– Tá bem. Eu me chamo Emília.

Assim que ela acabou de me dizer o nome, não sei por que, tive enorme vontade de escrevê-lo bem grande, na parede branca da sala. Peguei com avidez um pedaço de tijolo que estava por ali e caprichei na letra. Emília ficou encantada. Provavelmente, jamais tivesse visto alguém escrever com tijolos. Eu já, meu pai era pedreiro.

Apesar do arrebatamento, Emília não perdeu tempo.

– Detesto ficar nesta estante empoeirada. Me leve pra sua casa. É só pedir pro dono do livrão, ele empresta.

Pedi. E assim, ainda impúbere e imberbe, levei mulher para casa pela primeira vez. Como não houvesse estantes por lá, tive de acomodar a Emília na mesinha de cabeceira. Claro, acabamos íntimos, vivendo uma grande e arrebatadora paixão, alimentada pelos novos livrões com as histórias do Sítio que eu ia pegar emprestado na casa em reforma.

Mas a história da paixão não acabou aí. Como repartíamos o mesmo quarto, meu irmão acabou se interessando pela moça, também. Formamos, imaginem, um menage à trois. Claro, a situação foi bastante delicada, exigiu prolongadas considerações, mas o que fazer? Emília nos dizia que no mundo da literatura as coisas eram diferentes, que deixássemos de lado tolas convenções e fôssemos felizes. E fomos!

Confusão maior estava por vir. Meu irmão falou da Emília a amigos. Nunca tanta gente apareceu em casa! Todos querendo aproximar-se de nossa musa. E ela repartia-se, seduzia e deixava-se seduzir com naturalidade e pureza. E mais: por meninos e meninas! Sem distinções. Essa Emília era mesmo independência ou morte. De direito e de fato, filha do seu Lobato! Com ela, fui capturado para o mundo da imaginação, das emoções e dos desejos libertos, indispensáveis à purificação.

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