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Em defesa de outro mundo possível

por Edvania Torres Aguiar Gomes — publicado 05/05/2011 14h16, última modificação 05/05/2011 14h53
Pregar uma globalização solidária foi um dos legados de Milton Santos, negro de família pobre que se tornou referência na Geografia
Em defesa de outro mundo possível

Pregar uma globalização solidária foi um dos legados de Milton Santos, negro de família pobre que se tornou referência na Geografia. Foto: Olga Vlahou

A produção intelectual do geógrafo e educador Milton Santos constitui uma fonte acessível de interpretação geográfica dos processos de transformação do mundo contemporâneo. Sua obra transcende 40 livros, diversos artigos, conferências, orientações e entrevistas, entre outros meios de propagação de suas convicções aprofundadas em estudos na área de Filosofia, Sociologia, Economia e Geografia. Por meio de uma linguagem clara, Santos decifra conteúdos, processos, formas e estruturas que constituem o Espaço Geográfico. Seu foco central de atenção residia no direito do homem, respeitando a sua especificidade cultural em sua relação com a natureza. Seu legado inclui uma visão crítica da globalização capitaneada pelas grandes empresas e da crescente importância dos consumidores em detrimento dos cidadãos.

Milton Santos buscou, no processo da globalização, alternativas para outro mundo possível. Na sua obra mais divulgada, Por uma Outra Globalização, é lançado o desafio, segundo o compromisso do próprio autor de mostrar a realidade tal como ela é, e sugerir a realidade tal como ela pode vir a ser, com o compromisso de redução da desigualdade social, além de evocar as obrigações do Estado para com a Sociedade e dessa para com a Natureza. A escala da sua análise abrange do micro ao macro, das grandes corporações no mercado e o seu papel na vida dos países e das pessoas.

O paradigma da formação socioespacial
Milton Santos dizia que a história é feita do passado e do presente no sentido que articula o atual e o futuro como projeto, e a realização histórica constituiria um conjunto de possibilidades de se enxergar para além do presente. Como ele diz em Por uma Outra Globalização, para se analisar uma fase histórica, deve-se levar em conta o estado das técnicas de apropriação e da política.

Junto a isso, Santos entendia o espaço geo-gráfico como um sistema de objetos e de ações indissociavelmente articulado com a apropriação de elementos da natureza, e pela maneira como esta é conduzida pelos principais atores das sociedades. Nessas relações de poder, as grandes empresas e corporações que atuam em todo o mundo não se restringem ao âmbito econômico, mas também definem suas próprias políticas e acabam influindo nas políticas estatais. Na conjuntura competitiva que se estabelece na globalização atual, não há solidariedade com o território em suas especificidades sociais e naturais. A natureza, nesse contexto, ganha espaço somente como objeto de exploração pela ação dos homens.

Ainda dentro do contexto da globalização, o baiano criticava o deslumbramento com as novas tecnologias. Nas últimas décadas, houve mudança da competição das corporações para um campo de competitividade no qual a ciência e a tecnologia se transformam em cada vez mais necessárias e em busca da inovação contínua. Há apelos em suas obras para que se reflita sobre essa temática, pois acreditava que somente o uso humano daria sentido às próteses geradas nessa esfera de competitividade abstraída da existência humana em suas dimensões territoriais. Inconformado com a supervalorização que a humanidade dá à tecnologia, ele enfatizava que “as pessoas têm atribuído vida à técnica, mas as coisas não nos comandam”.

Em Por uma Outra Globalização, Milton Santos sugere que existem três formas de se analisar a globalização no mundo: como fábula, como perversidade e como possibilidade.

Na primeira, o mundo seria visto em perspectivas fantasiosas: a aldeia global homogeneizaria o planeta, quando ocorre o inverso, com desigualdades se acentuando; haveria a morte do Estado, quando na verdade ele está fortalecido a serviço dos interesses de grupos hegemônicos; o fim da ideologia, quando na verdade esse conceito faz parte de uma ideologia de globalização perversa.

Na globalização como perversidade destaca-se o mundo da competitividade não apenas para os grandes grupos, mas vinculando-se a comportamentos competitivos e ausência de solidariedade, impregnando a maior parte da população.

Na globalização como possibilidade, se potencializaria a miscigenação de recursos e da cultura. A universalidade possibilitaria a construção de uma nova história por meio do conhecimento concreto das possibilidades existentes. No filme Por uma Outra Globalização, documentário do diretor Silvio Tendler sobre a obra de Milton Santos, o geógrafo, em 1997, resume esses três paradigmas da globalização. “(...) (hoje) produzem-se ideias que são impostas. Nesse sentido, o que (a escritora Viviane) Forrester afirma a propósito da ‘magnífica ilusão’; parece-me correto. Mas é a partir dessa ilusão e dessa fábula que são impostas fórmulas que conduzem os países em sua economia, política e relações sociais. São fábulas perversas, como essa que fazem com que não discutamos a solidariedade. Toda a discussão sobre a Previdência se faz em bases contábeis e não levando em conta que a nação tem de ser solidária e todos temos de estar juntos. Todos os debates são feitos naturalizando a perversidade, através da naturalização da desigualdade social. É uma tristeza que a discussão sobre o desemprego se limite a uma relação mensal de números falsos.”

Entre o cidadão e o consumidor
A ideia de que os produtos comandam as pessoas é novamente reforçada por Milton Santos ao falar sobre a importância crescente da figura do consumidor em detrimento da do cidadão, sobretudo no livro O Espaço do Cidadão. Seus pontos de vista são realçados nessa entrevista concedida ao Jornal do Brasil em 6 de abril de 1997: “No Brasil, a expansão do consumo veio com o regime autoritário e continua com a democracia de mercado. Por conseguinte, essa expansão do consumo junto a essas duas estruturas de controle faz com que a opinião pública seja amortecida. Há muito mais espaço para o consumidor, esse espaço legitimado agora com o código do consumidor, e nada para o cidadão. Dessa forma, torna-se mais fácil aceitar um mundo onde são as coisas que comandam, e não os valores”.

A esse respeito ele era enfático sobre o papel da universidade e a responsabilidade dos intelectuais. A capitulação desses, segundo o geógrafo, é um fenômeno internacional já antigo e que se agravou com a globalização. Isso de alguma maneira perdura com a democracia de mercado de hoje. A intelectua-lidade brasileira organiza-se por meio de grupos fechados que necessitam fazer mais pressão, para sobreviver, do que de se reunir para pesquisar. Por isso tendem a se aproximar do establishment, o que reduz a sua força de pensamento, imaginação e crítica. Isso, para ele, se equivale a capitular.

Produção intelectual
Milton Santos nasceu em Brota do Macaúbas, Bahia, em 1926, vindo de família humilde. Os pais, professores primários, o incentivaram a estudar – ele sempre afirmava que o “ensinaram a olhar mais para frente do que para trás”. Milton formou-se em Direito em Salvador e, posteriormente, fez doutorado em Geografia na Universidade de Estrasburgo (França), disciplina que já havia lecionado durante o seu processo de formação. “Filósofo da geografia, um intelectual comprometido com os excluídos”, segundo o geomorfologista Aziz Ab’Saber. O governo militar no Brasil deixou suas marcas no geógrafo, inclusive físicas – teve derrame facial por ocasião de sua prisão, em 1964.

Foi redator do jornal A Tarde, em Salvador, e foi presidente da Comissão Estadual de Planejamento Econômico, além de professor na Universidade Federal da Bahia. Defendia as suas convicções políticas contrariando o regime militar. Suas propostas em defesa dos camponeses, da criação de imposto sobre fortunas e evasão de divisas, configuraram-no alvo de prisão e posterior demissão da UFBA. Em virtude do ambiente político e dos riscos, findou por aceitar convite para ser professor visitante na França – convite que se estendeu para outras atividades e países. Tendo sido consultor da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e da Organização dos Estados Americanos (OEA).

Regressou ao País em 1977, sendo professor assistente na Universidade Federal do Rio de Janeiro e, depois, na Universidade de São Paulo (USP), no Departamento de Geo-grafia, ao qual serviu até o fim de sua vida. Seu retorno representa um marco para a Geografia brasileira, dando início a um novo ciclo denominado, por seu conteúdo e método dialético, a Geografia Crítica.

Em 1994, Milton Santos tornou-se o único geógrafo fora do mundo anglo-saxão contemplado com o Prêmio Vautrin Lud, equivalente ao Nobel para a Geografia. Morreu aos 75 anos, vítima de câncer de próstata, em 2001.

Edvania Torres Aguiar Gomes é geógrafa e professora-adjunta de Geografia da UFPE

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